A
HISTÓRIA DO UNIVERSO
Capitulo I
Antes que
existisse uma estrela a brilhar, antes que houvesse anjos a cantar, já havia um
céu, o lar do Eterno, o único Deus. Perfeito em sabedoria, amor e glória, viveu
o Eterno uma eternidade, antes de concretizar o Seu lindo sonho, na criação do
Universo. Os incontáveis seres que compõem a criação foram, todos, idealizados
com muito carinho. Desde o íntimo átomo às gigantescas galáxias, tudo mereceu
Sua suprema atenção. Amante da música, Deus idealizou o Universo como uma
grande orquestra que, sob Sua regência, deveria vibrar acordes harmoniosos de
justiça e paz. Para cada criatura Ele compôs uma canção de amor. O Eterno
estava muito feliz, pois os Seus sonhos estavam para se realizar. Movendo-Se
com majestade, iniciou Sua obra de criação. Suas mãos moldaram primeiramente um
mundo de luz, e sobre ele uma montanha fulgurante sobre a qual estaria para
sempre firmado o trono do Universo. Ao monte sagrado Deus denominou: Sião. Da
base do trono, o Eterno fez jorrar um rio cristalino, para representar a vida que
d'Ele fluiria para todas as criaturas. Como sala do trono, criou um lindo
paraíso que se estendia por centenas de quilômetros ao redor do monte Sião. Ao
paraíso denominou: Éden. Ao sul do paraíso, em ambas as margens do rio da vida,
foram edificadas numerosas mansões adornadas de pedras preciosas, que se
destinavam aos anjos, os ministros do reino da luz. Circundando o Éden e as
mansões angelicais, construiu Deus uma muralha de jaspe luzente, ao longo da
qual podiam ser vistos grandes portais de pérolas. Com alegria, o Eterno
contemplou a Capital sonhada. A cidade em seu esplendor era como uma noiva
adornada, pronta para receber seu esposo. Carinhosamente, o grande Arquiteto a
denominou: Jerusalém, a Cidade da Paz. Deus estava para trazer à existência a primeira
criatura racional. Seria um anjo glorioso, de todos o mais honrado. Adornado
pelo brilho das pedras preciosas, esse anjo viveria sobre o monte Sião, como
representante do Rei dos reis diante do Universo. Com muito amor, o Criador
passou a modelar o primogênito dos anjos. Toda sabedoria aplicou ao formá-lo,
fazendo-o perfeito. Com ternura concedeu-lhe a vida; o formoso anjo, como que
despertando de um profundo sono, abriu os olhos e contemplou a face de seu
Autor. Com alegria, o Eterno mostrou-lhe as belezas do paraíso, falando-lhe de
Seus planos, que começavam a se concretizar. Ao ser conduzido ao lugar de sua
morada, junto ao trono, o príncipe dos anjos ficou agradecido e, com voz
melodiosa, entoou seu primeiro cântico de louvor. Das alturas de Sião, descortinava-se,
aos olhos do formoso anjo, Jerusalém em sua vastidão e esplendor. O rio da
vida, ao deslizar sereno em meio à Cidade, assemelhava-se a uma larga avenida,
espelhando as belezas do jardim do Éden e das mansões angelicais. Envolvendo o
primogênito dos anjos com Seu manto de luz, o Eterno passou a falar-lhe dos
princípios que haveriam de reger o reino universal. Leis físicas e morais
deveriam ser respeitadas em toda a extensão do governo divino. As leis morais
resumiam-se em dois princípios básicos: amar a Deus sobre todas as coisas e ao
próximo corno a Si mesmo. Cada criatura racional deveria ser um canal por meio
do qual o Eterno pudesse jorrar aos outros vida e luz. Dessa forma, o Universo
cresceria em harmonia, felicidade e paz. No reino de Deus, as leis não seriam
impostas com tirania; Os súditos seriam livres. A obediência deveria surgir
espontânea, num gesto de reconhecimento e gratidão. Nesse reino de liberdade, a
desobediência também seria possível. O resultado de tal comportamento seria o
esvaziamento das forcas vitais. Depois de revelar ao formoso anjo as leis de
Seu governo, o Eterno confiou-lhe uma missão de grande responsabilidade: seria
o protetor daquelas leis, devendo honrá-las e revelá-las ao Universo prestes a
ser criado. Com o coração transbordante de amor a Deus e aos semelhantes,
caber-lhe-ia ser um modelo de perfeição: seria Lúcifer, o portador da luz. O
príncipe dos anjos; agradecido por tudo, prostrou-se ante o amoroso Rei,
prometendo-Lhe eterna fidelidade. O Eterno continuou Sua obra de criação,
trazendo à existência inumeráveis hostes de anjos, os ministros do reino da
luz. A Cidade Santa ficou povoada por essas criaturas radiantes que, felizes e
gratas, uniam as vozes em belíssimos cânticos de louvor ao Criador. Deus traria
agora à existência o Universo que, repleto de vida, giraria em torno de Seu
trono firmado em Sião. Acompanhado por Seus ministros, partiu para a grandiosa
realização. Depois de contemplar o vazio imenso, o Eterno ergueu as poderosas
mãos, ordenando a materialização das multiformes maravilhas que haveriam de
compor o Cosmo. Sua ordem, qual trovão, ecoou por todas as partes, fazendo
surgir, como que por encanto, galáxias sem conta, repletas de mundos e sóis -
paraísos de vida e alegria -, tudo girando harmoniosamente em torno do monte
Sião. Ao presenciarem tão grande feito do supremo Rei, as hostes angelicais
prostraram-se, fazendo ecoar pelo espaço iluminado um cântico de triunfo, em
saudação à vida. Todo o Universo uniu-se nesse cântico de gratidão, em promessa
de eterna fidelidade ao Criador. Guiados pelo Eterno, os anjos passaram a
conhecer as riquezas do Universo. Nessa excursão sideral, ficaram admirados
ante a vastidão do reino da luz. Por todas as partes encontravam mundos
habitados por criaturas felizes que os recebiam em festa. Os anjos saudavam-nos
com cânticos que falavam das boas novas daquele reino de paz. Tão preciosa como
a vida, a liberdade de escolha, através da qual as criaturas poderiam
demonstrar seu amor ao Criador, exigia um teste de fidelidade. Com o propósito
de revelá-lo, o Eterno conduziu as hostes por entre o espaço iluminado, até se
aproximarem de um abismo de trevas que contrastava com o imenso brilho das
galáxias. Ao longe, esse abismo revelara-se insignificante aos olhos dos anjos,
como um pontinho sem luz; mas à medida de sua aproximação, mostrou-se em sua
enormidade. O Criador, que a cada passo revelava aos anjos os mistérios de Seu
reino, ficou ali silencioso, como que guardando para Si um segredo. As trevas
daquele abismo consistiam no teste da fidelidade. Voltando-Se para as hostes, o
Eterno solenemente afirmou: -"Todos os tesouros da luz estarão abertos ao
vosso conhecimento, menos os segredos ocultos pelas trevas. Sois livres para me
servirem ou não. Amando a luz estareis ligados à Fonte da Vida". Com estas
palavras, fez Deus separação entre a luz e as trevas, o bem e o mal. O Universo
era livre para escolher seu destino.
A História do
Universo Capitulo II
O tão acalentado
sonho do Criador se concretizara. Agora, como Pai carinhoso, conduzia as
criaturas através de uma eternidade de harmonia e paz. Em virtude do
cumprimento das leis divinas, o Universo expandia-se em felicidade e glória.
Havia um forte elo de amor, que a todos unia fortemente. Os seres racionais,
dotados da capacidade de um desenvolvimento infinito, encontravam indizível
prazer em aprender os inesgotáveis tesouros da Sabedoria divina,
transmitindo-os aos semelhantes. Eram como canais por meio dos quais a Fonte da
Eterna Vida nutria a todos de amor e luz. Em Jerusalém, os ministros do reino
reuniam-se ante o soberano Rei, sempre prontos a cumprir os Seus propósitos.
Era através de Lúcifer que o Eterno tornava manifesto os Seus desígnios. Depois
de receber uma nova revelação, ele prontamente a transmitia às hostes
angelicais. Estas, por sua vez, a compartilhavam com a criação. Em célere vôo
os anjos rumavam para os planetas capitais, onde, em grandes assembléias,
reuniam-se os representantes dos demais mundos. Em muitas dessas assembléias,
Lúcifer fazia-se presente, enchendo os participantes de alegria e admiração.
Perfeito em todas as virtudes, ele os cativava com sua simpatia. Nenhum outro
anjo conseguia revelar como ele os mistérios do amor do Eterno. O Universo,
alimentando-se da Fonte da Vida, expandia-se numa eternidade de perfeita paz. A
obediência às leis divinas era o fundamento de todo progresso e felicidade.
Ainda que conscientes do livre-arbítrio, jamais subira ao coração de qualquer
criatura o desejo de se afastar do Criador. Assim foi por muito tempo, até que
tal problema irrompeu na vida daquele que era o mais íntimo do Eterno. Lúcifer,
que dedicara sua vida ao conhecimento dos mistérios da luz, sentiu-se aos
poucos atraído pelas trevas. O Rei do Universo, aos olhos de quem nada pode ser
encoberto, acompanhou com tristeza os seus passos no caminho descendente que
leva à morte. A princípio, uma pequena curiosidade levou Lúcifer a se aproximar
daquele abismo profundo. Contemplando-o, ele começou a indagar o porquê de não
poder compreender o seu enigma. Retornando a seu lugar de honra, junto ao
trono, prostrou-se ante o divino Rei, suplicando-Lhe: - Pai, dá-me a conhecer
os segredos das trevas, assim como me revelas a luz. Ante o pedido do formoso
anjo, o Eterno, com voz expressiva de tristeza, disse-lhe: - Meu filho, você
foi criado para a luz, que é vida. Convencendo-se de que o Criador não lhe
revelaria os tesouros das trevas, Lúcifer decidiu compreender por si mesmo o
enigma. Julgava-se capacitado para tanto. Com esta triste decisão, o príncipe
dos anjos permitiu que surgisse em seu coração uma mancha de pecado que poderia
trazer uma catástrofe para o Universo. Só Deus sabia o que se passava no
coração de Lúcifer. O anjo, que fora criado para ser o portador da luz, estava
divorciando-se em pensamentos do bondoso Criador que, num esforço de impedir o
desastre, rogava-lhe permanecer a Seu lado. Uma tremenda luta passou a
travar-se em seu íntimo. O desejo de conhecer o sentido das trevas era imenso,
contudo, os rogos daquele amoroso Pai, a quem não queria também perder, o
torturavam. Vendo o sofrimento que sua atitude causava ao Criador, às vezes
demonstrava arrependimento, mas voltava a cair. Antes de criar o Universo, Deus
já previra a possibilidade de uma rebelião. O risco de conceder liberdade às
criaturas era imenso, mas, sem este dom, a vida não teria sentido. O Eterno não
queria reinar sobre robôs, programados para fazerem somente a Sua vontade. Ele
queria que a obediência fosse fruto de reconhecimento e amor, por isso decidiu
correr o grande risco. Ainda que prosseguisse na busca do sentido das trevas,
Lúcifer não pretendia abandonar a luz. Esforçava-se para chegar a uma
combinação entre essas partes que, no reino do Eterno, coexistiam separadas.
Finalmente, com um sentimento de exaltação, concebeu uma teoria enganosa, que
pretendia apresentar ao Universo como um novo sistema de governo, superior ao
governar do Eterno. Denominou sua teoria de "a ciência do bem e do
mal". Estruturada na lógica, a ciência do bem e do mal se revelou atraente
aos olhos de Lúcifer, parecendo descerrar um sentido de vida superior àquele
oferecido pelo Criador, cujo reino possibilitava unicamente o conhecimento
experimental do bem. No novo sistema, haveria equilíbrio entre o bem e o mal,
entre o amor e o egoísmo, entre a luz e as trevas. Ao longo do tempo em que
amadurecera em sua mente a ciência do bem e do mal, Lúcifer soube guardar
segredo diante do Universo. Continuava em seu posto de honra, cumprindo a
função de Portador da Luz. Contudo, por mais que procurasse fingir, seu semblante
já não revelava alegria em servir ao Eterno. O divino Rei, que sofria em
silêncio, procurava, por meio de Suas revelações de amor, preparar as criaturas
racionais para a grande prova que se aproximava. Sabia que muitos dariam ouvido
à tentação, voltando-Lhe as costas. À noite da provação faria sobressair,
contudo, os verdadeiros fiéis - aqueles que serviam ao Criador não por
interesse, mas por amor. Ao ver que a hora da prova chegara, e que Lúcifer
estava pronto para traí-Lo diante do Universo, o Eterno, que jamais cessara de
revelar os tesouros de Sua sabedoria, tornou-se silencioso e contemplativo. O
silêncio fez reviver no coração das hostes a lembrança daquela primeira
excursão sideral, quando, depois de lhes mostrar as riquezas do reino da luz, Deus
tornou-se silencioso ante aquele abismo. Lembram-se de Suas palavras:
"Todos os tesouros da luz estarão abertos ao vosso conhecimento, menos os
segredos ocultos pelas trevas. Sois livres para me servirem ou não. Amando a
luz estareis ligados à Fonte da Vida". Lúcifer, que passara a cobiçar o
trono de Deus, indagou-Lhe o motivo de Seu silêncio. O Criador, contemplando-o
com infinita tristeza, disse-lhe: "É chegada à hora das trevas. Você é
livre para realizar seus propósitos". Vendo que o momento propício para a
propagação de sua teoria havia chegado, Lúcifer convocou os anjos para uma
reunião especial. As hostes, desejosas de conhecer o significado do silêncio do
Pai, tomaram seus lugares junto ao magnífico anjo, que sempre lhes revelara os
tesouros do reino da luz. Lúcifer começou seu discurso exaltando, como de
costume, o governo do Eterno. Num amplo retrospecto, lembrou-lhes as grandiosas
revelações que os enriquecera em toda aquela eternidade. O silêncio divino,
apresentou-o como sendo a indicação de que o Universo alcançara a plenitude do
conhecimento oriundo da luz. Silenciando, o Eterno abria-lhes caminho para o
entendimento de mistérios ainda não sondados, mantidos até então além dos
limites de Seu governo. Surpresas, as hostes tomaram conhecimento da
experiência de Lúcifer sobre as trevas. Com eloqüência, ele falou-lhes da
ciência do bem e do mal, indicando-a como o caminho das maiores realizações. O
efeito de suas palavras logo se fez sentir em todo o Universo. A questão era
decisiva e explosiva, gerando pela primeira vez discórdia. Os seres racionais,
em sua prova, tinham de optar por permanecer somente com o conhecimento da luz,
o qual Lúcifer afirmava haver chegado ao seu limite, ou se aventurar no
conhecimento da ciência do bem e do mal. No começo, os anjos debateram-se
diante da questão, sendo logo depois todo o Universo posto à prova. Dir-se-ia
que a ciência do bem e do mal haveria de arrebanhar a maior parte das
criaturas, mas, aos poucos, muitos que a princípio se empolgaram com a teoria,
despertaram para a ilusão da mesma, reafirmando sua fidelidade ao reino da luz.
Ao fim desse conflito, que se arrastou por longo tempo, revelou-se um terço das
estrelas do céu ao lado de Lúcifer, e as restantes, ainda que abaladas pela
prova ao lado do Eterno. A ciência do bem e do mal fora apregoada por Lúcifer
como um novo sistema de governo. Mas como exercê-lo, se o Eterno continuava
reinando em Sião? Precisavam encontrar um meio de afastá-Lo dali. O conselho,
formado pelos anjos rebeldes, passou a tratar disso. Decidiram, finalmente,
solicitar-Lhe o trono por um tempo determinado, no qual poderiam demonstrar a
excelência do novo sistema de governo. Caso fosse aprovado pelo Universo, o
novo sistema se estabeleceria para sempre; caso contrário, o domínio retornaria
ao Criador. Foi assim que Lúcifer, acompanhado por suas hostes, aproximou-se
arrogante d'Aquele Pai sofredor, fazendo-Lhe tal pedido. O Eterno não era
ambicioso, apenas queria bem às Suas criaturas. Se a ciência do bem e do mal
consistisse realmente num bem maior, não Se oporia à sua implantação, cedendo o
trono a seus defensores. Mas Ele sabia que aquele caminho conduziria à
infelicidade e à morte. Movido por Seu amor protetor, o Criador desatendeu o
pedido das hostes rebeldes, que se afastaram enfurecidas. A lhes ser negado o
trono, Lúcifer e suas hostes passaram a acusar o divino Rei, proclamando ser o
seu governo de tirania. Afirmavam ser sua permanência no trono a mais patente
demonstração de Sua arbitrariedade. Não lhes concedera liberdade de escolha?
For que neutralizá-la agora, impedindo-os de pôr em prática um sistema de
governo superior? As acusações das hostes rebeldes repercutiram por todo o
Universo, fazendo parecer que o governo do Eterno era injusto. Isto trouxe
profunda angústia àqueles que permaneciam fiéis ao reino da luz. Não sabendo
como refutar tais acusações, essas criaturas, emudecidas pela dor moral,
ansiavam pelo momento em que novas revelações procedentes do Criador pudessem
aclarar-lhes os mistérios desse grande conflito. As acusações e blasfêmias das
hostes rebeldes alcançavam o ponto culminante quando o Eterno, num gesto
surpreendente, ergueu-se de Seu trono, como que pronto a deixá-lo. Os infiéis,
na expectativa de uma conquista, aquietaram-se, enquanto um sentimento de temor
penetrava no coração dos súditos da luz. Entregaria Ele o domínio de toda a
criação, para livrar-Se das vis acusações? De acordo com a lógica a partir da
qual Lúcifer fundamentava seus ensinamentos, não restava alternativa ao
Criador. Nesta tremenda expectativa, o Universo acompanhava os passos de Deus.
Num gesto de humildade, o Criador despojou-Se de Sua coroa e de Seu manto real,
depondo-os sobre o alvo trono. Em Seu semblante não havia expressão de
ressentimento ou ira, mas de infinito amor e tristeza. Com solenidade, o Eterno
proclamou que o momento decisivo chegara, quando cada criatura deveria selar
sua decisão ao lado da luz ou das trevas. Numa ampla revelação, alertou para as
conseqüências de um rompimento com a Fonte da Vida. Com olhar de ternura o
Criador contemplou seus filhos. Era um olhar de humildade, que cheio de amor,
suplicava para que permanecessem ao Seu lado. Incontáveis criaturas,
emocionadas, corresponderam ao Seu olhar de bondade, enquanto uma multidão se
manteve cabisbaixa. Lúcifer e seus seguidores estavam conscientes da seriedade
daquele momento. Ainda era possível voltar atrás em seus planos, entregando-se
arrependidos ao divino Pai que sempre os amara. Enquanto cabisbaixos
consideravam sobre a decisão final, Lúcifer e seus adeptos ouviam o cântico
daqueles que, em reconhecimento e gratidão, colocavam-se ao lado do Eterno. A
última luta travava-se no coração dos infiéis que, estremecidos, chegaram a
pensar em recuar. Finalmente, a lembrança do recente gesto divino,
despojando-Se da coroa, deu-lhes a certeza de que o governo lhes seria
entregue. Vendo que o Trono permanecia vazio, Lúcifer e suas hostes, dominados
pela cobiça, romperam definitivamente com o Criador Ao ver um terço dos súditos
transpor as divisas da eterna separação, Deus deixou extravasar a dor
angustiante que por tanto tempo martirizava Seu coração, curvando-Se em
inconsolável pranto. Contemplando Seus filhos rebeldes, ergueu a voz numa
lamentação dolorosa: "Meus filhos, meus filhos! Já não posso chamá-los assim!
Queria tanto tê-los nos braços meus! Lembro-Me quando os formei com carinho!
Vocês surgiram felizes e perfeitos, em acordes de esperança em eterna harmonia!
Vivi para vocês, cobrindo-os de glória e poder! Vocês foram a minha alegria!
Por que seus corações mudaram tanto? O que mais poderia eu ter feito para
fazê-los permanecer comigo? Hoje minh'alma sangra em dor pela separação eterna!
Como olharei para os lugares vazios onde tantas vezes rejubilantes ergueram as
vozes em hosanas festivas, sem me vir à mente um misto da felicidade e dor?!
Saudade infinita já invade o meu ser, e sei que será eterna! Hoje o meu coração
rompeu e quebrou-se; as cicatrizes carregarei para sempre! Depois de proclamar
em pranto tão dolorosa lamentação, o Eterno, dirigindo-Se a Lúcifer, o causador
de todo o mal, disse: "Você recebeu um nome de honra ao ser criado. Agora
não mais o chamarão Lúcifer, mas Satã, o inimigo do Criador e de Suas
leis." Depois de lamentar a perdição das hostes rebeldes, o Eterno, em
lentos passos, ausentou-se do jardim do Éden, lugar do trono Universal.. Onde
seria agora a Sua morada? As hostes fiéis acompanharam reverentes os Seus
misteriosos passos de abandono, que pareciam descerrar um futuro difícil, de
sofrimentos e humilhações. Ocupariam os rebeldes o divino trono, profanando-o
como domínio do pecado? Esta indagação torturava o coração dos súditos do
Eterno. Deixando Sua amada Cidade, o Senhor da luz conduziu-Se, em meio às
glórias do Universo, em direção do abismo imenso, a respeito do qual silenciara
até então. Ali deteve-Se mais uma vez, emudecido, enquanto parecia ler nas
trevas um futuro de grandes lutas. Ante o sofrimento do Eterno, expresso na
tristeza de Seu semblante, os fiéis puderam finalmente compreender o
significado daquele misterioso abismo: consistia numa representação simbólica
do reino da rebeldia. Na face entristecida de Deus manifestou-se, por fim, um
brilho que aos fiéis animou. Erguendo os poderosos braços ante as trevas,
ordenou em alta voz: "Haja luz." Imediatamente, a luz de Sua presença
inundou o profundo abismo e, triunfando sobre as trevas, revelou um mundo
inacabado, coberto por cristalinas águas. Com esse gesto, iniciava o Eterno uma
grande batalha pela reivindicação de Seu governo de luz; batalha do amor contra
o egoísmo; da justiça contra a injustiça; da humildade contra o orgulho; da
liberdade contra a escravidão; da vida contra a morte. Batalha que, sem trégua,
se estenderia até que, no alvorecer almejado, pudesse o divino Rei retornar
vitorioso ao santo monte Sião, onde, entronizado em meio aos louvores dos
remidos, reinaria para sempre em perfeita paz. As trevas, em sua fuga,
apontavam para o aniquilamento final da rebeldia. As águas abundantes que
cobriam aquele mundo, até então oculto, simbolizavam a vida eterna que para os
fiéis seria conquistada pelo amor que tudo sacrifica. O mundo revelado era a
Terra. Visitada pelas trevas e pela luz, ela seria o palco da grande luta.
Rejubilavam-se os fiéis ante o triunfo da luz naquele primeiro dia, quando as
trevas em sua fúria rolaram sobre o planeta, sucumbindo-o em densa escuridão. A
luz, que parecia vencida, renasceu vitoriosa num lindo alvorecer. Ao raiar a
luz do segundo dia, o Eterno ordenou: "Haja uma expansão no meio das
águas, e haja separação entre água e águas." Imediatamente, o calor de Sua
luz fez com que imensa quantidade de vapor se elevasse das águas, envolvendo o
planeta num manto de transparência anil. Surgiu assim a atmosfera, com sua
mistura perfeita de gases que seriam essenciais à vida que em breve coroaria o
planeta. O Criador, contemplando a expansão, denominou-a "céus". A
atmosfera, que cheia de brilho envolvia a Terra, sombreou-se ao sobrevir o
crepúsculo de um outro entardecer.
A História do
Universo Capitulo III
Ao serem vencidas
as trevas no terceiro dia, o Criador prosseguiu Sua obra, fazendo surgir os
imensos continentes que ainda estavam sob a superfície das águas. Com as mãos
erguidas ordenou: "Ajuntem-se às águas debaixo dos céus num lugar e
apareça a porção seca." Em pronta obediência, as cristalinas águas cederam
sua posição superior à porção seca que se ergueu, sobrepondo-se a elas. Nas
regiões baixas da Terra, as águas continuariam refletindo o brilho celeste,
sendo um refrigério para as criaturas sedentas. Nesse gesto de humildade, as
águas prefiguravam o Criador, que na grande luta desceria ao mais profundo
abismo para fazer renascer nas almas sedentas a vida eterna. Contemplando a
face daquele novo mundo, o Eterno denominou a parte seca "terra", e
ao ajuntamento das águas chamou "mares". Com Sua poderosa voz
prosseguiu, ordenando: "Produza a terra erva verde, erva que dê semente,
árvore frutífera que dê fruto segundo a sua espécie, cuja semente esteja nela
sobre a terra." Em obediência ao mando divino, a superfície sólida do
planeta revestiu-se de toda sorte de vegetação: lindos prados a florir, campos
verdejantes entrecortados por rios cristalinos, florestas sem fim onde árvores
frondosas deixavam pender frutos saborosos de infindáveis espécies. A Terra era
como uma tela onde o Criador, pelo poder de Sua palavra, coloria quadros de
beleza sem par. Enquanto com admiração as hostes contemplavam as belezas
daquela criação, surpreenderam-se ao reconhecer sobre o novo planeta o jardim
do Éden, lugar do trono divino. O Eterno, pelo poder de Sua palavra, o havia
transferido para o seio daquele mundo especial, onde em justiça seria
confirmado o governo do Universo. Naquele dia primaveril, a brisa acariciou
mansamente as verdes florestas e os prados em flor, inundando a atmosfera com
suave aroma e frescor. Contemplando Sua obra, o Criador com felicidade
exclamou: "Eis que tudo é muito bom." Exuberante, o planeta cumpriu
mais um dia em sua harmoniosa rotação. As hostes fiéis agora podiam compreender
melhor a importância da luz divinal. Sua ausência havia ofuscado, naquela
noite, as belezas de Sião. Nesse novo dia, o Criador expressaria o Seu grande
poder, dando à Terra luminares que a encheriam de luz e calor. Esses luminares
permaneceriam para sempre como símbolos da presença espiritual do Eterno, que é
a fonte de toda a luz. Contemplando o espaço escuro e vazio que se estendia ao
redor da Terra, com potente voz ordenou: "Haja luminares na expansão dos
céus, para haver separação entre o dia e a noite; sejam eles para sinais e para
tempos determinados, para dias e anos. E sejam para luminares na expansão dos
céus para alumiarem a Terra." Imediatamente, o espaço tornou-se radiante
pelo brilho do sol e pelo reflexo de planetas e satélites. Ante esta
demonstração de poder, as hostes fiéis curvaram-se em reverente adoração. No
quarto dia, o Eterno criou os mundos de nosso sistema solar não para serem
habitados como a Terra, mas para o equilíbrio do sistema. Encheriam também o
céu de fulgor, abrandando as trevas das noites terrenas. Volvendo os olhos para
a Terra, as hostes alegraram-se por vê-la radiante em cores. Bem próximo dela
podia-se ver a Lua que, com seu reflexo prateado, afugentaria as profundas
sombras noturnas. Envolvidos por esse cenário encantador, os filhos da luz,
rejubilantes, saudaram o alvorecer do quinto dia, que seria de muitas
surpresas. O Eterno tornaria a Terra festiva pela presença de infindáveis
espécies de animais irracionais que habitariam toda a superfície do planeta.
Essa criação teria continuidade no sexto dia. Erguendo as poderosas mãos, o Criador,
olhando primeiramente para as cristalinas águas, ordenou: "Produzam as
águas abundantemente répteis de alma vivente." De imediato, as águas
tornaram-se ondulantes pela presença de incontáveis espécies de répteis que,
felizes e gratos, festejavam a existência num contínuo nadar e saltitar. Desde
os seres microscópicos até as grandes baleias, todos surgiram em completa
harmonia, refletindo em sua natureza o amor do Criador. Pousando os olhos sobre
a atmosfera anil que repousava sobre as verdejantes florestas, o Eterno
continuou: "Voem as aves sobre a face da expansão dos céus". Mediante
Sua ordem, os Céus encheram-se de pássaros coloridos que, voando em todas as
direções, tinham no coração um cântico de gratidão pela vida. Esse cântico
encheu o ar, misturando-se com o perfume das matas floridas. Contemplando com
prazer Suas criaturas terrenas, o Eterno abençoou-as dizendo: "Frutificai
e multiplicai-vos e enchei as águas nos mares, e as aves se multipliquem na
Terra." Rejubilantes, as hostes fiéis presenciaram o alvorecer do sexto
dia. O que criaria Deus nesse novo dia? Esta indagação pairava na mente de
todos os seres racionais. Estavam certos de que algo muito especial estava para
acontecer. Erguendo os potentes braços, o Eterno ordenou: "Produza a Terra
alma vivente conforme a sua espécie: gado, répteis e bestas-feras da terra,
conforme a sua espécie." Sua voz poderosa foi prontamente ouvida e, nas
florestas e campos, pôde-se ver o resultado de Seu poder criador. Animais de
todas as espécies despertaram numa existência feliz, em meio a um paraíso de
perfeita paz. A Terra tomara-se extremamente bela, qual princesa adornada para
receber o seu rei e senhor. Quem seria esse ser especial? Movendo-Se com
majestade, o Eterno baixou às glórias do novo mundo, dirigindo-Se ao jardim do
Éden, lugar do divino trono. Os anjos da luz acompanharam-nO reverentes,
detendo-se qual nuvem sobre os céus do paraíso. Todo Universo observava com
profundo interesse o desdobramento dos atos do Criador, em resposta às
acusações de seus inimigos. O momento era decisivo. Tudo indicava que o Eterno
demonstraria não ser tirano nem egoísta, coroando alguém sobre o monte Sião.
Satã e seus seguidores não duvidavam de que o reino lhes seria entregue e
reinariam vitoriosos no seio daquele antigo abismo, onde as trevas e a luz
agora se entrelaçavam. Os súditos da luz estremeceram ante essa perspectiva.
Junto à fonte do rio da vida, o Eterno curvou-Se solenemente e, com os
elementos naturais da Terra, começou a moldar, com muito carinho, uma criatura
especial. Depois de alguns instantes, estava estendido diante do Criador o
corpo, ainda sem vida, do primeiro homem. O Eterno contemplou-o e, após
acariciar-lhe a face fria e descorada, soprou-lhe nas narinas o fôlego da vida
e o homem começou a viver. Como que despertando de um sono, o homem abriu os
olhos e contemplou a face meiga de Seu Criador que, sorrindo, beijou-lhe a face
agora corada e cheia de vida. Emocionou-se ao ouvir o Eterno dizer-lhe com voz
suave e cheia de afeição: "Meu filho, meu querido filho!" Por ter
nascido do solo, o primeiro homem recebeu o nome de Adão. Tomando-o pela mão, o
Eterno levantou-o. Sem perceber o cenário de fulgor que o circundava, Adão, num
gesto de gratidão pela existência, envolveu o Criador num terno abraço, prostrando-se
em reverente adoração. As hostes fiéis que admiradas testemunhavam a grandiosa
realização divina, emocionadas ante o gesto humano, prostraram-se também em
reverente adoração. Uniram então as vozes num cântico de júbilo em saudação
àquela criatura especial, que despertava para a vida num momento tão decisivo
para o Universo. Com o coração cheio de felicidade, Adão uniu-se aos anjos em
seu cântico de louvor. Sua voz, ao ecoar pelos arredores floridos, misturou-se
ao canto das aves e ao mugir de animais que se aproximavam em festa. Num
passeio de surpresas inesquecíveis, Adão foi conscientizado das belezas de seu
lar. Com admiração, contemplou o monte Sião, donde jorrava o rio da vida, numa
cascata de luz. O glorioso monte jazia coroado por um lindo arco-íris. Em seus
passos, seguiu o curso do cristalino rio, que deslizava sereno em meio às
maravilhas do Éden. Admirava-se das altaneiras árvores que, embaladas pela
brisa, deixavam pender dos ramos abundantes flores e frutos. Inclinava-se aqui
e acolá, atraído pelo fulgor de pedras preciosas que por todas as partes
enfeitavam o gramado. Com intensa alegria, Adão tomava conhecimento das
infindáveis espécies de animais que povoavam o jardim. Todos eram mansos e
submissos e viviam em perfeita harmonia e felicidade. Detendo-se em seus
passos, Adão admirou-se da alvura e meiguice de um animalzinho que brincava no
gramado. Aproximando-se, tomou-o em seus braços, dedicando-lhe um afeto
especial. Como era agradável acariciar sua alva lã! Seus olhinhos meigos refletiam
um brilho de amor e humildade. Havia algo de especial naquele animalzinho.
Afetuosamente, Adão chamou-o de "cordeiro". Com o animalzinho em seus
braços, Adão olhou agradecido para o Eterno e O adorou. Contemplando Suas alvas
vestes, Seus olhos expressivos de um amor sem par, Adão descobriu que tinha nos
braços um símbolo de seu Autor. Feliz, exclamou: "Oh, Senhor, este
cordeirinho revestido de tão branca lã, com olhar expressivo de tanto amor, se
parece Contigo. Eu quero tê-lo sempre junto a mim." Observando os animais,
Adão percebeu que eles desfrutavam de um companheirismo especial. Via por toda
parte casais felizes que viviam um para o outro. Seus pensamentos voltaram-se
para o Seu Companheiro. Olhou ao derredor e ficou surpreso por não vê-Lo. O Eterno
havia Se ocultado propositalmente, tornando-Se invisível. Adão sentia-se
solitário em meio àquele paraíso. Com quem partilharia sua felicidade e seu
amor? Havia ali os animais, mas eles eram irracionais, não podendo compartilhar
de seus ideais. Nascia em seu coração, ao caminhar solitário naquele
entardecer, um desejo ardente de encontrar alguém que pudesse estar sempre a
seu lado. Enquanto Adão olhava para as distantes colinas na esperança de ver
alguém, o Eterno apresentou-Se ao seu lado e disse-lhe: "Não é bom que o
homem esteja só; far-lhe-ei uma companheira." Adão ficou feliz ao ouvir do
Criador essa promessa, justamente no momento em que tanto ansiava ter alguém
para estar sempre visível a seu lado. Tomado por um profundo sono, Adão reclinou-se
no peito de seu amoroso Criador que, com carícias, o fez adormecer. Em seu
subconsciente surgiram os primeiros sonhos coloridos: Contempla o olhar meigo
do Eterno; ouve o som harmonioso da música angelical; descobre as maravilhas ao
derredor: o monte Sião com seu arco-íris; o rio da vida; os prados em flor; os
animais que o saúdam em festa. Repetem-se em seus sonhos as cenas que o
envolveram em seu anseio; olha ao derredor na esperança de encontrar seu
companheiro, mas não o vê. Sente-se solitário em seu sonho, e isso o faz
procurar alguém com quem possa compartilhar sua existência. Seu olhar
estende-se por campinas verdejantes, divisando ao longe colinas floridas.
Enquanto caminha esperançoso, sente a brisa mansa a afagar-lhe os cabelos
macios. Conversa com a brisa: "Brisa, você parece ser quem tanto procuro;
você me afaga os cabelos; beija minha face; você tem o perfume das verdes
matas. Se eu pudesse ver sua face, beijá-la-ia; se eu pudesse tocar os seus
cabelos, faria longas tranças e as enfeitaria com as flores do nosso
jardim!" Após caminhar em sonho pelos prados do paraíso, Adão deteve-se
enquanto contemplava a paisagem ao redor. Admirou-se por não ver o efeito da
brisa nos ramos floridos. Mas como, se a sentia calidamente no rosto? Começou
então a despertar de seu sonho. Ainda com os olhos fechados lembrou-se do
momento em que, sonolento, recostara-se no peito do Eterno. Seria a brisa o
afago de Suas mãos? Com esta indagação abriu os olhos e emocionou-se ao
contemplar uma linda mulher que, com as mãos perfumadas, acariciava-lhe a face
com amor. Era a brisa de seu sonho; a promessa de um Criador que só queria
fazê-lo feliz. Agora Adão era completo, pois tinha Eva, que era carne de sua
carne e ossos de seus ossos. Tomando-a pela mão, Adão convidou-a para um passeio
de surpresas inesquecíveis. Mostraria à sua companheira as belezas de seu lar.
Sensibilizada Eva detinha-se a cada passo, atraída pelas flores que exalavam
suaves perfumes; pelos pássaros que gorjeavam alegres cantos; pelos animais que
os seguiam submissos; pela vegetação de ricos matizes; pelas águas cristalinas
do rio da vida que jorravam em cascata do monte Sião. Tudo no paraíso era
perfeito e belo, mas nada se igualava ao ser humano, criado à imagem de Deus.
Voltaram-se um para o outro em admiração e carícias. Embalados por esse amor,
permaneceram até o entardecer. Com deleite, o jovem casal passou a contemplar o
sol poente que, através de rosados raios, coloria o céu em lindo arrebol. Era o
sexto dia que chegava ao seu final, dando lugar às horas de um dia especial: o
sábado. Esse dia, em seu significado, seria solene para todos os súditos do
Eterno, pois seu alvorecer traria a vitória para o reino da luz. O sol, que
durante o sexto dia alegrara a natureza com seu brilho e calor, ocultou-se, deixando-a
em frias sombras. Os alegres pássaros, silenciando seus trinos, buscavam seus
ninhos enquanto os outros animais se recolhiam. Somente o casal permaneceu
imóvel, procurando divisar, no último lampejo que se apagava no horizonte, a
esperança de um novo alvorecer. Indagavam o sentido das trevas quando, por
entre as ramagens, viram um lindo luar, cujos raios prateados banhavam a
natureza em suave luminosidade. Todo o céu estava iluminado pelo fulgor das
estrelas. Admirados, descobriram que a noite somente era trevas quando se
olhava para baixo. Adão e Eva em sua inocência não sabiam que aquela noite
simbolizava o futuro sombrio da humanidade. Quando o compreendessem, ficariam
confortados ao contemplar o fulgor dos céus: o luar falaria de esperança e as estrelas
cintilantes testemunhariam o interesse das hostes da luz em aclarar-lhes as
trevas morais, dando alento aos pecadores. Mas seriam iluminados apenas aqueles
que, desviando os olhos da Terra, contemplassem os altos céus. Após contemplar
por algum tempo o céu em sua luminosidade, o casal, lembrando-se das belezas do
paraíso, volveu os olhos, buscando divisá-las. Estavam, porém, ocultas em meio
às sombras. Quanto almejavam o alvorecer, pois somente ele traria consigo o
paraíso! Ante o anseio do coração humano, o Eterno surgiu em meio às trevas,
devolvendo ao casal a alegria de se encontrar novamente num jardim colorido.
Banhados em suave luz, caminhavam agora por prados verdejantes e floridos. o
brilho do Criador despertava a natureza por onde passavam, colorindo e
alegrando tudo em derredor. O casal, admirado, aprendeu que ao lado do Eterno
poderiam ter um paraíso em plena noite. Sentindo-se sonolentos, Adão e Eva
recostaram-se no colo do amoroso Pai, que os faz adormecer docemente,
esperançosos de um despertar feliz. Deitando-os sobre a relva macia, o Eterno
elevou-Se indo para junto das hostes contemplativas. Voltaria a manifestar-Se
ao alvorecer, fazendo o casal despertar para o mais solene acontecimento, que
reduziria a pó as vis acusações dos inimigos. A noite escura e fria, através de
suas longas horas, parecia zombar da luz. Ofuscaria para sempre as belezas da
criação? Oh, jamais! O sol não recuaria ante a imponência das trevas; surgiria
em breve como um libertador, arrebatando com seus cálidos raios a natureza das
frias garras, dando-lhe vida e cor. Num último desafio, as trevas tornaram-se
densas nas horas que antecederam o alvorecer. A noite arregimentava suas forças
para lutar pelo domínio usurpado. Finalmente, surgiu no leste um lampejo que
parecia falar de esperança em um novo dia. O céu aos poucos tornou-se colorido
de um vermelho vivo. As trevas impotentes recuaram ante a força crescente da
luz e foram consumidas em sua fuga. A natureza começou a despertar da longa
noite, refletindo em seu seio os saudosos raios. Flores abriram-se, exalando
perfumes de alegria; animais e aves, silenciados pela noite, uniram as vozes
num cântico triunfal em saudação ao alvorecer daquele dia grandioso. A negra
noite chegara ao fim, dando lugar à luz do dia sonhado - dia que para Deus
tinha um sentido especial, pois prefigurava a final vitória de Seu reino sobre
o domínio da rebeldia. O Eterno agora despertaria Seus filhos humanos que,
banhados pela luz de Sua presença, haviam adormecido na esperança de um
alvorecer feliz. Numa marcha festiva, todas as hostes santas, com cânticos de
vitória, acompanharam-nO rumo ao paraíso banhado em luz. Quando já estavam
próximos, o Criador deteve-Se contemplando o casal adormecido, e exclamou
suavemente: "Acordem meus filhos." Sua voz penetrou nos ouvidos de
Adão e Eva, despertando-os para a mais feliz comunhão. Quão depressa raiara a
acalentada manhã, trazendo em sua luz o doce paraíso, perdido naquela noite!
Com alegria o casal saudou o divino Criador, unindo-se aos anjos em antífonas
triunfais. O Universo vivia um momento deveras solene. Naquela manhã festiva, o
Eterno haveria de revelar a grandeza de Seu caráter, que é justiça e amor. As
acusações de que Seu governo era de egoísmo e tirania seriam refutadas. Aos
olhos de todas as criaturas racionais do vasto Universo, Deus conduziu o jovem
casal ao monte Sião, lugar do divino trono. Ali, ante o estremecimento das
hostes emudecidas, o Criador, num gesto surpreendente, cobriu o homem com o
manto real, colocando sobre sua cabeça a coroa que fora cobiçada por Lúcifer.
Movidos por profunda gratidão pela suprema honra conferida, Adão e Eva
prostraram-se reverentes, depondo aos pés do Criador sua coroa preciosa, em
sinal de submissão. Seguiu-se a esse gesto humano um brado de vitória que sacudiu
toda a Criação. Os filhos da luz, que por tanto tempo haviam sofrido afrontas e
humilhações ante as constantes acusações das hostes rebeldes, exaltaram em
retumbante louvor o Deus bendito, que em Sua obra de justiça desmentira os
inimigos, revelando Seu caráter de humildade, desprendimento e amor. Tendo
constituído o homem como o senhor de toda a criação, o Eterno, com voz solene,
passou a conscientizá-lo da grandiosidade de sua missão. Como um mordomo fiel,
deveria cuidar do paraíso, mantendo límpida a fonte do rio da vida. As leis da
justiça e do amor, fundamentos do reino da luz, deveriam ser honradas. Como um
cetro racional, caberia ao homem, em gesto de reconhecimento e gratidão,
aceitar livremente o governo d'Aquele que o criou. As hostes, que maravilhadas
testemunhavam a revelação do desprendimento divino, compreenderam que o Senhor
da Luz não governaria mais o Universo, a não ser com o consentimento humano. O
homem, pela vontade do Eterno, fora feito o árbitro da criação; em seu glorioso
ser, feito à imagem do Criador, resplandecia o selo do eterno domínio. Após
revelar ao casal a infinita honra e responsabilidade de sua missão, o Criador
conscientizou-o do conflito espiritual que se travava pela conquista do domínio
universal: Lúcifer, que por incontáveis eras servira ao divino Rei em Sião,
havia sido corrompido pelo orgulho e pelo egoísmo, sendo seguido por um terço
das hostes racionais; buscavam agora destronar o Eterno, desonrando-O com vis
acusações. Tendo revelado ao ser humano a dolorosa situação em que o Universo
se encontrava, o Eterno, num gesto solene, mostrou-lhe duas altaneiras árvores
que, carregadas de grandes frutos, se erguiam em ambas as margens do rio que
nascia do trono. A que se elevava à direita revelou o Senhor ser a árvore da
vida monumento do reino da luz. A que se erguia à outra margem revelou ser a
árvore da ciência do bem e do mal - símbolo da rebeldia. Comendo do fruto da
árvore da vida, o homem manifestaria sua submissão ao Criador, que é Fonte de
vida e luz. Comer da outra árvore seria entregar ao inimigo o domínio de Sião.
O inevitável resultado desse passo seria a morte eterna, não somente para o ser
humano, mas para toda a criação, que se reduziria ao caos sob a fúria da
rebeldia. Após contemplar demoradamente as duas altaneiras árvores, que
externavam em seus frutos tão infinita responsabilidade, Adão prostrou-se ante
o Criador, dizendo: "Digno és Senhor de reinar sobre o Universo, pois pela
Tua sabedoria, amor e poder todas as coisas foram criadas e subsistem." O sábado,
emblema do triunfo divino, encheu-se de louvor. Todos os filhos da luz
uniram-se ao ser humano no mais harmonioso cântico de exaltação Àquele cuja
grandeza é sem par. Foi com espanto que Satã e seus seguidores testemunharam a
grandiosa realização do Eterno. Presenciaram com amargura a alegria dos fiéis
ante a coroação do homem- acontecimento que lançara por terra as fortes
acusações que eles haviam levantado contra o governo divino. Cheios de
frustração e ira, consideravam agora sua triste condição. Quão terrível e
humilhante era-lhes o pensamento de verem seus planos de rebeldia desfazerem-se
diante do Criador, semelhantes às sombras daquela noite. Se pudessem, pensavam,
encheriam o sábado de trevas, banindo da mente dos súditos do Eterno qualquer esperança
de vitória. Finalmente, em suas considerações, Satã e seus liderados
compreenderam que lhes restava uma oportunidade: no meio do jardim do Éden, nas
alturas de Sião, elevava-se, junto ao rio da vida, a árvore da ciência do bem e
do mal. Bastaria um gesto humano, nada mais, e teriam sob seu poder, para
sempre, o domínio cobiçado. Mas como seduzi-lo? Animado ante a perspectiva de
uma conquista, Satã procurou, com engenhosidade, arquitetar um plano de
abordagem. Sabia que, se falhasse em sua tentativa, todas as esperanças de
triunfo ter-se-iam diluído, desfazendo-se todos os seus sonhos de aventura.
Concluiu que o engano haveria de ser sua poderosa arma. Não fora através dele
que conseguira dominar um terço das hostes celestes?! Aguardaria, portanto, um
momento propício para armar sua cilada.
A História do
Universo Capitulo IV
No Éden pairava a
doce calma de uma perfeita paz. Por todos os lados os amáveis passarinhos
faziam ouvir seus alegres trinos em louvor constante ao Criador. Toda a
natureza a florir parecia proclamar um reino de eterna alegria. Os animais em
união brincavam por toda parte, sempre submissos ao homem, o senhor daquele
paraíso encantador. Tudo era felicidade para o casal; mas esta tornava-se mais
intensa na viração daqueles dias primaveris. O arrebol, que com sua beleza
coloria o céu prenunciando as escuras noites, anunciava-lhes também o momento
da visita diária do Eterno. Juntos, sob a luz de Sua presença, passavam longo
tempo em feliz conversação. Com ânimo, o casal contava ao Senhor as
surpreendentes maravilhas que iam descobrindo a cada dia na natureza. Deus, com
carinho, descerrava-lhes o significado de cada ser. Como ficavam gratos pelas
lindas lições aprendidas a Seus pés! A cada dia que passava, maior era o amor,
o respeito e a admiração pelo grandioso Criador. Como Ele fora bom, trazendo-os
à existência e concedendo-lhes um lar tão cheio de delícias! Ao despertarem
para as alegrias de cada dia, vinham-lhes à lembrança as carícias e o doce
canto do Eterno, que os fazia adormecer todas as noites. A vida de Adão e Eva
no Éden não era de ociosidade. A eles foi recomendado o cuidado do jardim. Sua
ocupação não era cansativa, ao contrário, era agradável e revigorante. O
Criador indicara o trabalho como uma fonte de benefícios para o homem, a fim de
ocupar-lhe a mente e fortalecer-lhe o corpo, desenvolvendo-lhe todas as
faculdades. Na atividade mental e física, o homem encontrava um elevado prazer.
Era comum ao jovem casal receber visitas de seres celestes. Aos visitantes
sempre tinham novidades a relatar e perguntas a fazer. Passavam longo tempo
ouvindo deles sobre as maravilhas do reino de luz. Através desses visitantes,
Adão e Eva passaram a ter amplo conhecimento da rebelião de Lúcifer e de suas
eternas conseqüências. Aos visitantes, Adão e Eva sempre pediam que lhes
ensinassem os harmoniosos cânticos celestiais. Como se deleitavam ao unirem as
vozes ao coro angelical! Em Sua onisciência, Deus tinha conhecimento do
terrível intento do inimigo. Convocando as Suas hostes principais, revelou-lhes
com pesar o iminente perigo que pairava sobre o Universo. Satã haveria de armar
uma cilada, a fim de levar o homem a comer da árvore da ciência do bem e do
mal. Ante essa revelação, os filhos da luz ficaram temerosos, pois conheciam a
tremenda facilidade de Satã em enlaçar criaturas inocentes e atirá-las em suas
malhas de morte. No solene concílio, decidiram enviar, com urgência,
mensageiros para advertirem o homem do grande perigo. Dois poderosos anjos
foram encarregados dessa decisiva missão. Imediatamente, os mensageiros
comissionados irromperam pelos portais de Jerusalém, alcançando o seio do
espaço infinito. Em instantes, transpuseram imensidões, cruzando galáxias no
percurso. Penetraram no túnel da constelação de Orion, aproximando-se do novo
sistema. Podiam agora divisar a pouca distância o planeta azul, onde o destino
do Universo estava para ser decidido. No Éden, havia descontração. O jovem
casal continuava em suas inocentes atividades, desfrutando o prazer de um viver
feliz. Longe estavam de pensar que naquele momento todo o todos os filhos da
luz estavam tensos, pensando em seu futuro ameaçado. Viram então no límpido céu
o sinal da aproximação dos visitantes celestes e a eles ergueram os braços numa
alegre saudação. Adão e Eva admiraram-se, porém, por não verem no semblante
deles a mesma alegria. Os visitantes traziam na face uma expressão de anseio
que eles não podiam entender. Tentaram mudar-lhes a triste feição,
contando-lhes as novas descobertas feitas no paraíso. Os mensageiros, todavia,
não tendo tempo disponível como outrora, interromperam-nos com palavras de
advertência. Satã haveria de armar-lhes uma cilada, a fim de levá-los a comer
do fruto da árvore da ciência do bem e do mal. Se dessem ouvi dos à tentação,
fariam sucumbir toda a criação no abismo de um eterno caos. Os anjos
lembraram-lhes que o reino lhes fora confiado como um sagrado depósito,
devendo, em uma vida de fidelidade, honrar Aquele que por amor esvaziou-Se,
colocando-Se numa posição de hóspede do ser humano. Adão e Eva deveriam ser
firmes ante as insinuações do inimigo, pois assim selariam a eterna vitória do
reino da luz. Falando-lhes da feliz recompensa que se seguiria ao seu triunfo,
os anjos revelaram que era plano de Deus a transferência de Jerusalém Celeste
para a Terra. Ali, novamente acoplada ao paraíso, permaneceria para sempre. E o
homem, submisso ao Criador, reinaria pelos séculos sem fim sobre o monte Sião,
em meio aos louvores das hostes universais. Mas tudo isso dependia inteiramente
do posicionamento humano frente às tentações do inimigo, que faria de tudo para
arrebatar-lhe o reino. Adão e Eva ficaram temerosos ao conhecerem os planos de
Satã, mas foram consolados ao saberiam que ele não poderia fazer-lhes nenhum
mal, forçando-os a comer do fruto proibido. Se, porventura, procurasse
intimidá-los com seu poder, todas as hostes do Eterno viriam em seu socorro. Os
mensageiros da luz concluíram sua missão recomendando ao casal permanecerem
vigilantes, tendo sempre em mente a responsabilidade que sobre eles repousava.
Não deveriam separar-se um do outro, nem por um momento sequer, pois a sós
poderiam ser seduzidos. Adão e Eva, agradecidos pelas advertências dos anjos,
uniram as vozes num cântico de promessa em uma eterna vitória. Estavam certos
de que jamais abandonariam o bendito Criador, ouvindo a voz do tentador.
Animados ante a promessa humana, os dois mensageiros retornaram ao seio da
Jerusalém Celeste onde, junto às hostes santas, aguardariam com anseio o
anelado triunfo. Satã viu aproximarem-se do paraíso os mensageiros e ouviu o
canto do homem prometendo uma eterna vitória. Esse cântico fez com que sua
inveja e ódio aumentassem de tal maneira que não os pôde conter. Disse então a
seus seguidores que em breve faria silenciar aquela voz irritante. Faria tudo
para transformar o louvor humano em blasfêmias ao Criador. As hostes rebeldes
ficaram curiosas para conhecer os planos de seu chefe, mas foram por ele
advertidas de que deveriam aguardar até que tudo ficasse para sempre decidido.
Se o homem ouvisse sua voz, comendo do fruto da árvore da ciência do bem e do
mal, seria vitorioso, possuindo para sempre o domínio do Universo. Caso o homem
resistisse, permanecendo fiel ao Criador, já não haveria qualquer esperança
para eles. O paraíso parecia estar envolvido por uma eterna segurança, mas no
semblante do homem podia ser vista uma expressão de temor. Desde a partida dos
anjos, Adão e Eva permaneciam silenciosos, meditando com reverência sobre a
tremenda responsabilidade de sua missão. Pensavam na seriedade daquela iminente
prova que haveria de selar o seu futuro e o de toda a Criação. Animados,
contudo, ante o pensamento da vitória, uniram mais uma vez as vozes num cântico
que expressava a certeza do triunfo anelado. Essa melodia baniu de suas mentes
todo o medo de derrota e, alegres, correram pelos prados verdejantes,
acompanhados pelos fogosos animais que pareciam comemorar a grande conquista.
Sentiam-se seguros em seu paraíso, totalmente esquecidos do perigo de um
possível assalto. Satã, que observava atentamente o casal, percebeu estar
chegando a sua oportunidade. Aproximou-se de forma invisível do paraíso, e
ficou esperando o melhor momento para armar sua cilada. Inconsciente da
presença do inimigo, o casal continuava em sua desprendida alegria, brincando
despreocupadamente com os animais. No semblante transtornado de Satã
estampou-se um maldoso sorriso, ao presenciar um descuido do casal: em sua
exaltação, haviam deixado de atender a última recomendação dos mensageiros,
afastando-se um do outro. O astuto inimigo, não perdendo tempo, apossou-se de
uma serpente, a mais bela do paraíso, fazendo-a aproximar-se graciosamente de
Eva. Eva, que assentada no gramado brincava com os animais, percebeu a presença
da atraente serpente, cujo corpo refletia as cores do arco-íris. Ficou admirada
ao vê-la colher flores e frutos do jardim, depositando-os a seus pés.
Agradecida, tomou-a nos braços, dedicando-lhe afeto. Tendo conquistado a
afeição da mulher, Satã, em sua astúcia, começou a atraí-la para junto da
árvore da ciência do bem e do mal. Sem se dar conta do perigo, Eva acompanhou a
serpente até a árvore da prova. Ali, tendo nos braços o inimigo velado,
acariciou-o e disse-lhe palavras de carinho. Tendo nos olhos o brilho da
sedução, a serpente pôs-se a falar. Suas palavras eram cheias de sabedoria e
ternura e sua voz como a de um anjo. Eva mal pôde crer no que via. Sua alegria
tornou-se imensa por ter nos braços uma criatura tão fantástica. Passaram a
conversar sobre muitas coisas: o amor; as belezas do jardim; o poder do Criador.
Eva ficou admirada ante o conhecimento tão vasto da serpente, que discorria com
maestria sobre qualquer assunto. Envolvida por essa experiência, Eva
esqueceu-se completamente de seu companheiro. Nem sequer passavam pela sua
mente as advertências dos anjos. Adão, inteiramente esquecido dos conselhos dos
mensageiros celestes, havia se afastado na companhia de alguns animais. Depois
de certo tempo, sobreveio com ímpeto em sua mente a lembrança das advertências
recebidas. Soaram em seus ouvidos com clareza as últimas palavras proferidas
pelos anjos: "Não se afastem um do outro... Não se separem nem por um
instante, pois é perigoso." O seu coração pulsou forte por não ver Eva a
seu lado. Ergueu então a voz num grito ansioso. Sua voz, ao ecoar pelas
abóbadas do paraíso, contudo, não trouxe consigo uma resposta. O silêncio quase
o sufocou. Em sua aflição pôs-se a correr de um lado para outro, procurando-a,
em vão. Nessa ansiosa busca, sentiu a brisa afagar-lhe os cabelos e recordou
seu primeiro sonho. Essa lembrança, no entanto, desfez-se ante o pensamento do
perigo que os ameaçava. Com a mente tomada por um grande senso de culpa, Adão
apressou o passo na aflitiva procura. Onde estaria a sua amada? A envolveria a
tempo em seus braços, livrando-a de cair? Mais uma vez ergueu a voz num grito
ansioso que repercutiu por todo jardim: "Eva, onde você se encontra?"
Aguardou uma resposta, mas ouviu somente um eco vazio que o desesperou.
Lembrou-se da árvore da ciência do bem e do mal; ali era o único lugar em que
sua companheira poderia ser iludida. Esperando obstruir a única oportunidade do
inimigo, avançou em direção ao lugar da prova. Seu coração pulsou forte ao
contemplar ao longe a copa da árvore proibida. Com a serpente em seus braços,
Eva interrogou-a a respeito de muita coisa. Maravilhou-se ao perceber que a
serpente a sobrepujava grandemente em conhecimento. Cheia de curiosidade,
perguntou à serpente: - Onde está a fonte de seu tão grande saber? Responda-me,
pois quero também possuí-la. Sem perder tempo, Satã, apontando para a árvore da
ciência do bem e do mal, respondeu: - Ali está a fonte de todo meu saber. Ele
conta então uma mentirosa história: disse que era uma serpente como as demais,
comendo dos frutos do paraíso. Provando certo dia daquele fruto proibido, recebeu,
como que por encanto, todas as virtudes. Olhando para a árvore da ciência do
bem e do mal, Eva ficou surpresa e confusa. Privaria o Criador em seu amor algo
tão bom às suas criaturas?! Vendo-a surpresa, Satã perguntou: - É assim que
Deus disse: Não comereis de todas as árvores do jardim? Eva, inquieta,
respondeu: - Dos frutos das árvores do jardim comemos, mas do fruto dessa
árvore que você diz ser fonte de sabedoria, disse Deus: "Não comereis
dele, para que não morrais." A serpente em tom de desdém disse: - Isso é
falso. Se fosse assim, eu teria morrido. Certamente o Eterno os proibiu de
comer dessa árvore para impedir que o homem venha a se tomar como Ele,
conhecendo todas as coisas. As palavras sedutoras da serpente causaram confusão
na mente de Eva. Em quem confiaria? Tinha em mente a lembrança da ordem do
Criador e de sua sentença, mas ao mesmo tempo tinha diante de si uma prova
palpável que O contradizia. Atordoada, começou a duvidar do caráter do Eterno.
Num desafio, a serpente colheu frutos da árvore proibida e passou a
saboreá-los. Colocando um fruto nas mãos da mulher, incentivou-a a comer,
dizendo: - Não disse o Eterno que se alguém tocasse nesse fruto morreria? Um
completo silêncio pairava sobre o Universo. Em cada planeta habitado, os filhos
da luz contemplavam impotentes àquela angustiante cena. O futuro deles estava
em jogo. Em Jerusalém havia grande comoção. Poderosos anjos apresentaram-se
diante do Criador, solicitando permissão para esmagarem o covarde inimigo,
oculto naquela serpente. O Eterno, contudo, impediu-lhes tal ação. Se o uso da
força fosse a solução, já o teria aplicado. Deviam respeitar o livre-arbítrio
concedido ao homem, podendo ele manifestar sua escolha sob a tentação do
inimigo. Os filhos da luz sofriam imensamente ao verem a mulher duvidando
dAquele que tão bondosamente lhes dera a vida e a oportunidade de reinarem
naquele paraíso. Como poderia duvidar de quem lhes dedicava tanto amor?! Adão,
que numa forte esperança de assegurar a acalentada vitória apressava-se em sua
corrida, contemplou ao longe sua amada, assentada junto à árvore da prova. O
que fazia Eva naquele lugar tão perigoso?! Um pressentimento horrível lhe
sobreveio, ao lembrar-se mais uma vez das advertências recebidas, mas procurou
bani-lo como pensamento de que alcançaria sua esposa antes que algum mal lhe
ocorresse. Eva vacilava em sua convicção ao contemplar o fruto em suas mãos.
Por alguns momentos o futuro pareceu-lhe sombrio e aterrador, mas venceu esse
sentimento, pensando nas glórias que haveria de conquistar ao comer aquele
fruto. Ainda um tanto indecisa, ergueu vagarosamente as mãos até tocar o fruto
com os lábios. Os súditos do reino da luz, estremecidos, inclinaram-se tomados
por grande espanto. Parecia quase impossível, àquela altura, a mulher voltar
atrás. Enquanto pálidos os fiéis indagavam sobre uma possível esperança,
presenciaram com horror a terrível decisão de Eva: resolvera romper para sempre
com o Criador, tornando-se cativa da morte. O Eterno, que em silente dor
contemplava aquela cena de rebelião, curvou a fronte tendo a face banhada de
lágrimas. Não podia suportar a dor daquela separação. Os fiéis, que em pânico
julgavam-se vencidos, foram conscientizados de que nem tudo estava perdido. Se
Adão resistisse à tentação, permanecendo fiel ao Eterno, ele selaria a grande
vitória. Eva, que fora vítima de um engano, poderia ser conscientizada de seu
erro, sendo favorecida com o perdão divino. Quando Adão em sua angustiosa
corrida alcançou o lugar da provação, já era tarde demais. Assentada junto ao
rio, Eva saboreava despreocupadamente o fruto proibido. Adão estremeceu. Seria
mesmo o fruto da prova? Num gesto de esperança olhou para a árvore da ciência
do bem e do mal, mas em pranto reconheceu a triste condenação. Cheio de
tristeza contemplou sua esposa, mas não encontrou palavras para despertá-la
para tão amarga realidade. Em completo desespero, ergueu a voz numa dolorosa
exclamação: "Eva, Eva, o que você está fazendo!" Ao comer do fruto
proibido, a mulher foi tomada por emoções que a fizeram imaginar haver
alcançado uma esfera superior de vida. Ao ouvir a voz de seu esposo, ainda
tomada pelas ilusórias emoções, ergueu a fronte estampando um sorriso, mas
surpreendeu-se ao vê-lo chorando. Com profunda amargura, Adão procurou saber a
razão que a levara a rebelar-se contra o Eterno. Eva, prontamente, passou a
contar-lhe a fantástica história da sábia serpente. Satã sabia que essa
história de serpente jamais convenceria o homem a comer do fruto da árvore
proibida. Precisava encontrar uma maneira sutil de levá-lo a selar sua sorte
seguindo os passos de sua esposa. Tendo Eva sob seu poder, resolveu fazer dela
o objeto tentador. Aguardaria o momento oportuno para enlaçá-lo. No dia em que
dela comerdes, certamente morrereis. A lembrança desta sentença deixava Adão
muito aflito. A expectativa de ver sua amada perecendo em seus braços, era
demais para suportar. Esta aflição, contudo, foi diminuindo, ao ver que ela
continuava feliz e carinhosa ao seu lado, como se nenhum mal lhe houvesse
acontecido. Aliviado, Adão voltou a sorrir, correspondendo aos afetos de sua
companheira. Rendia-se às mais doces emoções, longe de saber que era o inimigo
quem o envolvia naqueles abraços. Nesse momento de enlevo, Eva começou a
falar-lhe de sua experiência com a ciência do bem e do mal. Falou-lhe dos
tesouros da sabedoria que lhe haviam sido abertos. Em seu novo reino, viveria
muito feliz. Entretanto, essa felicidade seria incompleta sem a participação de
seu esposo. Falou-lhe da impossibilidade de retroceder em seus passos, e insistiu
para que ele a seguisse. Depois de falar-lhe de sua decisão, Eva, com um doce
sorriso, estendeu-lhe as mãos contendo um fruto, pedindo-lhe que o comesse numa
demonstração de seu amor por ela. Com a voz tentadora em seus ouvidos, Adão
assentou-se no gramado em profunda reflexão. Sua face tornou-se novamente
pálida e suas mãos trêmulas. Temia rebelar-se contra o Criador, mas ao mesmo
tempo compreendia que não conseguiria viver separado de sua companheira, a quem
amava com infinito amor. Eva era carne de sua carne, a extensão de seu ser.
Sentia-se angustiado ao ter de tomar uma decisão tão séria. A palidez do rosto
de Adão refletiu-se no semblante de todos os fiéis ao Eterno. Ouviram a
insinuação do inimigo e perceberam com horror a vacilação do homem. A indecisão
de Adão deixava-os desesperados. Obedecesse ele àquela proposta de Satã, toda
felicidade seria eternamente banida. Nas decisões do ser humano estava o
destino de todo o Universo. Atenderia ele ao apelo de Satã? Depois de intensa
luta íntima, Adão olhou para sua companheira; a ela unira-se em promessas de
uma eterna entrega. Não a deixaria só agora. Partilharia com ela os resultados
da rebelião. Tomou então das mãos de Eva um fruto e, num gesto apressado,
levou-o à boca. Procurando abafar a voz de sua consciência, que lhe falava de
uma eterna perdição, Adão lançou-se nos braços de sua esposa, desfrutando o
alto preço de sua rebelião. Satã, com brados de triunfo, deixou o paraíso,
voando rapidamente para junto de suas inumeráveis hostes, que aguardavam
ansiosas o resultado de tão arriscada tentativa. Ao saberem da desgraça humana,
uniram-se numa estrondosa festa. Sentiam-se seguros. Sião agora lhes pertencia
por direito, podendo lá estabelecer um reino eterno, jamais sendo molestados
pelas leis do Eterno. Em todo o Universo os filhos da luz sofriam e pranteavam
a derrota. Nunca houvera tanta tristeza e horror ante o futuro. As vozes que
viviam a entoar louvores ao Criador proferiam agora lamentações. O Eterno, que
vencido por infinita dor prostrara - Se em pranto ante a queda do homem, não
fora, contudo, surpreendido. Antes mesmo de criar o Universo já havia previsto
esse triunfo da rebeldia e, em Sua sabedoria e amor, idealizara um plano de
resgate que O envolveria num imenso sacrifício. Enxugando as lágrimas de Seu
pranto, pôs-Se a agir poderosamente em favor de Seus fiéis aflitos,
impedindo-os de caírem nas mãos dos inimigos. Nessa misteriosa intervenção que
aparentemente depunha contra a justiça, o Eterno ordenou que Seus mais
poderosos anjos circundassem imediatamente o jardim do Éden, impedindo que Satã
tomasse posse do monte Sião. Consoladas ante a manifestação divina, as potentes
criaturas, em pronta obediência, romperam o espaço infinito, circundando em
instantes o paraíso, no seio do qual o ser humano, já transtornado pelo pecado,
vivia o negror de uma noite que seria longa e cruel. Sendo a autoridade do
Eterno fundamentada na justiça, de que maneira poderia justificar Suas ações
diante dos inimigos? Não entregara por Sua vontade o reino ao homem, e esse por
livre escolha não o submetera a Satã? Enquanto surpresas as criaturas racionais
consideravam as ações decisivas de Deus, ouviram Sua potente voz que,
repercutindo por toda a criação, trazia a revelação do grande mistério -
revelação tão maravilhosa que a partir daquele momento, por toda a eternidade,
ocuparia a mente dos fiéis, sendo tema para as mais doces meditações. O Eterno
falou primeiramente sobre a terrível condenação que pendia sobre o homem e toda
a criação. Disse que, ao se desligar da Fonte da Vida, o homem havia se
precipitado em tão profundo abismo que não poderia ser alcançado pelo Seu braço
de justiça e poder. Humilhado e torturado pelas garras do inimigo, não restava
ao homem outra sorte além da morte - fruto doloroso de sua espontânea rebelião.
Considerando a situação humana, as hostes da luz não viam possibilidades de
triunfo. Sabiam que só o homem poderia retomar o domínio do inimigo,
devolvendo-o ao Criador. Mas o ser humano, eternamente escravizado em sua
natureza, seria incapaz de tal vitória. Com voz melodiosa e cheia de ternura,
Deus revelou o plano da redenção, dizendo: "Na verdade, o homem colherá o
fruto de sua rebelião numa terrível morte. Não posso, com o meu poder,
mudar-lhe a sorte. Se assim agisse, seria injusto diante de meu decreto. Mas
farei cair toda a condenação sobre um Substituto que surgirá na descendência
humana. Esse Homem não trará em suas mãos as algemas da morte, sendo inocente e
incontaminado em Sua natureza. Como representante da raça humana, enfrentará
Satã e o vencerá. Após triunfar nessa batalha, provando que o amor é mais forte
que o egoísmo, que a verdade é mais forte que a mentira, que a humildade é mais
poderosa que o orgulho, o fiel Substituto erguerá as mãos vitoriosas não para
saudar a grande conquista, mas para tomar das mãos da humanidade escravizada a
taça de sua condenação. Sorverá assim, submisso, o cálice da eterna morte. Esse
imenso sacrifício abrirá aos seres humanos uma oportunidade de serem redimidos,
voltando aos braços do Criador, juntamente com o domínio perdido." As
hostes, surpresas ante a revelação do Eterno, indagaram a identidade d'Esse
Substituto. O Criador, com um sorriso amoroso, disse-lhes: "Eu serei esse
Homem. O Meu Espírito repousará sobre uma virgem, e nela será gerado um Filho
Santo. Esse menino será divino e humano. Em sua humanidade, ele será submisso à
divindade que n'Ele habitará. Os remidos verão n'Ele o Pai da Eternidade, o
Criador e Redentor, o Rei dos reis. O Seu nome será Yoshua (nome hebraico que
traduzido significa o Eterno salva)." Assumindo a natureza humana, Deus
poderia pagar o alto preço do resgate, morrendo em lugar dos pecadores. As
hostes da luz ficaram emudecidas ao conhecer o plano do Criador. O pensamento
de verem-nO submeter-Se a tão penoso sacrifício, a fim de redimir o domínio
perdido, era demais para suportarem. Não havia, contudo, outra esperança de
vitória, a não ser através dessa amorosa entrega. Após desfrutar o alto preço
do pecado, o jovem casal sentiu-se mal. Inicialmente sentiram um grande vazio
no coração, que logo foi preenchido pelo remorso e pela tristeza. Perceberam
que, inspirados pela cobiça, haviam selado sua triste sorte e a de toda a
criação. Parecia-lhes ouvir ao longe o gemido de um Universo vencido. O sol,
que os enchera de vida e calor naquele dia, ocultava-se no horizonte,
anunciando-lhes uma negra noite. O arrebol, que até ali anunciara-lhes o feliz
encontro com o Criador, parecia envolvê-los numa sentença de que jamais
despertariam para um novo dia. Não ousavam sequer olhar para cima, temendo ver
cair sobre eles o raio do juízo que os reduziria a pó. Com o olhar voltado para
o frio solo, vinha-lhes à lembrança a sentença: "No dia em que dela
comerdes, certamente morrereis." Desesperadas lágrimas rolavam em seus
rostos ao aguardarem o trágico fim. Ao considerar o motivo de sua rebelião,
Adão começou a recriminar sua esposa por ter dado ouvidos à serpente. Eva, por
sua vez, procurando desculpar-se, lançou a culpa sobre o Criador, dizendo:
"Por que o Eterno permitiu que a serpente me enganasse?!" O amor que
reinava no coração humano desaparecia, dando lugar ao orgulho e ao egoísmo, que
se fundiam em ressentimentos e ódio. Sua natureza já não era pura e santa, mas
corrompida e cheia de rebeldia. Tudo estava mudado. Mesmo a brisa mansa que até
ali os havia banhado em carícias refrescantes, enregelava agora o culposo par.
As árvores e os canteiros floridos, que eram seu deleite, consistiam agora em
empecilhos ao caminharem sem rumo naquela noite. O propósito de Satã em encher
o sábado de trevas parecia haver se cumprido. Naquela noite, não existia sequer
o reflexo prateado do luar para falar-lhes de esperança. As estrelas
cintilantes, suspensas no escuro céu, estavam ofuscadas pela dor. Baixavam
sobre o mundo as trevas de uma longa noite de pecado - sombras sob as quais
tantos se arrastariam sem esperança de um alvorecer. A noite já ia alta e as
trevas pareciam envolver o triste casal em eternas sombras. Nem sequer
cogitavam em suas poucas palavras, sufocadas pela agonia, de um alvorecer.
Cabisbaixo, tateavam daqui para ali, na expectativa do juízo iminente, que os
reduziria ao frio pó, esquecido sob aquelas trevas sem fim. Surgiu
repentinamente um brilho no céu, que ia aumentando à medida que se aproximava
da Terra. O casal estremeceu, pois sabia que era o Criador que vinha dar-lhes o
castigo. Vencidos pelo pânico, puseram-se a correr, distanciando-se do monte
Sião, o lugar da vergonhosa queda. Justamente para ali viram o Criador
dirigir-Se. Eles, que sempre corriam ao encontro do amoroso Pai, atraídos por
Sua luz, fugiam agora desesperados em busca de lugares escuros, de densa
floresta. O Eterno, movido por infinito amor, passou a seguir os passos do
casal fugitivo. Enquanto caminhava, chorava ao lembrar os momentos felizes que
havia passado junto a eles naquele paraíso. Como tudo se transformara! Seus
filhos não conseguiam mais ver n'Ele um Pai de amor, mas alguém que, irado,
buscava castigá-los. Movido por forte anseio de abraçar Seus filhos humanos,
Deus fez ecoar a voz numa indagação: "Adão, onde vocês se encontram?"
Sua voz, ao soar em meio às trevas, trazia consigo somente um eco vazio que
falava de ingratidão e rebeldia. Como desejava envolver o casal num ardoroso
abraço, e com palavras de carinho confessar-lhe que Seu amor era o mesmo! Ao
ver Seus filhos fugindo de Sua presença, o Eterno foi tomado de grande dor.
Ante Seu olhar mareado de lágrimas, estendia-se o futuro da raça humana.
Quantos, enganados por Satã, fugiriam de Sua presença no decorrer da longa
noite de pecado, julgando-No um Senhor tirano, que vive buscando falhas e
fraquezas nos pecadores, a fim de castigá-los! O Criador, todavia, não
desistiria de procurá-los pelos vales sombrios do reino da morte, até
conquistar um povo arrependido. Adão e Eva, exaustos pela pressurosa fuga,
esconderam-se por entre a folhagem de um pé de figueira. Reconhecendo sua
nudez, procuraram fazer aventais cosendo aquelas folhas. Vestidos assim,
julgaram poder livrar-se do sentimento de vergonha ante o Criador. O Eterno,
aproximando-Se do local onde o casal se escondia, perguntou: - Adão, onde estão
vocês? Não podendo mais se ocultar de Deus, Adão ergueu-se juntamente com sua
companheira e, cabisbaixos, apresentaram-se ao Criador, prostrando-se trêmulos
a Seus pés. Não conseguiram encará-Lo mais, devido ao senso de culpa. O
Criador, carinhosamente, tomou-os pelas mãos, erguendo-os do chão, e, com
expressão de tristeza no semblante, perguntou-lhes: - Por que vocês fugiram de
Mim? Acaso comeram do fruto da árvore da ciência do bem e do mal? Adão, todo
trêmulo, com voz entrecortada por soluços de temor, respondeu: - A mulher que
me deste por companheira, ela deu-me o fruto e eu comi. Com esta resposta, Adão
procurava desculpar-se, lançando a culpa sobre sua esposa. Voltando-Se para
Eva, o Eterno indagou-lhe: - Por que você fez isso? Eva prontamente
respondeu-Lhe: - Aquela serpente me enganou e eu comi. Ambos não queriam
reconhecer a culpa, lançando-a sobre outrem. Em suma, atribuíam ao Criador a
responsabilidade por todo o mal praticado: "Por que concedera-lhes o
livre-arbítrio? Por que criara a mulher? Por que criara a serpente?"
Silente, Deus observava Seus filhos que, tímidos e desconcertados, permaneciam
diante de Si. Com profunda tristeza, Ele previu que essa seria a experiência de
incontáveis seres humanos no decorrer da história. Quantos haveriam de se
perder por não reconhecerem a própria culpa! Quantos procurariam justificar-se,
lançando seus erros sobre os outros e até mesmo sobre o Criador! Com palavras
brandas, o Eterno procurou fazê-los reconhecer sua culpa. Somente reconhecendo
sua necessidade, poderiam ser ajudados. Olhando para as frágeis vestes tecidas
por mãos pecadoras, disse ao casal: - Filhos, essas vestes são insuficientes,
logo secando se desfarão. Vocês precisam de vestes duradouras, que possam
cobrir vossa nudez, livrando-vos da condenação. Se vocês quiserem, Eu posso
dar-lhes essa veste. Ante as palavras bondosas do Criador, que traziam
esperança, o casal prostrou-se arrependido, despindo-se de suas ilusórias
vestes, símbolos de seu fracasso. Almejavam agora as vestes da salvação,
prometidas pelo divino Pai.
A História do
Universo Capitulo V
Depois de
contemplar Seus filhos que, arrependidos, jaziam a Seus pés, o Eterno tomou-os
carinhosamente pelas mãos e os levantou. Alegrava-Se em poder revelar ao homem
caído o plano da redenção. Com ternura, Deus passou a descerrar-lhes
primeiramente os amargos resultados de sua queda, dizendo: "Filhos, vocês
selaram o destino de toda a criação nas garras da morte. A desarmonia já permeia
a natureza, procurando destruir nela todas as virtudes. O abismo no qual vocês
imergiram pela desobediência é por demais profundo para que possam ser
alcançados pelo meu poderoso braço. Assim, desligado da Fonte da Vida, não
resta mais ao ser humano outra sorte além da morte." Depois de proferir
estas palavras que revelavam uma triste sorte, o Eterno convidou o casal a
segui-Lo. Cabisbaixos, Adão e Eva, em pranto, seguiram o Criador em Seus passos
de justiça, que encaminhavam-nos ao lugar da vergonhosa queda, onde supunham
encontrar o doloroso fim. Nessa dolorosa caminhada, soluçaram ao lembrar seu
passado de glória desfeito pela ingratidão. Como doía-lhes na alma a terrível
expectativa de serem reduzidos, juntamente com a criação, a frias cinzas sob a
escuridão daquela noite de pecado! Enquanto caminhavam, contemplavam através
das lágrimas as belezas adormecidas banhadas pela luz de Deus. Viam os
inocentes animais, que não tinham consciência da grande dor Subitamente, o
casal se deteve, vencido por intenso pranto; seus vacilantes passos os haviam
levado para junto de um cordeiro, o animalzinho mais querido. Seus olhinhos de
meiguice haveriam também de se apagar?! Enxugando-lhes as lágrimas, o Eterno
ordenou-lhes tomar nos braços o inocente cordeiro. Envolvendo-o junto ao peito,
acompanharam silentes os passos do Criador, até alcançarem o topo do monte
Sião, lugar da vergonhosa queda. Contemplando ali os restos dos rubros frutos,
com ímpeto lhes veio à mente a lembrança da sentença divina: "No dia em
que dela comerdes, certamente morrereis." O terrível momento chegara. O
homem culpado deveria sorver o amargo cálice da morte, sucumbindo sem
esperança. Consciente de sua perdição, o casal percebeu, com horror, que as
mãos que os trouxeram para a vida empunhavam agora um cutelo pontiagudo de
pedra. Trêmulos, prostraram-se e esperaram pelo cumprimento da justa sentença.
Enquanto emudecidos pelo medo, Adão e Eva aguardavam o golpe que os reduziria a
pó, sentiram o toque macio das mãos divinas que os erguiam para uma nova vida.
A condenação, contudo, haveria de recair sobre um substituto. Colocando nas
mãos de Adão o cutelo, o Criador lhe disse: - O cordeiro morrerá em lugar de
vocês. Adão deveria sacrificá-lo. Assustado ante a ordem de Deus, o casal, em
pranto, pôs-se a clamar: - Senhor, o cordeirinho não, ele é inocente! Com
expressão de justiça, o Eterno acrescentou: - Se ele não morrer, vocês não
poderão ter as vestes das quais falei. Ante a insistência do Criador, Adão,
todo tremulo, num esforço doloroso, cravou no peito do cordeirinho aquela aguda
pedra. O golpe foi fatal, e o animalzinho, vertendo seu precioso sangue,
mergulhou nas trevas de uma noite sem fim. Contemplando o cordeirinho inerte
sobre a relva ensangüentada, o casal ergueu a voz e chorou. Começavam a compreender
a enormidade de sua tragédia. Quão terrível era a morte! Ela, em seu poder,
apagara toda a luz dos olhos do inocente animal. Inclinando-Se silente sobre o
corpo inerte do cordeiro, o Eterno tirou-lhe a pele revestida de branca lã e
com ela fez túnicas para cobrir a nudez do casal. Após vesti-los perguntou-lhes
com carinho: - Vocês entenderam o sentido de tudo isto? Em profunda reflexão,
por entre soluços de reconhecimento e gratidão, o casal exclamou: - Ele morreu
em nosso lugar, para dar-nos suas vestes! Adão e Eva, embora compreendessem
aquela realidade física, estavam longe de entender o significado daquele
acontecimento. A eles o Criador revelaria o mistério do divino amor. Com
expressão de infinita misericórdia, Deus passou a revelar ao ser humano o
sentido daquele doloroso sacrifício, dizendo: O inocente cordeirinho, que hoje
padeceu, simboliza um homem que haverá de nascer. Em seus olhos haverá a mesma
meiguice, o mesmo amor. Revestido por uma vida justa, como a branca lã que
cobria o cordeiro, esse homem crescerá como um renovo sobre a Terra, não tendo
nas mãos as algemas do pecado. Em sua aparência, esse homem não trará a pompa
de um rei, por isso será desprezado por muitos. Será um homem de dores, pois
cairá sobre si o peso de todas as provações. Em sua fidelidade ao reino da luz,
esse homem lutará contra o inimigo usurpador, vencendo-o finalmente. Após
triunfar em suas lutas, tomará sobre si o fardo de vossa condenação que lhe
causará uma terrível morte. Ele será traspassado por causa da vossa rebelião e
moído pelas vossas iniqüidades. Será oprimido e humilhado, mas não abrirá a sua
boca, como o cordeirinho que hoje entregou-se pacificamente. Sucumbindo na
morte, ele vos concederá os méritos de sua vitória. Envolvidos por suas vestes
de justiça, estareis livres da condenação. A vida eterna alcançareis assim,
mediante o sacrifício desse homem justo que haverá de nascer. Adão e Eva, que
num misto de gratidão e dor ouviram a revelação de tão grande salvação,
indagaram reverentes a respeito desse homem especial que em sua descendência
haveria de surgir, a fim de cumprir tão imenso sacrifício. O Criador,
olhando-os ternamente, movido por um amor que supera mesmo a morte, os envolveu
num carinhoso abraço e revelou: - Eu serei esse Homem! Surpresos ante a
declaração do Eterno, Adão e Eva ficaram imóveis, enquanto contemplavam o Seu
meigo semblante. Compreendendo o significado do tremendo sacrifício,
prostraram-se a Seus pés e com lágrimas clamaram: - Nós somos merecedores da
morte Senhor, mas Tu és inocente e não deves sofrer em nosso lugar!
Enxugando-lhes as lágrimas, o Eterno com ternura lhes falou: - Meus filhos, Eu
os amo com um eterno amor. Eu morrerei em lugar de vocês. Ante esta
confirmação, o casal ergueu a voz numa lamentação dolorosa. Diziam: - Nós
matamos o Criador! Nós matamos o Criador! Mas Deus passou a consolar o casal
com palavras de esperança, dizendo: - Após sorver o cálice da eterna morte, Eu
retomarei a vida e subirei ao céu. Intercederei ali pelo homem perdido,
concedendo a todos aqueles que, arrependidos, aceitarem meu sacrifício, as
vestes de minha vitória. Juntos, triunfaremos finalmente sobre o reino do
pecado que se desfará em cinzas sob nossos pés. Criarei então um novo Céu e uma
nova Terra, onde unicamente a justiça e o amor reinarão. Viveremos assim para
sempre, num reino de perfeita harmonia e paz. O Criador, que acompanhado pelo
casal permanecia ainda sobre o monte Sião, concluiu Suas revelações dizendo:
"O jardim do Éden ficará agora vazio. O ser humano, durante a longa noite
de pecado, vagueará em seu exílio. Não andará, contudo, sozinho: o Eterno,
também peregrino, trilhará com o homem toda a estrada espinhosa, até poderem
juntos galgar o monte perdido, triunfando gloriosamente sobre o reino da morte.
A árvore da ciência do bem e do mal monumento da rebeldia será então desfeita,
dando lugar a uma árvore gloriosa que, unindo sua copa à árvore da vida, se
tornará no arco comemorativo da grande vitória. Sobre o santo monte redimido,
repousará então para sempre o torno universal, que pelos fiéis triunfantes será
nomeado: o trono de Deus e do Cordeiro." Adão e sua companheira, após
ouvirem palavras tão confortadoras e cheias de esperança, ergueram a voz num
cântico de gratidão e louvor. Conheciam agora o infinito amor de seu Criador e
estavam dispostos a servi-Lo. Depois de consolar o casal, Deus levou-os para
fora do Éden. Não lhes foi fácil se despedir daquele precioso lar; ali haviam
despertado para a vida nos braços do Eterno; ali desfrutaram momentos de pura
felicidade, em companhia do Criador, dos anjos e dos dóceis animais. Uma
saudade infinita parecia envolver o casal em seus passos de abandono. Foi com
espanto que Satã e seus súditos presenciaram a intervenção do Eterno. Ficaram
abalados ante a surpreendente revelação do plano de resgate. Com raivosa
frustração, compreenderam que, se de fato a promessa divina se concretizasse,
não restaria nenhuma esperança. Depois de refletir sobre tudo o que acontecera,
uma grande ira apossou-se de seu coração. Não estava disposto a reconhecer a
redenção do ser humano. Faria todos os esforços para retê-lo, juntamente com o
reino que lhe fora entregue. Quando o casal, acompanhado pelo Criador, alcançou
o vale ferido pela morte, amanhecia. Ali Satã os enfrentou com fúria, numa
tentativa de se apossar novamente do ser humano. O casal ficou trêmulo em face
do inimigo, mas as mãos protetoras de Deus os acalmaram. Expressando no
semblante a firmeza de uma justiça que é eterna, o Eterno silenciou as ameaças
do inimigo com as seguintes palavras: "O ser humano Me pertence, pois Eu o
comprei com o meu sangue". Ao caminharem silentes junto ao Criador, Adão e
Eva observavam com tristeza os sinais da morte estampados naquela natureza
antes tão cheia de vida. As belas flores, que haviam desabrochado para exalar
aromas eternos, pendiam agora murchas; os passarinhos, que com alegria os
saudavam em cada alvorecer com os seus trinos, voavam agora distantes, fazendo
soar tão tristes cantos! Tudo estava mudado na natureza. A ciência do bem e do
mal não trouxera nenhum bem ao Universo, mas um intenso conflito espiritual e
físico. Ante as conseqüências devastadoras de sua queda, o casal, vencido por
uma indizível tristeza, prostrou-se arrependido e chorou amargamente. Deus, que
também compungido pela dor contemplava o cenário desolador, procurou, com
palavras de esperança, confortá-los. Falou-lhes sobre o novo Céu e a nova Terra
que um dia criaria, onde a paz e o amor voltariam a reinar em cada coração. Ali
viveriam sempre juntos, não trazendo na fronte as marcas da tristeza, mas
coroas de eterna vitória. Ali enxugaria as lágrimas de suas faces e essas
jamais voltariam a umedecer os seus olhos. Amparando Adão e Eva em seus passos,
o Criador conduziu-os através de um vale ferido, até alcançarem o sopé de uma
colina. Galgaram-na em lentos passos, enquanto trocavam palavras de ânimo e
esperança. Seus pés alcançaram finalmente a relva macia que cobria o topo
espaçoso daquela colina. Era sobre aquele lugar que o casal via a cada dia o
sol declinar, banhando o céu e os vales de um vermelho vivo, como o sangue que
jorrara do peito do cordeiro. Voltando-se para o lado oriental, o casal, num
misto de dor e saudade, contemplou ao longe as paisagens que os envolveram
naquele passado tão feliz. Ao divisarem o monte Sião, que majestoso erguia-se
no meio do Éden, choraram ao lembrar da queda. Quão fracos tinham sido! O sol
declinava em sua jornada, anunciando a chegada de mais uma triste noite - a
primeira fora do paraíso. Num calmo gesto, o Eterno, mostrando-lhes o vale
sobranceiro à colina, falou-lhes com carinho: "Aqui será vossa provisória
morada. Daqui podereis contemplar o paraíso que por algum tempo permanecerá na
Terra, até ser recolhido ao seu lugar de origem, no seio da Jerusalém Celeste.
Ali, protegido pela justiça, aguardará o alvorecer da vitória. Quando esse
grande dia chegar, retornaremos juntos a Sião, onde seremos coroados em glória,
num reino de eterna felicidade e paz". Depois de dizer estas palavras,
Deus ordenou ao casal que construísse naquele lugar um altar de pedras, sobre o
qual a cada semana, na noite que antecede o sábado, deveriam imolar um
cordeiro, pela memória de Seu sacrifício. Como sinal de Sua presença, e para a
certeza de que seus pecados seriam perdoados, Ele acenderia um fogo sobre o
altar, o qual duraria toda à noite, até consumir por completo a oferta do
sacrifício. Para que o ser humano pudesse firmar sua fé sobre as verdades
reveladas, e não na manifestação visível da pessoa do Criador, Ele haveria de
permanecer invisível daquele momento em diante. Somente em ocasiões especiais,
quando se fizesse necessário Sua aparição ou a de anjos para novas revelações e
advertências, isto ocorreria. Contemplando os Seus filhos entristecidos naquele
momento em que seriam deixados aparentemente sozinhos. O Eterno disse-lhes com
amor: "Filhos, embora vocês tenham de permanecer neste ambiente hostil,
não precisam temer, pois Eu permanecerei ao lado de vocês. Serei um companheiro
amigo nesta jornada; levarei sobre os meus ombros suas dores, seus anseios,
suas lutas. Quando, tentados pelo inimigo, estiverem a ponto de ceder, poderão
encontrar abrigo em meus braços, que sempre estarão estendidos para salvá-los
e, se algum dia vocês não resistirem, e pela fúria do inimigo forem arrastados
para as profundezas do abismo, não se desesperem julgando não haver esperança,
pois Eu estarei ali para acudi-los com o meu perdão e força. Tenham sempre em
mente o significado das vestes recebidas das minhas mãos, pois elas falam da
redenção que ao homem pertence. Descansem filhos meus, nos meus braços de
amor." Depois de consolar o casal com estas promessas, o Criador, vendo
que estavam sonolentos pelo cansaço, os fez reclinar no Seu colo e, como de
costume, acariciou-os docemente até adormecerem. Ao vê-los esquecidos em seu
sono, Deus chorou ao prever o sofrimento que experimentariam ao acordar. Com o
coração partido pela dor causada pôr aquela separação física, o Criador deixou
o casal adormecido sobre a relva, depois de beijar-lhes as faces já marcadas
pelo sofrimento. Sua luz dissipou-se ao tornar-Se invisível, dando lugar às
trevas daquela primeira noite fora do paraíso. No subconsciente do casal
começaram a desfilar sonhos coloridos de um passado feliz. Encontravam-se mais
uma vez em meio às belezas do Éden, saciados pôr uma alegria eterna.
Agradecidos pela vida, corriam pelos campos floridos, brincando com os
animais.Com felicidade uniam as vozes aos anjos nos harmoniosos cânticos em
louvor ao Criador. Tantas cenas lindas desfilavam em seu subconsciente, mas
esses sonhos tornaram-se pesadelos, fazendo-os reviver sua tragédia.
Agonizantes despertaram em meio à escuridão daquela primeira noite no exílio.
Não conseguindo conciliar o sono, o casal permaneceu em pranto até ser
consolado pelo alvorecer que revelou-lhes ao longe o saudoso paraíso. Deus,
ainda que invisível, permanecia ao lado de Adão e Eva ali na colina. O
sofrimento deles era o Seu sofrimento, como também a esperança de um dia
retornarem vitoriosos a Sião. Ante o olhar contemplativo do Criador,
revelava-se o futuro sombrio da humanidade. Com pesar, via incontáveis
criaturas perecendo sem salvação, por rejeitarem o Seu amor. Lágrimas molharam
a Sua face, ao antever o inimigo empregando toda astúcia a fim de reter os
seres humanos sob seu domínio. Longa seria a noite do pecado, e renhida a
batalha pela reconquista do reino perdido. O triunfo da luz requereria da parte
de Deus um sacrifício imenso. Na pessoa do Messias, há seu tempo, ele nasceria
entre os homens, com a missão de pagar o preço do resgate. Por meio dEle muitos
seriam libertos das garras do inimigo: todos aqueles que O aceitassem como
Salvador e Rei. Contra esses escolhidos, o inimigo arregimentaria todas as
forças procurando fazê-los cair. Em sua visão do futuro, o Criador contemplou
com alegria o triunfo final dos redimidos. Haviam sido extremamente provados,
mas em tudo foram mais do que vencedores por meio dAquele que os redimiu das
trevas para o reino da luz. Depois de antever os sofrimentos que adviriam da
grande luta, o Eterno estendeu o olhar pelas planícies cativas, contemplando
ali as hostes rebeldes dispostas para a luta. O objetivo desses exércitos, era
apossar-se novamente do ser humano, no qual estava selado o direito de domínio
sobre o Universo. Contrária à natureza do Criador é a guerra, mas para defesa
de Seus filhos, estava disposto a empregar o Seu poder. Sua força, contudo,
somente seria empregada com justiça. Se o ser humano recusasse essa proteção
oferecida mediante o sacrifício do Messias, Deus nada poderia fazer para
impedir que o mesmo perecesse nas garras do inimigo. Adão e Eva, contudo,
haviam se arrependido de seu grande pecado, recebendo pela misericórdia de Deus
vestes de salvação, simbolizadas pelas peles do cordeiro sacrificado.
Justificado pela entrega do casal, o Eterno convocou Seus poderosos exércitos
para a peleja. Em pronta obediência as hostes da luz irromperam pelo espaço
sideral em direção a Terra, circundando qual forte muralha a colina, portadora
daquele tesouro redimido pelo sangue do divino Rei. Ao ser humano fora
conferido no Éden o dever de cuidar da natureza : preparavam canteiros para as
flores; colhiam frutos para mantimento; dirigiam os animais em seu inocente
viver, adestrando-os para que lhes fossem úteis. Essas ocupações tinham sido
para eles fontes de desenvolvimento e prazer. Agora, apesar das adversidades,
deveriam continuar realizando esse dever. O trabalho em si, realizado segundo
as ordens do Criador, já anularia muitos ataques do inimigo. As primeiras
ocupações do casal naquela manhã, trouxeram-lhes revelações do grande amor de
Deus, até então desconhecidas. Ao reunirem as pedras para construção do altar,
experimentaram a dor de feridas que jorram sangue, como também a fadiga que faz
minar suor. Sentindo e contemplando tudo na própria carne, amaram mais o Salvador,
para quem o altar construído prefigurava feridas maiores, que verteriam todo o
Seu sangue, como também fadigas que minariam toda a seiva de Sua vida. O olhar
de saudade e de esperança do casal de agora em diante, jamais pousaria no Éden
distante, sem discernir primeiro o altar dos sacrifícios. Esse altar, com suas
manchas de suor e sangue, permaneceria como uma lembrança da dor e do
sofrimento que, depois de umedecer os lábios dos seres humanos, transbordaria
na taça do Criador. Após contemplar pôr longo tempo o paraíso da eterna vida
que estendia-se muito além daquele altar escuro de morte, o casal experimentou
o doce alívio do descanso. Desejosos de conhecer as paisagens de seu novo lar,
Adão e Eva, animados pela esperança, saíram a passear. Seus passos
conduziram-nos por caminhos de sorrisos e de lágrimas; de encantos e
desilusões; de flores que desabrochavam delicadas, banhadas em perfume, e de
flores despetaladas, tombadas murchas e sem cheiro; de animais ainda dóceis e
submissos e de animais inimigos, ferozes e ameaçadores. O casal discernia em
seu passeio as divisas de dois mundos: o da luz e o das trevas; do amor e do
egoísmo; da esperança e do desespero; da harmonia e da desarmonia; da vida e da
morte. Essa visão encheu-lhes de tristeza e choraram longamente. Essa tristeza
aumentaria ainda mais no futuro, quando descobrissem o aprofundamento dessas
divisas no seio de sua descendência. Seis arrebóis já haviam colorido os céus
anunciando ao casal as noites escuras e frias que com seu manto de trevas desfazia
todas as imagens vivas, menos a esperança de revê-las coloridas no alvorecer de
luz. Aproximava-se agora a hora do sacrifício, quando o rude altar, abrasado em
sua justiça clamaria pôr sangue. Se não lhe oferecessem a oferta, explodiria
com certeza, envolvendo todo o mundo com suas chamas; Já não haveria então
alvorecer, nem esperança de Éden a florir. Quão precioso é o sangue! Sangue é
vida; vida é luz! Para um ser aquela noite tornar-se-ia eterna, sem alvorecer!
Esse ser deveria assumir a culpa de todo o mundo, dando o seu sangue ao rude
altar. Quem se ofereceria? Quem verteria a seiva da vida, até ver a última
estrela apagar-se em seu céu?! Adão e Eva depois de refletirem por longo tempo,
contemplando o berço da morte construído pôr suas mãos, entreolharam-se
inquietos com essa questão decisiva: Quem se oferecerá? Essa indagação nascida
de sua culpa, fez vibrar no profundo de suas lembranças a voz do bendito
Criador em Sua revelação de infinita bondade: - Eu os amo com um eterno amor;
Eu morrerei em vosso lugar". Agradecido, o casal prostrou-se
reverentemente ante o sedento altar, vendo-o pela fé, saciado pelo dom do
eterno amor. Naquela tarde de sexta-feira, Deus submetia o ser humano a uma
tremenda prova de fé. Eles tinham diante de si o altar de pedras, construído
conforme a ordem divina, mas não havia nenhuma ovelha para o sacrifício. Em seu
anseio, lembravam-se do Éden, onde havia muitos rebanhos. Ao verem o sol tombar
no horizonte, Adão e Eva passaram a clamar a Deus por socorro, pois sabiam que
somente um milagre poderia providenciar-lhes, naquele derradeiro momento, um
cordeiro para o sacrifício. Aos olhos dos habitantes do Universo, o grande
milagre pelo qual o ser humano clamava, já se processava à quase uma semana:
Guiado pelo Criador, um imaculado cordeiro deixara o Éden e seguira os rastros
do casal em sua caminhada para o exílio. Em sua longa jornada, esse animalzinho
teve de enfrentar muitos desafios e perigos, mas protegido e guiado pelo Eterno
prosseguia em sua missão. Quando as sombras do anoitecer começaram a envolver a
colina, o casal que vivia tão dura prova de fé, discerniu um pontinho branco
que saltitava no gramado vindo em direção deles. À medida em que se aproximava,
aquele vulto parecia falar de esperança, de vida e calor. Ao verem que o grande
milagre acontecera, correram ao encontro do cordeiro, envolvendo-o nos braços.
Ele estava fatigado, mas não descansaria: daria descanso. Estava sedento, mas
não beberia: daria de beber ao altar que clamava por sangue. Aquele cordeiro tinha
vontade de viver nos braços do homem, mas morreria, para que esse pudesse viver
nos braços de Deus. Era um perfeito simbolismo do Redentor que deixaria Sua
glória, vindo em busca do pecador. As trevas de mais uma noite prefigurativa
baixaram lentamente envolvendo toda a natureza em sua prisão. Sua força, porém,
seria quebrada diante do ser humano, pelo brilho de um fogo especial, aceso
pelas mãos do divino perdão sobre o corpo sem vida do inocente cordeiro. Tudo
estava preparado para o doloroso golpe: ato que apagaria daqueles olhinhos
meigos a última estrela de vida, mergulhando-os na fria escuridão de uma eterna
noite: escuridão que geraria luz; frio que geraria calor; morte que geraria
vida - dons imerecidos; frutos do divino amor oferecidos às mãos pecadores,
prestes a ferir. Em meio a silente noite o altar clama; o homem triste exclama,
enquanto o cordeiro, mudo, não reclama ao ser estendido para a morte. As mãos
que construíram o altar erguem-se agora, não para acariciar como outrora, mas
para ferir, sangrando o preço do perdão. Só um gesto, nada mais, e a estrela se
apagará para sempre dos olhos inocentes, fazendo brilhar na face culpada a luz
da salvação. Adão, trêmulo hesita em compaixão. No cordeirinho manso e
submisso, pronto a morrer em seu lugar, vê o Salvador prometido. Com o coração
arrependido, num esforço doloroso, crava o cutelo de pedra no peito do
animalzinho que perece em suas mãos sem sequer dar um gemido. O poder da noite
imediatamente é quebrado pelo brilho do fogo da aceitação. Sua luz revela ao
ser humano sua trágica condição: Vendo as mãos manchadas pelo sangue inocente,
o casal sente-se culpado por aquela morte. Em pranto ajoelham-se ante o altar
que já não lhes reclama sangue, mas oferece luz, aceitando o imerecido perdão.
Erguendo-se, o casal contempla demoradamente o corpo ferido do pobre
cordeirinho, sem poder agradecer-lhe pela riqueza concedida em troca de seu tão
rude golpe. Banhados pela suave luz do sacrifício, Adão e sua companheira
permanecem silentes a meditar, até serem vencidos por um profundo sono.
Recostando-se ao solo coberto de relva macia, adormecem docemente sob os
cálidos raios do perdão, certos de que seu brilho e calor perdurariam até serem
as trevas daquele sábado desvanecidas completamente pelo fulgurante sol. A luz
do cordeiro, desde que fora acesa sobre o altar naquela noite, permanecia em
constante guerra com as trevas. Por várias vezes crescia em brilho, afugentando
para distante a fria escuridão, banhando a natureza com os seus raios de vida.
Por vezes, as trevas trazendo o seu vento frio, quase bania por completo a
chama. Essa, todavia, num grande esforço alimentava-se do sangue do cordeiro,
lançando ao alto sua ardente chama, inundando de luz e calor tudo aquilo que
havia ao redor. O conflito entre a luz nascida do sacrifício e as trevas
naquela noite, descerravam aos fiéis do Universo muitas lições importantes -
verdades que ocupariam suas mentes por toda a eternidade. Naquela chama, ora
ardente em seu brilho, ora fustigada pelos ventos da noite, os fiéis viam uma
representação do conflito milenar entre o bem e o mal; conflito que sem trégua
se estenderia até o alvorecer eterno. O Eterno, no penhor de Seu futuro
sacrifício, acendera em meio das trevas, a luz da verdade, e essa seria mantida
acesa no coração do ser humano, em virtude de Seu sangue que seria derramado
para remissão da culpa. Contra essa luz, o inimigo arremessaria todos os ventos
frios da maldade, banindo do coração de muitos o seu doce brilho. Quantos
jazeriam perdidos por recusarem a luz do perdão divino, ficando envoltos pelas
trevas da escura noite! Depois de longas horas de combate, surge no céu os
sinais do amanhecer. A escuridão que com ira havia lançado seus ventos sobre a
imorredoura chama procurando bani-la, torna-se confusa ante os sinais do
amanhecer. O céu tingido de um vermelho vivo, faz lembrar o sangue que jorrara
do peito do cordeiro para que a chama do perdão pudesse iluminar a noite
humana. Em meio ao colorido de sangue, surge no horizonte o fulgurante sol,
trazendo em seus aquecidos raios o sabor da vitória, envolvendo tudo com sua
vida. O alvorecer em seu saudoso afeto, acaricia o distante paraíso, levando de
seu amado seio em sua brisa matinal o aroma da saudade, numa mensagem de
consolo e esperança às criaturas sofredoras do vale da morte. Banhados pelos
cálidos raios e pela brisa da esperança, o casal desperta em mais um sábado,
cujo simbolismo aponta para o descanso no reino de Deus, ao culminar o grande
conflito entre a luz e as trevas. Para além daquele altar coberto de cinzas,
Adão e Eva contemplam demoradamente o saudoso paraíso. Ainda que distantes em
seu exílio, alegram-se com a certeza de que o sacrifício do Messias fará raiar
para eles o sábado dos sábados: aquele de lágrimas para sempre banidas; de sol
sempre a brilhar num límpido céu; de cordeiros sempre vivos a brincar pelo
gramado; dia sem anoitecer, quando não haverá mais altar coberto de sangue e
cinzas. Suspiram por esse dia de glória, quando Deus Se fará eternamente
visível, levando nas mãos as marcas de Seu infinito amor pelos Seus filhos.
Antes da queda, o ser humano, assim como a todas as hostes celestiais, aprendia
aos pés do Criador que com paciência ensinava-lhes os tesouros da sabedoria
contidos no vasto compêndio da natureza. Tudo no Universo, desde o ínfimo átomo
ao maior dos mundos, testificava em sua perfeita existência do caráter do
divino Rei. Muitos ensinamentos, porém, permaneceram ocultos nas páginas desse
grande livro no período que antecedeu à queda: Eram como as estrelas que,
ocultas durante o dia, revelam seu brilho ao baixarem as sombras da noite.
Tendo a natureza cativa, o inimigo, no intento de bloquear a revelação da
Eterna Sabedoria, introduziu nela borrões de egoísmo, destruição, infelicidade
e morte. Não sabia que esses borrões fariam evidenciar na face da criação a
profundidade da justiça e amor de Deus, levando os fiéis a amá-Lo e
reverenciá-Lo ainda mais. Para o casal, assim como para todos os filhos da luz,
a natureza ferida rompeu o seu véu, revelando novos aspectos da bondade do
Criador ocultos até então. Adão e Eva que estavam acostumados às flores eternas
no paraíso, aquelas que não as viram desabrochar, viam-nas agora surgirem em
tenros botões, em meio às ameaças de espinhos prontos a ferirem. Essas tenras
flores, sem importarem-se com os espinhos, exalavam perfumes suaves de louvor e
gratidão, jamais se cansando de agradar o ambiente. Quando fustigada pelos
ventos frios da noite, essas flores não se ressentiam, mas ofereciam seu aroma,
que transformava a fúria dos ventos em brisas perfumadas de um alvorecer.
Movidos por profunda gratidão, o casal acompanhava atentamente o ministério de
amor daquelas flores que, jamais se cansavam de abençoar, oferecendo sua beleza
e perfume como alívio para aqueles que eram feridos pelos rudes espinhos.
Aquelas flores singelas e puras, depois de mostrar em sua curta vida que o
perdão e o amor são mais fortes que todos os ventos e espinhos, num último
esforço de comunicar alegria, exalavam seu perfume, tombando murchas e sem vida
sobre o solo frio. Ali, esquecidas, transformavam-se em insignificante pó que
era espalhado pelo vento. A morte das flores, ainda que parecesse fracasso,
revelou ao casal o mistério do renascimento da vida: Morrendo, as flores davam
vida aos frutos que, por sua vez, depois de servirem de alimento, doavam suas
sementes cheias de vida. Na morte dessas sementes, renascia o milagre da vida,
multiplicando as árvores com suas flores prontas a repetir o ensinamento do
amor e do sacrifício. A natureza, portanto, embora maculada pelo pecado,
revelava o mistério oculto do plano da redenção. Cada flor a desabrochar em
meio aos espinhos, em sua curta vida de amor, era um símbolo do Salvador que
nasceria entre os espinhos da maldade, para com o seu perfume consolar o
coração dos aflitos. Semelhante à flor, o Messias depois de provar que o amor e
o perdão são mais fortes que todos os ventos do ódio; que a verdade e a justiça
do reino de Deus são maiores que todos os enganos e injustiças do reino do
inimigo, verteria a seiva de sua vida, morrendo para redimir os culpados.
A História do
Universo Capitulo VI
Consolados pelas
revelações da natureza, Adão e sua companheira, alunos na escola do sofrimento,
aprendiam a cada dia a amar mais o Salvador. Cresciam em sabedoria, humildade e
santidade. Todas as virtudes destruídas pelo pecado, renasciam no coração. Com
ânimo o casal dedicava-se ao labor edificante: plantavam jardins que pelo poder
de Deus enchiam-se de perfumadas flores e deliciosos frutos. Seu lar no exílio
tornava-se num refúgio para os animais perseguidos dos vales. A colina, sob a
proteção dos anjos da luz, tornou-se numa miniatura do Éden distante. Entre os
animais reunidos e domados com amor, haviam muitas ovelhas. Adão e Eva não
conseguiam pousar os olhos sobre esses dóceis animais destinados ao sacrifício,
sem provar no profundo da alma um misto de dor e gratidão. Na noite que
antecedia cada sábado, Adão tinha, por ordem do Criador, de repetir o doloroso
ato. Quanta amargura e arrependimento sobrevinham ao casal ao baixarem as trevas
da noite do sacrifício! Quanto consolo lhes trazia a chama do perdão que jamais
deixara de brilhar sobre o altar, naquelas noites prefigurativa! O decisivo
valor do sacrifício, para que a vida pudesse florescer sob a proteção divina,
levou o casal a valorizar imensamente o seu pequeno rebanho. Cada sexta-feira,
contudo, passou a trazer consigo, além da dor, uma inquietação: - Quem doará
seu sangue ao altar quando a última ovelha perecer? Aos olhos do casal
maravilhado, aconteceu enfim o milagre do amor, renovando-lhes a esperança de
viverem outras semanas sob o brilho da chama do perdão: uma ovelha, a mais
gorda delas, passou a sangrar como em sacrifício; De sua dor, nasceram-lhes
quatro cordeirinhos. Cheios de alegria e gratidão, Adão e Eva prostraram-se
ante o Salvador invisível, tendo nas mãos aquelas novas criaturinhas que
traziam em seus olhos a mesma meiguice e disposição para o sacrifício. Seguros
de que novos milagres multiplicariam seus dias, o casal uniu sua voz como
outrora, num cântico de gratidão e adoração ao Criador que, como os
cordeirinhos nasceria também da dor para cumprir em sua vida o maior de todos
os sacrifícios, para salvação da humanidade. O Eterno, embora invisível aos
olhos de Seus filhos humanos, permanecia bem próximo, acompanhado por um
exército de anjos, em incansável ministério de cuidado e proteção. O casal
estava inconsciente de que a doce calma e paz reinantes naquela colina, bem
como toda a sua prosperidade, eram frutos de tão intensa luta. Se os seus olhos
fossem abertos para as cenas que ocorriam invisíveis, ficariam tomados de
espanto; Quão terrível era o inimigo e suas hostes em suas constantes
investidas com o propósito de arruinar o ser humano, arrebatando-o das mãos do
Criador. Vendo que o emprego da força não lhe redundaria em vitória, o inimigo
em sua astúcia idealizou uma armadilha com a qual poderia enlaçar o casal.
Reunindo os seus exércitos, revelou-lhes seus planos dizendo: - Ao ser humano
foi ordenado sacrificar cordeiros, como símbolos do Salvador vindouro. Os
tentaremos a olhar para esses símbolos como portadores de perdão e vida,
fazendo-os aos poucos esquecer a realidade do sacrifício prometido por Deus.
Será um processo lento, mas de segura vitória". O Criador conhecendo o
perigo dessa armadilha, entristeceu-se, pois ao olhar para o futuro, pode ver
tantos filhos Seus sendo desviados do caminho da salvação. Quantos se apegariam
aos símbolos julgando encontrar neles virtude! Deus em seu amor e cuidado, não
os deixaria inconscientes do perigo que os ameaçava. Sabia o quanto Adão e sua
companheira amavam aqueles cordeiros que, ao morrerem sobre o altar,
ofereciam-lhes luz e calor. Facilmente poderiam ser induzidos a vê-los como
fontes de vida e luz, passando a reverenciá-los. Muitas semanas já haviam
passado, trazendo consigo as noites de dor e sacrifício, seguidas pelos dias de
esperança e saudade dAquele Pai carinhoso, o qual depois de fazer-lhes
promessas e enxugar suas lágrimas, tornara-Se invisível diante de seus olhos.
Cada dia que passava, trazia para o casal novo fardo de saudade, fazendo-os
indagar a cada entardecer: - Quando beijaremos novamente Sua face? Quando
seremos envolvidos por Seus braços, caminhando sob a luz de Seu amor?! Quanta
saudade sentiam daquelas noites edênicas, quando adormeciam no colo macio de
seu divino Pai! Mais uma semana de trabalho e lições aprendidas estava
findando. O sol em seu declinar anunciava outra noite de arrependimento e de
sangue inocente a banhar o altar. O silente casal estava longe de imaginar que
naquela noite, o doloroso golpe que sempre era seguido pelo fogo,
revelaria-lhes a face bendita do Pai. Com as mãos trêmulas, Adão ergue o
cordeiro que, mudo, não faz nenhuma resistência ao ser deposto sobre o altar.
Lágrimas rolam em seu rosto ao pensar que mais um inocente animal mergulhará
nas odiadas trevas da morte, para com seu sangue gerar a luz. É doloroso
sacrificar, mas não há outro caminho de salvação. Unicamente através do sangue
derramado do cordeiro, poderão viver para contemplar no futuro a face do Pai.
Num penoso esforço Adão faz cair àquela pedra pontuda sobre o cordeirinho que,
num gemido de dor derrama o seu sangue. Uma Luz gloriosa logo bane as trevas
inundando toda a colina com seus raios de vida. Através das lágrimas o casal
então contempla em meio ao fogo do altar, o Criador. Num gesto de amor, Deus
abre os Seus braços como outrora, e com um sorriso caminha para o tão almejado
abraço. Sem encontrar palavras que expressem sua imensa saudade, o casal
lança-se ao Seu peito e chora amargamente. O divino Pai, comovido, também
chora, mas procura consolar seus filhos, com seu doce sorriso. Com emoção o
casal contempla a face do Pai, envolvendo-a com beijos e carinhos. O amor deles
por Ele fora intensificado pelo sofrimento. Gratos e felizes, caminham ao lado
do Criador, mostrando-lhe os jardins carregados de flores e frutos. Contam-lhe
das lições aprendidas junto à natureza; mostram-Lhe o rebanho domado pelo
afeto. Iluminados pela suave luz do Eterno Pai, o casal assenta-se aos Seus pés
como outrora, para ouvir Seus ensinamentos. O Criador, olhando-os com ternura,
passa a adverti-los do perigo. Orienta-os a respeito dos sacrifícios de
cordeiros, que eram importantes no sentido de manterem sempre em mente a
certeza de um Salvador vindouro que, como os cordeiros, seria sacrificado para
redenção dos pecadores. Os cordeiros, contudo, não possuíam em si poder para
perdoar as culpas, pois consistiam apenas símbolos do Messias Rei. Depois de
serem conscientizados do perigo de apegarem-se aos símbolos buscando encontrar neles
a salvação, o casal recebeu a incumbência de transmitir essas orientações aos
seus descendentes. Depois de advertir o ser humano, o Criador pousando o olhar
sobre as ovelhas que jaziam adormecidas junto aos seus filhotinhos, exclamou: -
Como são belos os cordeirinhos! O casal, num misto de felicidade e dor
acrescentou:- Eles quando acordados saltam de prazer, esquecidos de que ao
nascerem e ao morrerem causam tanta dor! Depois de contemplar os cordeirinhos,
Deus fitou o casal com ternura, revelando-lhes algo que os surpreendeu e
alegrou: - Quando desses cordeiros trinta e seis houverem subido ao altar, os
vossos braços envolverão o primeiro filho que, como eles surgirá também da dor.
Esse filho em sua infância lhes trará alegria saltando como os cordeirinhos em
vosso lar. Devereis instruí-lo com dedicação nas leis da harmonia,
mostrando-lhes o caminho da redenção. Como vocês, ele será livre para escolher
o rumo a seguir. Aceitando o ensinamento, sua vida será vitoriosa;
rejeitando-o, caminhará para a derrota. Adão e Eva ouviram com alegria a
promessa divina, mas ao mesmo tempo experimentaram no profundo do ser um temor
ao conscientizar-se da responsabilidade que teriam. Sabiam que Satã faria todos
os esforços para levar a criança prometida à perdição. Era noite alta quando o
Criador, depois de acariciar seus filhos, os deixou adormecidos sobre o gramado
macio. Depois da promessa, cada cordeirinho levado ao altar fazia pulsar mais
forte no ventre materno a esperança da alegria que em breve alcançariam. Trinta
e seis finalmente baixaram às trevas cumprindo o tempo determinado pelo Criador
em que a primeira criança receberia a luz. Com as mãos ainda manchadas pelo
sangue do sacrifício, Adão amparou sua esposa que, aos pés do altar prostrou-se
vencida pela dor que lhe trouxe o primeiro filho. A pequena criança não trazia
na face à alegria da liberdade, mas o choro de sua prisão; Esse pranto duraria
a noite inteira, não fosse o brilho daquela chama aquecida de esperança que,
logo atraiu a atenção de seus olhinhos atentos. Envolvendo-o com alegria, Eva
consolada de seu sofrimento, disse: "Alcancei do Senhor a promessa".
Deu-lhe então o nome de Caim. Depois de envolver o filhinho com as peles macias
de um cordeiro, o casal permaneceu acordado a meditar. Muitos eram os
pensamentos que ocupavam suas mentes: pensamentos de alegria, de gratidão, de
esperança e de anseio pelo senso da responsabilidade que agora pesava sobre
seus ombros. Acariciando com ternura a pequena criança, o casal amadureceu em
sua experiência, compreendendo melhor o misterioso amor de Deus que, para
salvar Seus filhos, dispôs-Se a morrer em lugar deles. Adão e Eva não estavam
sozinhos em suas reflexões: todos os seres inteligentes do Universo
consideravam com interesse sobre o futuro daquele indefeso bebê que no íntimo
trazia um reino de dimensões infinitas, a ser disputado pelos dois poderes em
luta. Quem seria o Senhor de sua vida?! Trilhariam os seus pés o caminho
ascendente que leva à vida, ou a estrada descendente que termina no abismo de
uma eterna morte?! Vendo a criança esboçar o seu primeiro sorriso, o casal
subitamente lembrou-se da promessa do Criador que era confirmada em cada
sacrifício : Ele nasceria da mulher como criança, com a missão de redimir a
humanidade. Não seria Caim já o cumprimento da promessa? O infante com seus
olhinhos brilhantes de alegria se parecia tanto com os cordeirinhos que nasciam
e cresciam com a missão de serem sacrificados! Considerando assim, o casal
apertando o filhinho junto ao peito começou a chorar sem consolo. Quão
terrível, seria oferecer seu filhinho inocente ao rude altar! Para o casal
compungido pela dor, surgiu em fim o brilhante sol fazendo reviver com seus
cálidos raios as promessas que apontavam para um Salvador que, ainda no futuro,
nasceria também da dor para cumprir o eterno plano de redenção. Abençoada pelo
Criador e envolvida pelo amor e cuidado dos pais, a criança se desenvolvia em
sua natureza física e mental, tornando-se a cada dia alvo maior de uma
incansável batalha entre as hostes espirituais. Adão e Eva, ansiosos por
fazê-lo compreender as verdades da salvação, tomavam-no nos braços a cada
alvorecer e, à beira do altar lhe apontavam o Éden distante, contando aquelas
histórias de emoção as quais o pequeno Caim ainda não conseguia compreender.
Qual foi a alegria daqueles pais, ao vê-lo numa manhã de sol, apontar com a
mãozinha para o lar da saudade, pronunciando o nome sagrado do Criador.
Emocionados tomaram-no nos braços, pedindo-o para repetir esse sublime nome
que, qual chave de felicidade, sempre descerrava-lhes um paraíso de eterno
amor. Todas as hostes da luz inclinaram-se com alegria ao ouvir a pequena
criança pronunciar o nome do divino Rei. As semanas iam se passando trazendo
consigo novas vítimas para o altar, e o pequeno Caim, alvo da atenção e cuidado
de Deus, das hostes da luz e daqueles amantes pais incansáveis na missão de
instruí-lo, agrupando suas poucas palavras, sempre curiosos com tudo passou a
interrogar. O dia declinava quando o menino, que jazia ao colo de sua mãe,
perguntou-lhe: - Mamãe, por que o sol sempre vai-se embora, deixando a gente no
frio da escuridão?" Eva, surpresa contemplou seu filho, sem encontrar
palavras para responder-lhe à indagação que trouxe-lhe à lembrança o passado de
felicidade destruído por sua culpa. Após um momento de silêncio, beijando a
face do pequeno Caim, disse-lhe: - Filhinho, um dia o sol virá para ficar,
trazendo em seus raios um mundo só de harmonia; já não haverá animaizinhos a
brigar, nem cordeirinhos a morrerem sobre o altar" O pequeno Caim
desejando ver raiar logo esse dia, disse para sua mãe: - Mamãe, amanhã o sol
nascerá no paraíso; Pede para ele ficar! Assim poderei brincar, brincar, e
nunca mais dormir". Ansioso em ver raiar o dia que não teria fim, o
pequenino Caim somente adormeceu após fazer sua mãe prometer que pediria ao sol
para permanecer. Um novo dia de sol radiante a caminhar pelo céu surgiu para
Caim, trazendo em seus raios alegria e calor. Enquanto brincava no jardim, seus
olhinhos curiosos voltavam-se muitas vezes para o sol que parecia acariciá-lo
com um sorriso de esperança. Vendo-o, porém, caminhar em direção do ocidente, o
pequeno correu para sua mãe, perguntando-lhe: - Mamãe, ele prometeu
ficar?" Eva, tomando-o nos braços, sorriu-lhe procurando fazê-lo compreender
com palavras simples, enquanto apontava-lhe o paraíso distante, a história da
redenção. O sol viria um dia para ficar. Caim, insatisfeito com as palavras da
mãe, demonstrou não ter paciência para aguardar esse dia que jazia em distante
futuro. Repetia em pranto: - "Eu quero o sol hoje , amanhã não!" Eva,
pacientemente, procurou acalmar seu filho, falando sobre a luz de Deus, que
pode tornar a noite em dia. Ele o amava e poderia encher seu coraçãozinho de
brilho, de alegria e paciência. Poderia assim, aguardar feliz o dia de seus
sonhos. Balançando a cabecinha em rejeição ao consolo da mãe, Caim proferiu
entre soluços: -"Eu quero o sol porque eu posso vê-lo, ao Eterno
não". Como uma seta dolorosa às palavras de rebeldia de Caim penetraram no
coração de Eva, fazendo-a chorar amargamente. Os fiéis em todo o Universo
uniram-se nesse pranto. Uma tristeza infinita pairava sobre o coração do
Criador rejeitado. Esboçavam-se nos gestos de Caim os primeiros passos pelo
caminho descendente da rebeldia. Quantos o seguiriam rumo à morte! Inconsciente
da tristeza que abatera-se sobre o reino da luz, Adão, ao ver o sol declinar no
horizonte, deixou seu trabalho no campo rumando-se para casa. Tinha um cântico
no coração ao caminhar para mais um encontro com os seus. Ao aproximar-se do
altar, viu junto dele sua companheira prostrada em pranto. O pequeno Caim jazia
também ali a chorar. Tomando-o nos braços, Adão perguntou-lhe com anseio:
-"O que aconteceu meu filho?" Caim tristemente respondeu:
-"Mamãe deixou o sol ir embora" Amparando o filho com seu braço
esquerdo, Adão pousou sua mão direita sobre o ombro de Eva, mas não encontrou
palavras para consolá-la. A frase dita por seu filhinho, pareceu rasgar-lhe o
coração, fazendo-o reviver a queda. Depois de refletir, Adão sentindo-se culpado
respondeu para Caim: -"Foi o papai quem deixou o sol ir embora meu
filho!". Com soluços de grande tristeza, Adão uniu-se a eles no pranto. A
lembrança do Salvador, contudo, o consolou. Enxugando suas lágrimas e as de seu
filhinho, disse-lhe com ternura: -"Podemos nos alegrar filhinho ,pois Deus
prometeu fazer o sol para sempre brilhar no céu; ele será como o fogo que surge
no altar, banindo as trevas da noite". Com os olhinhos voltados para o
último clarão do arrebol, Caim permaneceu sem consolo. Naquele entardecer, não
houve como de costume um alegre jantar. A pequena família, entristecida,
permaneceu silente a meditar por longas horas, até sonolentos adormecerem sob a
luz das estrelas. O inimigo e suas hostes, em sarcasmo de maldade zombaram naquela
noite do sofrimento de Deus e Seus fiéis. Repetindo as palavras de rebeldia do
pequeno Caim, ufanava-se como vencedor. Num desafio ao Criador pronunciou : -
Veja como esse meu pequeno escravo te rejeita! O mesmo se dará com todos
aqueles que hão de nascer. Estou certo de que o direito de domínio jamais sairá
de minhas mãos. Todas as hostes rebeldes repetiram em eco as afrontas do
enganador, humilhando os súditos da luz que sofriam do lado do Eterno. Com suas
afrontas, o inimigo procurava fazer Deus desistir de Seu plano de redenção. Se
isso acontecesse, seu reino de trevas se estenderia por toda a eternidade ,
suplantando o domínio da luz. Em resposta ao desafio do inimigo, o Eterno
afirmou solenemente : - Ainda que todos me rejeitem , Eu cumprirei a promessa.
O Criador não suportava o pensamento de ver o pequeno Caim caminhar para a
perdição. Por ele intercedia a cada dia, oferecendo ante a justiça o Seu sangue
que verteria. Anjos poderosos guardavam-no a cada momento, espancando as trevas
espirituais que o acercavam procurando torná-lo insensível aos benefícios da
salvação , que eram ilustrados pelos símbolos. Adão e Eva em seu incansável
ministério de amor, todos os dias ensinavam a Caim as lições espirituais
ilustradas na natureza. Em cada sábado procuravam firmar em sua mente juvenil a
esperança de uma vida eterna, que seria fruto do sacrifício do Salvador. Ele
depois de viver uma vida sem pecado, morreria como um cordeiro , para poder
expulsar para sempre as trevas. Caim comovia-se às vezes com os ensinamentos ,
mas quase sempre questionava vacilante. Revoltado perguntava: - Por que Samuel
foi se rebelar?! Certa noite, recusando ouvir os conselhos de seus pais, os
acusou de todo o mal dizendo: - Se agora não temos um sol a brilhar, é por
culpa de vocês." A contemplação do Éden distante banhado em sol fez nascer
no coração juvenil de Caim pensamentos de aventura. Ele começou a pensar :
"Este paraíso não está tão longe como afirmam papai e mamãe. Por que
esperar e sofrer tanto tempo?! Ele é tão belo! É dele que surge todos os dias o
sol! Se o conquistarmos, será fácil deter a luz em sua nascente; Assim
viveremos num paraíso de eterno sol. As idéias de aventura de Caim, enchiam o
coração de Adão e Eva de tristeza. Viam que seu interesse era somente pelo tempo
presente; ele sonhava com um paraíso de felicidade e luz conquistado por sua
força. Em seus planos, não sentia necessidade de um Salvador; - Para que, se
era tão jovem, inteligente , cheio de vida e ideais?- dizia. Os dias de lutas,
intercessões e sacrifícios pelo destino de Caim foram se passando.
Oportunidades preciosas surgiam em cada dia diante dele para se apegar ao
Salvador, mas a todas rejeitava, uma por uma. Em sua incredulidade chegou a
duvidar da existência desse Deus, o qual jamais vira. Aos pais que, aflitos mas
sempre com paciência, procuravam livrá-lo da perdição para a qual estava
caminhando, prometeu um dia , após sorrir com ar de incredulidade, crer no
Criador e em Seu plano de salvação, caso Ele se tornasse visível na hora do
sacrifício. Com ardente fé, aqueles pais passaram a clamar ao Eterno. Sua
presença visível poderia, quem sabe, salvar aquele filho querido que a cada dia
tornava-se mais rebelde. O Criador ouviu o clamor dos pais aflitos. Embora
soubesse que Sua aparição dificilmente quebraria no coração do jovem Caim seu
espírito rebelde, estava disposto a cumprir o pedido. Estenderia os braços
amigos a Caim, procurando com amor conquistar-lhe o coração. Como conhecia os
seus anseios e sonhos de aventura, facilmente poderia identificar-Se com ele,
cativando-o, pois era também Alguém que sempre carregara no peito sonhos de
aventura; Não fora a criação do Universo uma grande aventura?! Não fora o Seu
sonho vê-lo cravejado de sóis fulgurantes, iluminando bilhões de mundos com o
seu brilho?! Não era também o Seu maior atravessar o vale da morte, em busca da
conquista do Éden distante, prendendo para sempre o Sol em seu céu?! Tinham
muita coisa em comum! Caim estava curioso naquela sexta-feira. Na face dos
pais, via ânimo e alegria, frutos de uma fé grandiosa. Incentivado por essa
expressão de confiança, o jovem passou a ajudá-los nos preparativos para o
santo sábado. O Sol finalmente esquivou-se rolando para o poente, deixando como
de costume seu rastro de saudade que anunciava medo. Em meio às trevas, Caim
discerniu o vulto branco do cordeiro sendo erguido para o altar pelas mãos do
pai - esse incansável sacerdote que sempre estava implorando ao Criador pela
salvação de seu amado filho. Com a mão erguida, Adão preparava-se para o golpe
que poderia, quem sabe, quebrar no coração de Caim sua incredulidade, fazendo
nascer num só momento a crença na salvação. De seus lábios escapa-se então a
prece da fé: - Pai Eterno, ouve o meu pedido; Meu filho precisa de Ti! Somente
um olhar Teu poderá conquistá-lo. Venha Senhor!! Esta oração sincera caiu nos
ouvidos daquele filho comovendo-o. Somente a prece já seria suficiente para
convencê-lo da existência real de um Salvador. Enquanto enxuga as lágrimas da
emoção, Caim estremece ao ouvir o ruído do golpe da morte. Tudo era solene
naquele momento; Viria o Criador do mundo em resposta à oração do amor?! Como O
encararia em sua incredulidade?! Um forte brilho envolveu logo toda a colina
banhando também o vale oriental .Os olhos arregalados de Caim pousaram então
nos olhos amáveis do Criador, que trazia na face um brilho superior ao do sol,
mas não ofuscante. Contemplando-O com admiração, Caim exclamou: - Ele é jovem
como eu, e se parece com o Sol! Adão e Eva, comovidos pela grande saudade
tinham vontade de saltar ao peito do Salvador e beijá-Lo, mas deixaram que Ele
Se encontrasse primeiro com Caim. Com alegria , viram o precioso filho
envolvido nos braços do grande amigo, que era parecido com o seu astro. Depois
de longo abraço, Deus abraçou e beijou também o querido casal, companheiros no
sofrimento. Com alegria, saíram a passear pelos jardins da colina. Ao centro
iam o Criador e Caim, ladeados por Adão e sua companheira. Quanta felicidade
experimentavam nesses passos! Estavam completos. Caim, conquistado pela afeição
do Pai Eterno, mostrou-Lhe seus animais de estimação e seu pequeno jardim
carregado de lindas flores. Como estava encantado por vê-los coloridos naquela
noite desfeita pelo brilho do Criador, como sob a luz do dia! Parecia até mesmo
que o Sol baixara a eles. Ao pensar no Sol, Caim como o amava muito, passou a
falar sobre ele dizendo: - Como ele é belo e bom! Quando ele vai-se embora,
deixa em suas lágrimas de sangue um sentimento de tristeza e temor. Tudo
desaparece em sua ausência : os animais, o jardim; até os passarinhos silenciam
os seus cantos! ...Mas basta ele dizer que vai aparecer, tudo se enche de
encanto; A natureza se desperta de mansinho, parecendo ainda temer as trevas,
mas quando as vê fugir , fica alerta e canta; Os animais, os passarinhos, o
jardim,... tudo volta a viver feliz! Mas, esta felicidade sempre acaba!!! Após
falar estas palavras, Caim fitando o Criador indagou curioso: - Papai sempre
diz que foi você quem criou o Sol. É verdade? Com um sorriso de sinceridade
Deus respondeu-lhe que sim. - Quando Você o fez no princípio, continuou Caim,
ele já fugia para o poente? - Ele nunca foge, respondeu o Eterno, é o mundo
quem foge dele. Ele fica triste com essa ingratidão! --Mas como? Perguntou
Caim, contemplando curioso Sua face de luz . Com palavras carinhosas, Deus
passou a contar-lhe a história de Lúcifer que, em sua ingratidão baniu de seus
olhos e dos olhos de uma multidão de criaturas, o brilho de Sua face - o
Verdadeiro Sol. Depois de assim agir, iludiu a muitos dizendo que foi o Sol
quem fugiu deles. Com sua astúcia, continuou o Criador, o anjo rebelde procurou
arrastar o ser humano para as trevas, e conseguiu. O Sol naquele dia, chorou
tantas lágrimas de sangue, que banhou todo o céu. Em seu último suspiro de luz,
porém, ele prometeu ao mundo já tomado pelas trevas, voltar um dia a brilhar
para sempre, enchendo todo o seu seio de vida. Após falar-lhe estas palavras, o
Eterno fitando aquele jovem, com expressão de tristeza nos olhos concluiu
dizendo: - Hoje, o anjo rebelde promete a seus seguidores que irá com sua força
deter o sol, mas ele jamais conseguirá realizar esse plano, pois não possui o
laço que poderá detê-lo : o amor. Cabisbaixo, Caim ouviu dos lábios do Criador
essa história de promessas, a qual já se cansara de ouvir de seus pais. Essa
história não lhe dava prazer, pois mostrava uma noite longa de sacrifícios
sobre o altar, e de um Salvador a perecer em dor. Em realidade, Caim não via
razões para tudo isso. Por que não banir logo o sofrimento colorindo as trevas
de luz?! Num esforço para conquistá-lo, o Eterno com muito amor fitou aquele
jovem insatisfeito, e disse-lhe que, somente o sangue de Seu sacrifício poderia
fazer o Sol para sempre brilhar, num reino de eterna felicidade e paz. Não
havia outro caminho para essa conquista. Por isso, deveria ser paciente,
descansando-se sob o Seu cuidado. Após conversar por longo tempo com Caim, na
tentativa de fazê-lo reconhecer sua necessidade de salvação, Yahweh voltando-Se
para o casal, passou a consolá-los com a promessa do nascimento de outro filho.
Mais trinta e seis sacrifícios seriam contados, e seus braços envolveriam o
segundo filho. Nasceria também da dor, mas traria nos olhos o brilho e o
consolo da salvação. O seu testemunho de fidelidade ficaria perpetuado por
todas as gerações, no símbolo de um altar coberto de sangue. As semanas iam se
passando, trazendo ao casal novas de alegrias e tristezas : de um coração cheio
de vida a pulsar no ventre de Eva, e de um vazio com cheiro de morte a crescer
no coração do jovem Caim. Ainda que ele tenha ficado deslumbrado ante a
manifestação de Deus, em nada essa aparição mudou-lhe sua maneira arrogante de
pensar sobre o sentido da vida. Ele não via sentido nos sacrifícios oferecidos
no altar. Nos dias que seguiram o seu encontro com o Criador, ele argumentava
com os seus pais dizendo: - Se eu fosse poderoso como o Eterno, eu jamais me
submeteria ao sacrifício para reconquistar o reino perdido. Ele é forte, e
brilha como o sol. Ele poderia com uma só palavra expulsar todas as trevas, devolvendo-nos
o paraíso. Para que tanto sofrimento?! Com essa argumentação, Caim supunha-se
mais sábio que o Criador. Quem sabe, num próximo encontro teria oportunidade de
aconselhá-Lo. Dessa forma, o jovem Caim aprofundava-se cada vez mais no abismo
do orgulho e do egoísmo - lugar de ilusões para onde se ia, pensando estar
caminhando para a vitória. Não fora Lúcifer juntamente com um terço das hostes
celestes atraídos por essa mesma ilusão?! O bondoso Deus , todavia, não selaria
o destino de Caim sem antes procurar de todas as formas salvá-lo da ruína
eterna. Essa graça imerecida, fruto do divino amor, seria concedida a todo o
ser humano que viesse a nascer neste mundo.
A História do
Universo Capitulo VII
As trinta e seis
semanas anunciadas pelo Criador cumpriram-se, trazendo a noite do santo sábado,
na qual subiria ao altar o cordeiro da promessa - aquele que mergulhando nas
trevas, faria brilhar nos olhos de Abel o consolo da luz. Semelhante ao
cordeiro, Eva sentia naquela noite a dor de dar a luz. Adão, com suas mãos
ainda banhadas pelo sangue do sacrifício, envolveu o frágil corpo daquela
criança com as peles macias de uma ovelha - vestes que simbolizavam a justiça
protetora do Salvador. Contemplando- o acalentado em seus braços, Adão
disse-lhe com carinho: "Filhinho, o teu pai é Deus". Deu-lhe então o
nome de Abel. Quando no alvorecer Caim testemunhou a alegria de seus pais pelo
nascimento daquele filho, foi possuído por sentimentos de ciúmes e mágoas.Com
grande ira disse-lhes que, por sua vida, somente os vira chorar. Seria esse
pequeno intruso o único digno de suas alegrias?! Adão e Eva com carinho
procuraram mostrar a Caim o quanto o amavam, e que o nascimento de Abel não
devia entristecê-lo, mas alegrá-lo pelo privilégio de ter um irmão que lhe
seria amigo e companheiro; Poderiam trabalhar unidos na transformação do mundo
num paraíso de paz. Abel, envolvido pela graça divina crescia em sua natureza
física e mental. Ainda pequeno, passou a entender o significado daqueles
sangrentos sacrifícios. O pensamento de que o Criador do Universo haveria de
tornar-se uma criança como ele, com a missão de oferecer-se em sacrifício como
aqueles inocentes cordeiros, para redenção dos pecadores, emocionava-o até as
lágrimas. Como Caim, Abel amava a natureza com seus jardins cheios de flores e
frutos; Sentia-se também triste ao ver o sol tombar no horizonte, ferido pela
escura noite. Contudo, alimentava-se não de sonhos em aventura, mas de
esperança e confiança naquele que semelhante aos cordeiros se entregaria ao
altar, para depois de aquecer com a luz de Sua verdade o coração do homem em
meio à noite de pecado, surgir como o sol de sábado, trazendo consigo a eterna
vitória. O casal, fecundado pelo amor divino, gerou duas meninas que, por sua
vez, passaram a ser disputadas na grande batalha espiritual pelo destino do
Universo. Conscientes de sua responsabilidade, aqueles pais procuravam imprimir
na mente de suas filhas, as eternas verdades do reino da luz. Nesse esforço,
eram auxiliados por Abel, para quem o plano da redenção era o tema de suas mais
doces meditações; Bastava olhar para um cordeiro, vinha-lhe à mente a doce
lembrança da redenção prometida. Foi seu grande amor pelo Criador que levou-o a
tornar-se num pastor de ovelhas. A influência de Caim, contudo, era negativa
sobre aquelas meninas. Ele vivia falando de seus sonhos de aventura. Apontando
para o paraíso distante, berço do sol nascente, prometia conquistá-lo um dia
com suas forças. Não haveria mais noites, pois ele deteria o sol antes de sua
partida. Em sua conquista, transformaria os vales sombrios em jardins floridos
repletos de paz. Inspirado por esse ideal, Caim tornou-se lavrador. Plantava
jardins que se carregavam de flores e frutos. Lutava insistentemente contra
espinhos e cardos, os quais acreditava poder finalmente bani-los completamente
com seus esforço . Pobre Caim, escravo de uma ilusão! Caim tornou-se finalmente
em estatura semelhante ao pai. Trazia na face corada as marcas do sol que tanto
amava, e em seus músculos a força que julgava necessária para detê-lo antes de
sua partida. Movido pelos sonhos alimentados desde a infância, preparava-se
agora para uma viagem de aventuras: Desceria ao desconhecido vale e caminharia
em direção à casa do sol. Não sabia por quantos dias se ausentaria de seu lar,
mas tinha a certeza de que seria vitorioso em sua missão. Cheio de entusiasmo,
Caim revelou aos seus familiares sua decisão de partir. Todos ficaram
preocupados, e procuraram insistentemente fazê-lo desistir de seu plano. No
vale, disseram-lhe os pais, habitam animais ferozes, sempre prontos a devorar.
Entre risos, Caim procurou convencê-los falando de sua força. Dizia-lhes que em
sua jornada, longe de encontrar derrotas, encontraria o caminho perdido que os
conduziria à reconquista do sonho desfeito pelo pecado. Abel, conhecedor do
verdadeiro caminho que leva à vitória, com lágrimas de compaixão procurou
detê-lo, falando-lhe do plano da redenção. Voltando-lhe as costas, Caim saiu
contrariado. Irava-se por não encontrar por parte de sua família, nenhum apoio
para sua tão nobre missão. Adão e Eva, acompanhados por Abel e as duas filhas,
com tristeza seguiram-no implorando para ficar, mas ele adiantando-se em seus
passos desceu a colina, mergulhando naquela ameaçadora selva que os separava do
paraíso. O entardecer alcançou Caim já distante do lar, naquela floresta
perigosa e hostil. As trevas trouxeram ao seu coração temor; Já não era aquele
corajoso lutador que prometera vitória em todos os seus passos. Lembrou-se de
casa e teve arrependimento da maneira ingrata como havia tratado seus pais
naquela manhã. Ali no vale escuro, pela primeira vez ansiou pelo fogo do
sacrifício; Contudo, ele jamais acreditara na redenção simbolizada pela morte
do cordeiro! Ele cria no poder de sua vida que, aquecida pelo sol, crescia em força
e esperança de um dia poder detê-lo sobre um reino de eterna paz e harmonia. No
lar, seus pais e irmãos não conseguiam dormir. Tinham vontade de ir a busca do
amado Caim, mas onde encontrá-lo? Lembravam dos demônios cruéis que invisíveis
infestavam o vale, atormentando os animais que dia após dia iam tornando-se
mais ferozes. Em agonia prostraram-se aos pés do Criador invisível e clamaram
fervorosamente pela sua proteção. Rogavam-Lhe que o trouxesse de volta para o
lar, pois sem ele, tudo era tão triste. O Eterno amava profundamente a Caim e,
jamais o deixaria sozinho naquela floresta. Em resposta às preces daquela
família aflita, enviou Seus anjos para protegerem-no de todos os perigos. Caim,
vencido pelas opressivas trevas da noite que traziam consigo os ventos do
temor, tombou irresistente ao solo frio. Ali permaneceu até ter sua coragem e
força restabelecidas pela luz do alvorecer. Animado pelo brilho da esperança,
continuou seus passos de aventura rumo ao berço do sol : paraíso com o qual
sonhara desde sua infância. Seus pés conduziram-no naquele dia através de um
vale intensamente marcado pela morte. Com espanto contemplava por todos os
lados ossos secos e restos de animais devorados com ferocidade. Aos seus
ouvidos atentos, chegavam uivos e gritos de feras ameaçadoras. Embora banhado
pelo sol, Caim começou a ficar com medo. Imóvel, lembrou-se do lar, dos
conselhos e rogos dos pais; Pensou nas constantes preces que faziam por ele;
Estava certo de que não deixariam de clamar por sua segurança ali naquela
perigosa floresta, apesar de sua ingratidão. Tomado de espanto, viu finalmente
o sol lentamente caminhar para a sua morte diária. Se em sua presença tremia, o
que lhe reservaria a escura noite?! Revivendo, contudo, os sonhos que tivera
desde a infância, como um soldado que mesmo atingido por um golpe, se levanta
num último esforço de vencer, Caim alimentou-se de ânimo; Venceria o medo, e
conquistaria toda a selva, banindo dela todos os ossos secos e os sinais de
morte. Revigorado pelos ilusórios planos, em passos firmes prosseguiu sua
jornada . Pobre Caim! O primeiro de uma multidão que, escravizada pelos mesmos
sonhos de progresso, caminharia para dentro da noite, julgando encontrar o
berço de toda a luz. Diante dos olhos de Caim que jamais podia imaginar que
todo passo que dava o levava para mais longe daquele sol que almejava
conquistar, brilhou distante por entre as ramagens uma fulgurante luz. Cheio de
curiosidade, apressou os passos, indagando silente : Mas como, se eu o vejo
declinar?! Seria outro astro que em seu berço aguardava o momento de partida
para aquele suplício diário? Com o coração pulsando forte pela emoção,
adiantou-se em seus passos, julgando poder naquele novo dia detê-lo em sua
partida; Inauguraria assim um reino de luz, conquistado por sua força. Correndo
para a luz, porém, a viu desvanecer quando já próxima; Seria vertigem? Não.
Desvanecera simplesmente para revelar-se mais brilhante aos seus olhos.
Observando o brilho intenso, Caim ficou perplexo ao ver que procedia da face de
um poderoso querubim protetor que, desde a queda de seus pais permanecera ali
velando as divisas do Éden. Mudo, Caim contemplava a meiga face daquele anjo
que, expressiva de amor, fazia renascer em seu coração emoções da infância.
Sentia-se agora esquecido de sua missão, revivendo em lembrança o encontro que
tivera com o Criador naquela noite de sacrifício. O querubim era semelhante a
Deus, tendo no rosto um brilho de sol. Estampando no semblante preocupação, o
anjo depois de contemplá-lo demoradamente perguntou-lhe: - O que busca meu
filho? Recordando o seu esquecido ideal, Caim respondeu: - Busco a fonte do
dia, o berço do sol." O anjo continuou perguntando: - O que o leva a
procurá-lo com tanto anseio". Caim respondeu: - Eu sou amante de sua luz que
me faz ver em cada dia o fruto do meu labor. Admiro-o desde a minha infância,
por isso trago no peito o ideal de um dia detê-lo sobre o céu". O querubim
contemplava-o penalizado, sem saber como convencê-lo daquela ilusão alimentada
durante tantos anos. Após um momento de silêncio, o anjo com ar de tristeza,
procurando fazê-lo recordar as palavras que o Criador lhe dissera naquele
encontro, perguntou: - Com que você irá detê-lo? Confiante, Caim ergueu os
braços em resposta. Não construíra enormes jardins com eles?! anjo, num esforço
de fazê-lo entender que o sol é um símbolo do Salvador, disse-lhe: - Caim, nada
poderá detê-lo a não ser o amor. Quem ama, caminha na mesma direção. Para onde
você o vê caminhar todos os dias? Não é para o ocidente? Segue então os seus passos
e jamais o verá chorar lágrimas de sangue. Acompanha-o em sua caminhada e verá
que o que você sempre chamou de morte, consiste num alegre alvorecer para um
continente além, perdido nas trevas." A afirmação do anjo fez Caim
lembrar-se das últimas palavras ditas pelo Eterno naquela noite transformada em
dia. Ele dissera que somente o sangue de Seu sacrifício poderia fazer brilhar a
luz que triunfaria para sempre sobre as trevas. Contrariado, Caim baixara a
cabeça, determinado a não seguí-Lo nessa direção. Abalado, Caim encontrava-se
agora diante de uma séria decisão que mudaria o rumo de sua vida e de uma
multidão que poderia seguí-lo. Mudo e a tremer permanecia prostrado aos pés do
anjo, enquanto renhida luta travava-se em seu íntimo. Desde a infância alimentara
um ideal, caminhando na direção de um paraíso o qual julgava poder conquistar
pela força. Agora o anjo apontava-lhe um caminho oposto, de amor e sacrifício:
o mesmo ensinado pelos pais e pelo Criador. Arrependido, Caim desejou retornar
para casa, mas o inimigo se opunha inspirando-lhe vergonha; Como encararia sua
família, a quem prometera vitória pela sua força, ao retornar de mãos vazias?!
Com o jovem Caim, prostrado aos seus pés, o anjo com voz de ternura instava: -
Filho, volte ao lar! Não há caminho de vitória além do amor. Ele poderá ter
espinhos e no trajeto um altar, mas é um caminho seguro, pois sempre leva o
viajante aos braços de uma família amorosa que, com saudade espera o fruto de
seu perdão. Não será humilhante voltar; Não é esse o caminho do sol?! O caminho
do orgulho é sempre desconhecido; Em seu trajeto pode ter flores e a promessa
de que não haverá altar, mas o seu fim é sempre dentro da noite, distante dos
braços aquecidos pelo perdão. Volte ao lar filho! Volte!!! O anjo com seus amorosos
conselhos conseguiu finalmente convencer Caim. Ele estava resolvido a percorrer
o caminho do amor , desfazendo os passos até ali movidos pelo egoísmo.
Aguardaria agora o sol para com ele seguir humildemente rumo ao altar que, não
mais lhe falava de derrota, mas de triunfo sobre a morte. Na colina distante,
permanecia a família rogando incessantemente por Caim. Em seu anseio, não
conseguiam ficar longe daquele altar, berço de lágrimas e sangue. Ali junto a
ele, Caim viera ao mundo, banhado pela luz do sacrifício; Ali fora instruído no
caminho da salvação. Ali aguardariam com fé, até vê-lo retornar arrependido.
Sob o sorriso do anjo, Caim vencido pelo cansaço de seus sonhos desfeitos,
adormeceu a um passo do paraíso de muralhas invisíveis - muralhas que somente
poderiam ser finalmente transportas pelo amor que sacrifica. Uma brisa suave
despertou-o naquela manhã, convidando-o a seguir o sol naquela jornada rumo ao
altar. Como dois companheiros avançariam sobre os espinhos, quebrando-os com os
seus pés feridos; Como guerreiros caminhariam rumo à colina do entardecer, não
para serem vencidos pela noite, mas para destruírem-na em sua fuga. Nessa
marcha de resgate, tombariam finalmente sobre o altar distante, não vencidos
pela morte, mas conquistando a vida nascida da luz. Com humildade, Caim deu os
primeiros passos no caminho do arrependimento - caminho que logo após o altar,
lhe descerraria o seu lar de amor. Eram passos movidos por fé, pois diante de
si não podia ver a face de seu companheiro, o sol, mas tinha certeza de sua
presença, pois nos ombros podia sentir seu calor a acariciá-lo num terno
abraço. Eram companheiros de jornada pelo caminho da vitória. Era o sexto dia.
Na colina, a família, ansiosa, encontrava-se reunida desde a manhã ao redor do
altar, inconsciente da experiência de transformação vivida por Caim lá nas
divisas do Éden. Com lágrimas rogavam a Deus pelo querido Caim, ansiando vê-lo
retornar. Como era o dia da preparação, uniram-se no trabalho, deixando tudo em
ordem para receberem o santo sábado: limaram os jardins, colheram alimento,
prepararam as vestes e separaram o cordeiro para o sacrifício. Foi uma
atividade muitas vezes interrompida por idas ao altar, onde estendiam
demoradamente o olhar sobre o vale, na esperança verem surgir aquele a quem
tanto amavam. Caim, embora cansado da longa jornada, continuava avançando com
ligeiros passos, desejando alcançar o sopé da colina antes da noite. Podia
divisá-la ainda distante, banhada pelo sol poente. O entardecer que até o dia
anterior fora visto como a vitória das trevas sobre a luz, processava-se diante
de seus olhos. Via agora o sol envolto por nuvens tintas de um vermelho vivo,
tombar como um herói vitorioso, prestes a libertar um continente além, do poder
da noite. A escuridão envolveu o vale, e nele Caim que, com os olhos fitos no
último clarão a dissipar-se no horizonte, esforçava-se em prosseguir em seus
passos. Na colina, o patriarca Adão, com o coração a palpitar de saudade,
anseio e dor, preparava-se para oferecer o sacrifício. Intercederia como nunca
nessa noite pelo seu filho, cuja ausência torturava sua alma. Eva, em passos
lentos, cheia de tristeza, seguiu seu esposo rumo ao altar, acompanhada por
Abel e suas duas filhas. Sofriam muito naquela noite, pela ausência de Caim. A
esperança de revê-lo fora quase que totalmente banida. Num doloroso esforço
Adão ergueu o cordeiro, deitando-o sobre o altar. Quão doloroso era sacrificar,
mas não havia outro caminho Cabisbaixo em meio às trevas , Caim refletia. Todo
o seu passado construído por ilusórios sonhos o via em cacos. Estava no limiar
de uma nova vida, como uma criança recém nascida sob a luz do altar. Caim
esforçava-se para identificar aquele dia especial, de sua conversão. A
lembrança do último sacrifício o conscientizava de ser véspera de sábado. Havia
saído de casa no quarto dia da semana, quando os seus passos conduziram-no para
dentro de uma noite escura e fria, na qual temeu a morte. Refeito, ao amanhecer
do quinto dia, prosseguiu rumo ao desconhecido, até deter-se amedrontado no
vale dos ossos, onde a tarde transformou-se em noite. Foi dali que contemplou o
brilho do anjo que o atraiu com o seu amor. Detido em meio às trevas, Caim
recordava com emoção os conselhos do anjo que o levaram a uma mudança de rumo.
Lembra-se de seus passos de fé que moveram-no durante todo aquele sexto dia
rumo ao lar. Caminhar sob o brilho do sol fora fácil, mas o que fazer agora,
quando as trevas o detinham nas selvas?! Caim, porém, alegrou-se ao saber que a
escuridão daquela noite seria em breve ferida pela luz do sacrifício. Com
anseio aguardava o momento de prosseguir sua jornada, orientado pelo fogo que
lhe indicaria o rumo de seu lar. Movido pela dor da saudade e pelo último raio
de esperança em abraçar o seu filho, Adão ergueu o cutelo para matar o
cordeiro. De seus trêmulos lábios, escapa-se então uma aflitiva prece em favor
de seu filho: - Senhor, hoje eu compreendo o quanto sofres com a rebeldia de
teus filhos rebeldes, que trocaram o teu amor e o calor de uma família amorosa
que vive no seio da luz, pelas trevas do vale, onde o desespero e a morte
atraem com ilusões de vitória. Neste momento minha mão está erguida para ferir
esta inocente ovelha que, com seu sangue precioso alimentará o fogo da
esperança em abraçar o meu filho que se encontra perdido. Faça Senhor, com que
o brilho desta chama possa alcançar o meu Caim onde ele se encontra, fazendo-o
voltar ao lar arrependido. Todas os súditos do Eterno com emoção contemplavam a
comovente cena de significado tão grandioso. Naquele pai tremente e aflito,
pronto a sacrificar em favor do filho errante, viam o grande Pai que, para
atrair Seus filhos humanos do vale da perdição, ofereceria o maior sacrifício.
Após sua angustiante prece, Adão imolou o cordeiro. O fogo da esperança
ergueu-se imediatamente em brilhante chama, expulsando as trevas que envolviam
aquela colina. Caim que movido pela alegria de ser sábado erguera a fronte nas
trevas na expectativa de contemplar o brilho da vitória, ergueu as mãos aos
céus agradecido quando viu surgir no escurecido horizonte a estrela da
aceitação. Cheio de ânimo prosseguiu em seus passos de fé. Embora lhe fosse
impossível enxergar e compreender todos os obstáculos que surgiam em seu
caminho fazendo-o tropeçar, mantinha o olhar fixo no brilho do cordeiro imolado,
avançando sempre, com a certeza da vitória. Os passos de Caim conduziram-no
finalmente para junto da colina, onde podia ver sua família reunida sob a luz
do altar. Com o coração pulsando forte pelo cansaço e pela emoção, galgou em
ligeiros passos a colina, detendo-se junto ao altar. Sua família, com os olhos
cerrados orava por ele. Não conteve as lágrimas, ao ouvir seu pai clamar:
-"Senhor! Meu Caim, meu Caim!!! Quando o envolverei em meus braços?!
Quisera voltar ao passado, quando com prazer tomava-o no colo. Ele era a minha
alegria, e esperava tê-lo sempre salvo junto a mim. Mas oh Senhor! Ele foi
crescendo e se afastando, levado pelos seus sonhos de aventura. E hoje, já é o
quarto dia sem o nosso Caim! Meu coração está partido pela sua ausência, e já
não suporto viver sem ele! Se for possível Senhor, traga de volta o nosso Caim,
e que ele seja feliz ao Teu lado. Amém Terminada a prece, Adão abriu os olhos
para contemplar a chama do perdão que poderia, quem sabe, atrair seu filho
daquele vale sombrio. Seu olhar pousou de cheio em Caim que jazia prostrado
junto ao altar. Sem conter a alegria, Adão com um brado de vitória saltou para
junto de seu filho, envolvendo-o em seus braços. Toda a família o acompanhou
nesse gesto carinhoso, festejando com risos e lágrimas de emoção, o retorno
daquele filho e irmão amado. Sob a luz do altar, todos assentaram-se
finalmente, passando a ouvir com atenção a experiência passada por Caim naquela
densa floresta. Ele contou do medo que sentiu naquela primeira noite fora de
casa; falou do vale da morte, onde viu tantos ossos de animais devorados com
ferocidade; contou da luz que surgira ao entardecer, fazendo-o apressar seus
passos julgando ser o surgimento de um sol. Falou do brilhante anjo que o
atraíra para as divisas do Éden, levando-o com seus conselhos e palavras de
sabedoria e amor a uma mudança de rumo. Contou de seu retorno, das lutas e
tentações que teve de enfrentar a cada passo. Concluiu contando da alegria que
sentiu, ao ver naquela noite o surgimento do fogo sobre o altar, que semelhante
a uma estrela, guiou os seus passos através daquele vale tomado pelas trevas.
Para a família, consolada pelo retorno de Caim, surgiu finalmente o alvorecer
da alegre vitória, trazendo em sua brisa o aroma dos verdejantes prados edênicos
cobertos de eternas flores. Naquela manhã de sábado, uniram-se em cânticos de
gratidão ao Criador, pela vida, pelo perdão, e pela certeza de que sua feliz
união jamais seria maculada pelo pecado.
A História do
Universo Capitulo VIII
Desde o momento em
que Caim passara a trilhar pelo caminho da salvação, Satã e suas hostes cheios
de ira passaram a fazer planos para reconquistá-lo. Decidiram lançar sobre ele
densas trevas espirituais, causando angústia e desânimo em sua nova
experiência. Estavam certos de que persistindo com essa pressão, alcançariam
vitória. Conhecendo os planos de Satã, o Eterno ordenou Seus anjos a combaterem
as trevas que circundariam o jovem Caim. Ainda que conhecesse o seu futuro de
rebeldia, o Criador faria todo o possível para mantê-lo a salvo das garras do
inimigo. Sobre a colina, naquele lar repleto de felicidade, Caim tornara-se
após sua conversão no motivo principal dos louvores e comemorações. Como uma
criança, humilde e submissa, Caim andava entre os seus tendo na face o brilho do
amor e da esperança, que eram nutridos sob a luz do altar. Com lágrimas de
gratidão distinguia agora em cada cordeirinho imolado o Redentor vindouro que
pereceria em dor para oferecer-lhes a luz da eterna vitória. Com alegria, Caim
testemunhava diante de sua família e diante do vasto Universo, da paz que agora
inundava sua alma agora renascida; Jamais experimentara antes sensação de tanta
liberdade, de tanto amor. Sobre sua mente refrigerada, contudo, começou a
baixar as sombras da provação que se intensificaram até mergulharem-no em
escura noite. Era assediado por tantas tentações que pareciam revigorar em seu
coração os sonhos ilusórios de seu passado. Vozes pareciam gritar em seus
ouvidos dizendo: - Deixe esse caminho que não leva a nenhuma vitória! Chega
desses sacrifícios sangrentos que enaltecem a morte! Contemple os jardins que
você plantou, e veja como eles comemoram a vida. Você é sábio e forte, e poderá
construir um império de paz e prosperidade, colorido por extensos jardins que
florescerão numa eterna primavera de sol. Sacudido por essa tempestade de
tentações, Caim quase vacilando, deixou transparecer em seu semblante a agonia
que lhe inundava a alma. Assim, sua aflição foi logo percebida põe sua família
que, preocupada procurou saber dele as razões de sua angústia. Temendo expor
para sua família o que lhe afligia, calou-se afirmando que era apenas um
sentimento de pesar que logo passaria. Os pais ficaram aflitos, pois concluíram
acertadamente, que era Satã quem estava pressionando-o com o objetivo de
arrastá-lo novamente para a escravidão. Com lágrimas, aqueles pais clamaram ao
Criador em favor daquele filho que, aflito, caminhava de um lado para o outro
procurando encontrar alívio. Anjos poderosos empenhavam-se insistentemente
naquele conflito que travava-se invisível aos olhos humanos. Ainda que
severamente provado, Caim não chegaria ao ponto de ser forçado pelo inimigo a
render-se ao pecado. Havia um exército ao seu lado para ampará-lo em seus
passos de fidelidade. Todo o Universo estava atento para as decisões de Caim,
que poderiam influir na experiência de incontáveis seres humanos que seguiriam
os seus passos. Orientado pelo exemplo de seus pais, Caim buscou na oração o
refúgio para sua alma torturada. Com fervor implorava ao Criador que firmasse
os seus passos. Embora sentisse forte apelo para voltar ao caminho do orgulho e
da aventura, estava decidido a continuar seus passos pelo trilho acidentado do
amor e do sacrifício. Temendo não alcançar o seu objetivo sobre Caim, Satã
ordenou seus guerreiros a suspenderem aqueles desesperados ataques. Disse-lhes
que através de sutil engano, lograriam a vitória que dificilmente alcançariam
pela força. Com isso, a paz voltou a reinar na mente de Caim que, unido à
família, cantava louvores ao Eterno, o autor de sua salvação. Enquanto aquela
família com alegria comemorava mais uma vitória alcançada na vida de Caim, as
hostes das trevas estavam reunidas tramando novos planos de ataque. Muitas
idéias foram apresentadas, mas prevaleceram aquelas elaboradas por Lúcifer,
arquienganador. Ele afirmou confiante: - Se tão nos aproximarmos de Caim como
amigos em sua jornada no caminho da salvação, inspirando pensamentos e
sentimentos de fé no Redentor, não nos será difícil introduzir com sutileza as
sementes da rebeldia que, germinarão uma a uma em seu coração confiante,
fazendo-o menosprezar finalmente os sacrifícios de sangue sobre o altar, com o
pensamento de não mais depender desse símbolo para ter em mente o Salvador
vindouro. Quando iludido julgar haver alcançado o amadurecimento espiritual,
estará novamente no abismo". Naquela colina, que era centro das atenções
de todo o Universo, sucediam para a pequena família dias de alegria,
prosperidade e paz. Cresciam cada vez mais em sabedoria e graça, trilhando no
caminho da salvação. Por detrás dessa paz, porém, inconsciente à família
jubilosa, uma perigosa armadilha se armava. O Eterno e Seus exércitos,
preocupavam-se com essa situação, pois sabiam que seus inimigos poderiam causar
com esse disfarce, uma grande ruína à humanidade, na experiência da qual se
processa a redenção do Universo. Os guerreiros da luz agora, não teriam de
lutar contra as trevas, mas contra um falso brilho. Envolvido por influências
aparentemente positivas, as quais julgava proceder todas do Criador, Caim
tornava-se aos poucos confiante e bem seguro da vitória prometida. Seu amor
pelo Eterno parecia tornar-se imenso, e vibrava ao prever a perfeita felicidade
que alcançaria no alvorecer do dia eternal. Satã que atento o acompanhava em
sua experiência religiosa, viu haver chegado o momento de atraí-lo com sua
falsa luz, desviando-o do caminho da justiça. Orientou mais uma vez seus
guerreiros a agirem com cautela e paciência, inspirando sutilmente pensamentos
e sentimentos de aparente virtude que o levassem imperceptivelmente a
negligenciar por fim o sacrifício de sangue sobre o altar, julgando haver
alcançado em sua santificação um nível superior, no qual não se depende mais
daquele doloroso rito. Em seu amor pelo saber, e apego a toda a revelação, Caim
começou ter sua atenção voltada para o falso brilho que, inicialmente parecia
tornar mais claro e seguro o caminho da redenção. Com ânimo apresentava para
seus familiares que, admirados reuniam-se aos seus pés, os pensamentos de
aparente sabedoria e graça, gerados pela sua nova experiência. Longe estavam de
saber que aquelas idéias tão belas e cativantes, eram originadas por aquele que
através da serpente conseguira seduzir Eva. Em suas palavras e louvores, Caim
passou a exaltar o Salvador, bendizendo o Seu futuro sacrifício. Inspirando
esses pensamentos, Satã ganhava a simpatia não somente de Caim, como também de
toda aquela família. Todavia, Caim que aparentemente tornava-se num eloqüente
mestre e pregador da justiça e da verdade, iludido em sua falsa segurança,
começou a menosprezar em seus ensinos o sacrifício do cordeiro sobre o altar.
Argumentava que somente as ilustrações da natureza e as instruções verbais,
eram suficientes para gravarem na mente humana as verdades da redenção.
Apelando às emoções da família, dizia que o objetivo estabelecido pelo Criador
por meio daqueles sacrifícios, já havia sido alcançado na vida deles; poderiam
evitar agora essa dor, apresentando sobre o altar ofertas de flores e frutos,
símbolos naturais da redenção. Um grande laço armara-se sobre aquela família,
levando-a a uma grande luta íntima. De um lado estava o caminho da dor e do
altar banhado em sangue, e do outro, a alegria de uma aparente vitória,
comemorada por um altar coberto com flores e frutos. Caso aceitassem a proposta
vinda através de Caim, cairiam sob o domínio do tentador. Com a família em
prova, Satã insistia por meio de Caim, procurando levá-los a decidirem de seu
lado, afirmando que o Eterno não Se importaria com essa mudança, que expressava
amadurecimento e gratidão pelo Seu sacrifício, também simbolizado pelas flores
e frutos. Todo o Universo estava em comoção, diante da decisão que aquela
família estava preste a manifestar. O que estava em jogo, era o trono do
Universo. Depois de renhida batalha espiritual, conscientes do engano que se
escondia nas palavras de Caim, aqueles pais temendo serem arrastados para
distante do Salvador, decidiram rejeitar aquela proposta. Influenciados por
essa decisão em favor da verdade revelada pelo Eterno, Abel e sua irmã mais
nova colocaram-se ao lado dos pais. Somente a irmã mais velha, que cultivava no
íntimo grande admiração por Caim, permaneceu indecisa, favorecendo seu irmão
mais velho nas discussões que tiveram lugar. Embora contassem com a queda de
toda a família humana, as hostes inimigas da luz se alegraram em ter novamente
Caim como escravo. Batalhariam agora pela conquista daquela jovem indecisa que,
unida ao irmão, poderia se tornar mãe de uma geração pecadora, no seio da qual
se fortificaria o reino das trevas. Ao tomarem consciência da posição rebelde
de Caim, Adão e Eva, seguidos por seus dois filhos fiéis, passaram a rogar-lhe
com amor, tentando convencê-lo do erro. Aquele filho, contudo, mantinha sua
posição sem ser agressivo. Estava confiante de ter aprovação do Criador para
suas idéias revolucionárias. Caim estava triste por não ter toda a família a
seu lado, mas animou-se ante a manifestação de compreensão e apoio por parte de
sua irmã. A afinidade de suas idéias levava-os a passar longas horas
conversando sobre o futuro. Foi assim que nasceu entre eles a idéia da
construção de um novo altar onde Caim, como sacerdote, pudesse por em prática
um culto renovado, oferecendo em lugar de cordeiros, flores e frutos. Isso,
evidentemente, significava a formação de um novo lar, pois Adão como sacerdote
de um culto conservador, jamais permitiria que o altar de sua família fosse
maculado por um culto diferente daquele estabelecido pelo Criador. O ideal foi
crescendo no coração daquele jovem casal, trazendo sonhos de um lar repleto de
crianças a brincar num paraíso banhado em sol. Caim, o senhor e mestre daquela
nova família, a guiaria numa caminhada de vitória, iluminados pelo brilho de um
fogo mais brilhante que o do cordeiro, que se ergueria de seu altar coberto de
flores e frutos. Semelhante a Caim, Abel que se tornara também adulto,
enamorou-se de sua irmã mais nova - aquela que desde a infância estivera ligada
a ele por laços de íntima afeição. Juntos caminhavam pelos campos, apascentando
o rebanho, enquanto consideravam com interesse os ensinos de amor escritos na
natureza. Adão e Eva, bem como o Criador e suas hostes fiéis, encontravam
consolo e esperança na experiência desses dois jovens que, jamais deixaram de
refletir nos olhos a chama aquecida daquele altar que indicava-lhes o caminho
sangrento da redenção. Caim, em seu anseio por constituir um lar, unindo-se
àquela a quem amava, aproximou-se finalmente de seus pais, pedindo-a em
casamento. Adão compreendeu-lhe o anseio, e pediu-lhe que aguardasse a resposta
do Eterno. Apresentaria a Ele o seu pedido, e esperariam pela manifestação de
Sua vontade. Adão, o bondoso pai que a cada dia intercedia junto ao altar pela
sua família, e de uma maneira especial por aqueles filhos que se aventuravam em
caminho de ilusões, apresentou com tristeza o pedido de Caim ao Senhor da luz.
Aguardariam dEle a manifestação de Sua vontade sobre aquele passo tão
importante no seio da humanidade. Caim e sua irmã amada, aguardavam agora
ansiosamente pelo dia do sacrifício, quando poderiam com certeza ter um
encontro com Aquele que tudo criou. Estavam convictos de que Ele não recusaria
a concretização de seu sonho, e manifestaria apoio ao seu ideal de culto. O sol
declinou-se ao fim daquele sexto dia, dando lugar às trevas de mais um sábado.
Toda a família reuniu-se reverente junto ao altar, enquanto Adão preparava o
cordeiro para o sacrifício. Viria o Criador em resposta ao anseio daquele jovem
casal?! Esta questão pesava sobre todos eles, e em especial sobre Caim e sua
irmã companheira. O Eterno ouvira o pedido de Caim apresentado por meio de
Adão, e estava pronto a manifestar-Se em resposta a esse anseio. Pesava sobre
seu Ser, contudo, uma grande tristeza, pois não poderia abençoar aquele jovem
casal com a plenitude de felicidade e paz que almejavam obterem naquela união.
Unicamente um verdadeiro casamento poderia conferir-lhes essas virtudes. O
Criador estabelecera o matrimônio como um santo legado, de significado eterno.
A união do casal, sob a benção divina, deveria simbolizar a união espiritual
entre Deus e os ser humano. O casamento, portanto, perderia o seu sentido
prefigurativa, para aqueles que menosprezassem o símbolo dessa união, que
encontrava, desde a queda do homem, o seu ápice no sacrifício do cordeiro. O
Eterno determinara ensinar por meio da cerimônia do casamento, a verdade
fundamental de que, unicamente mediante a morte do Messias, há seu tempo, Ele
poderia casar-Se com a raça humana, numa eterna aliança de paz. Portanto, Sua
benção somente poderia ser obtida por aqueles que Se submetessem ao ritual
simbólico. O cordeiro atado sobre o altar, sentiu atravessar seu peito aquele
cutelo de pedra que, depois de causar-lhe profunda dor mergulhou-o na escuridão
da morte. Sobre o sangue que brotou de sua agonia, nasceu imediatamente uma luz
que tornou-se intensa, até afugentar todas as trevas que cobriam aquela colina.
Em meio ao brilho, a família reunida pode distinguir a presença gloriosa do
Criador, que mansamente inclinou-se sobre eles, com o Seu sorriso amigo. A
felicidade daquele encontro era imensa, pois já haviam passado muitos anos
desde Sua última aparição, que ocorrera por ocasião do anúncio do nascimento de
Abel. Para eles, portanto, aquele encontro era muito especial. Depois de saudar
afetuosamente aquela família, o Eterno comunicou-lhes as novas que poderiam ser
de alegria. Disse-lhes que ouvira o pedido de Caim, que Lhe fora apresentado
por Adão, e viera com o propósito de orientá-los acerca dos passos que deveriam
dar para concretização daquele sonho. Conscientizou-os primeiramente da
responsabilidade que assumiriam diante de dEle e de todo o Universo, pois em
sua espontânea união, trariam ao mundo filhos, os quais deveriam ser instruídos
no caminho da salvação. Falou-lhes também das funções que desempenhariam em seu
novo lar. Caim, semelhante a Adão, seria sacerdote e mestre ; Deveriam,
portanto, construir um altar, para sobre ele oferecer sacrifícios. Sua
companheira, em semelhança de sua bondosa mãe, deveria ser submissa e sempre
pronta a auxiliá-lo nas lides diárias. Com alegria, Caim e sua companheira
ouviram de Deus essas palavras de orientação e aprovação ao casamento. Abel e
sua companheira que aos pés do Criador ouviam atentos Suas palavras de
aprovação ao casamento dos irmãos, entreolhavam-se movidos por um intenso desejo
de formarem também um lar, onde seguindo o exemplo dos pais, poderiam
desempenhar um ministério de amor. Lendo em seus olhos o desejo nascido no
coração, o Eterno com um sorriso os envolveu com Seus braços, e disse-lhes que
poderiam construir também o seu altar. Com lágrimas de emoção, Abel e sua irmã
prostraram-se aos pés do Criador, agradecendo-Lhe por conferir-lhes tão sagrado
dom. O Eterno passou a orientar aqueles jovens com respeito à cerimônia que os
enlaçariam. Ordenou-lhes mais uma vez a construção do altar. Caim construiria o
seu altar, e Abel o seu. Preparariam cada um uma oferta especial, para oferecer
em sacrifício, na noite que antecederia ao próximo alvorecer do sábado. A
aprovação e benção de Deus ao casamento, se manifestaria na presença do fogo
que surgiria sobre o altar. Iluminados pelo brilho da presença divina, sua
união seria selada diante de todo o Universo, sendo considerados a partir desse
ato, uma só carne. Essa união, geradora de vida, consistiria num simbolismo
perfeito da união do Eterno com o ser humano, em virtude do sacrifício do
Salvador. Com essas orientações e ordens do Eterno, tornou-se claro para
aqueles jovens pretendentes ao matrimônio, que a única oferta aceitável, que
poderia trazer a benção da verdadeira união, seria o sacrifício de um cordeiro.
Em meio ao júbilo daquela família, a luz de Deus dissipou-se finalmente,
ocultando-O de seus olhos. Sob a luz do altar, permaneceram alegres a conversar
sobre aquele futuro de felicidade que acenava-lhes agora tão próximo. O sol
surgiu finalmente, trazendo em seus cálidos raios um alvorecer de brisa mansa a
beijar-lhes a face com o aroma do Éden, trazendo-lhes à lembrança as emoções
daquele primeiro sonho de Adão. Caminhando pelos campos férteis sobranceiros à
colina, a pequena família, seguindo instruções do Eterno, passou a traçar as
divisas de seus lares. Caim, sendo o primogênito, escolheu os campos floridos
que estendiam-se à direita do lar de seus pais; Ali , muito em breve, ergueria
o seu altar. Enquanto Caim e sua companheira permaneceram nos limites de seu
futuro lar, traçando planos para seu futuro, Abel e sua irmã mais nova
acompanharam os passos de seus pais até alcançarem aos campos que estendiam-se
à esquerda do altar de Adão. Estavam contentes, pois em sua ocupação pastoril,
encontrariam ali sempre verdejantes pastagens regadas por refrigerantes
mananciais. Depois de definirem o lugar sagrado do altar, onde sob o calor da
primeira chama viveriam a mais íntima união, Abel e sua companheira passearam
felizes pelos seus campos onde pastavam os cordeiros; Ali adoraram o grande
Deus que, para casar-se com a humanidade em eterna aliança de vida, Se faria
cordeiro na pessoa do Messias, para verter Seu sangue em sacrifício remidor. O
alvorecer do primeiro dia da semana despertou enfim aqueles noivos para uma
semana que seria de muitas atividades: Deveriam construir os altares e preparar
seus novos lares. Com ânimo iniciaram o trabalho, ajudados pelos pais. Depois
de lavrarem e prepararem os lugares determinados, reuniram as pedras com as
quais construíram cuidadosamente os altares. Prepararam em seguida suas
moradas, plantando arbustos para servirem de muro protetor. Esses preparativos
se estenderam até o quinto dia. Aguardavam agora o sexto dia, quando
preparariam a oferta para o altar - oferta que em sua aceitação os uniriam em
sagrado matrimônio. A luz do sexto dia finalmente raiou, trazendo um dia
significativo para aquela família. Caim e Abel, juntamente com suas
companheiras, haviam sido instruídos desde a infância sobre o caminho da
obediência. Haviam também recebido orientações diretas do Eterno com respeito
ao verdadeiro sacrifício. Agora, eram observados por todos os seres
inteligentes do vasto Universo, naquele dia de prova. Se atentassem para o
caminho doloroso do cordeiro, seriam unidos num casamento de significado
solene; se rejeitassem seguí-lo, não alcançariam a aprovação, nem tão pouco a
benção que desejavam receber. Abel e sua irmã mais nova, caminharam com alegria
em direção ao rebanho, onde escolheram o mais bonito cordeiro, tomando-o como
oferta ao Senhor. Enquanto isso, Caim e sua companheira, com determinação
dirigiram-se aos pomares, colhendo ali os mais belos frutos e flores, para
oferecerem sobre o altar. O Eterno e seus súditos entristeciam-se ante a atitude
de Caim. A oferta que preparavam, consistia numa demonstração de rebeldia
diante do plano da redenção. Rejeitando o sacrifício de sangue, estavam
menosprezando o único caminho pelo qual o ser humano poderia retornar ao
paraíso da eterna vida. O sol finalmente tombou no horizonte, trazendo em seu
arrebol, como num último apelo ao jovem Caim, a lembrança de seus passos
naquele anoitecer em que retornava ao lar. Teria ficado retido na selva naquela
noite, não fosse a luz do cordeiro sacrificado. Essa lembrança mergulhou-o em
profunda luta íntima. Seria aceita a sua oferta de flores e frutos?! Não seria
melhor retroceder em seus passos, tomando um cordeiro para o altar?! Invisíveis
aos olhos de Caim, legiões de anjos procuravam influenciá-lo em sua solene decisão.
Em sua luta espiritual, chegou quase a abandonar seus planos, mas seu orgulho
repelia repeliu finalmente essa opção: seria humilhante àquelas alturas,
confessar diante de sua irmã e de sua família, a inconsistência de sua
teologia. Enquanto contemplava no horizonte o último lampejo do arrebol, Caim
rompendo com o apelo do Espírito divino, reafirmou-se em sua decisão:
Ofereceria flores e frutos em lugar de um cordeiro, inaugurando uma nova
modalidade de culto que, certamente, poderia ser aceita pelo Eterno. As trevas
baixaram lentamente sobre aquela colina, até cobri-la em semelhança de um
espesso manto. O momento era deveras importante , pois decisões de vida e morte
estavam por manifestar-se . O que estava em jogo no posicionamento humano, era
o destino do Universo. Nos passos rebeldes de Caim e sua companheira, viam os
seguidores do Eterno um grande perigo que poderia dificultar e por em perigo o
triunfo do plano da redenção. Tomavam consciência naquela noite, de que Satã e
suas hostes, procurariam conduzir a humanidade para formas errôneas de culto,
baseadas em filosofias atraentes como aqueles frutos e flores colhidos por
Caim, mas que em essência seria uma negação do único caminho da salvação,
representado pela morte do cordeiro. Naquela noite, dois novos casais, movidos
pelo mais profundo anseio, apresentavam-se diante do Criador com suas ofertas.
A aceitação divina descerraria para eles um caminho de felicidade, em resposta
aos seus mais acalentados sonhos. Sua união sob a luz do altar, traria para
eles um vislumbre das glórias futuras - aquelas que serão desfrutadas pelos
redimidos - a alegria de estarem para sempre unidos ao Redentor, o amante
Esposo da alma humana. A não aprovação da oferta, traria amarga decepção, pois
além de não receberem a benção do Criador, teriam consciência de estarem
trilhando por um caminho de rebeldia, desligados do Autor da vida. Foi com um
misto de alegria e tristeza, que Adão e Eva dirigiram-se ao altar naquela
noite, depondo sobre o mesmo a ovelha para o sacrifício. Depois de tantos anos
junto aos seus filhos, nos quais por palavras e exemplo, procuraram mostrar o
caminho da salvação, colhiam agora respostas de obediência e desobediência.
Estavam felizes por Abel, e tristes por Caim. O que mais poderiam fazer por aquele
filho rebelde?! Numa última tentativa de fazê-lo reconhecer seu erro, Adão
tomando nos braços sua oferta, tateou-se até avizinhar-se do altar de Caim.
Ali, com lágrimas a banhar a face, implorou com seu filho a tomar aquela ovelha
para o sacrifício. Se aceitasse os seus rogos, veria surgir o fogo da benção
divina, caso contrário, permaneceria mergulhado nas trevas. Caim com
arrogância, menosprezou a oferta de seu pai, afirmando que o seu altar jamais
seria maculados pelo sangue de inocentes animais. Ferido pela rebeldia e
ingratidão de seu filho, Adão retornou ao seu altar, onde juntamente com Eva,
continuaram intercedendo pelo futuro de seus filhos. O momento da prova
chegara. Todo o Universo estava atento. No coração de todos os filhos da Luz
havia um misto de alegria e tristeza: alegria pela oferta de Abel, e tristeza
pela confirmação de Caim no caminho da rebeldia. Semelhante a seu pai, Abel
ergueu com mãos trêmulas o cordeiro que não opunha resistência. Desde a
infância se apegara a esses inocentes e puros animais, vendo neles um símbolo
do Salvador. Seu apego aos cordeirinhos, levara-o a tornar-se pastor. Ele
estremecia ante a idéia de ter de sacrificar aquele animalzinho de estimação,
mas sabia que não haver outro caminho para se aproximar do Eterno. Unicamente a
sua morte poderia descerrar a chama da aceitação, da benção para o seu
casamento. Presenciara desde a infância o doloroso ato do sacrifício, mas
agora, quando suas mãos deveriam desferir o golpe, hesitava. Tomado por
profunda angústia ante seu dever, curvou a fronte em inconsolável pranto. Caim,
movido pelo anseio da união que seguiria à chama da vitória, ergueu as mãos
sobre as flores e frutos, invisíveis sobre aquele altar mergulhado na
escuridão. Seguro da aprovação divina, voltou os olhos para o céu, e contemplou
o fulgor das estrelas. Alegrava-se por saber que em resposta à sua oferta,
outra estrela surgiria para se unir àquelas com seu brilho. Adão com a mão
erguida chorava em sua prece, lamentando a perdição de Caim. Por que rejeitara
o cordeiro?! O que poderia mais ter feito, para fazê-lo compreender que o seu
caminho era de pecado?! Certo de que esgotara todos os meios para ajudá-lo,
Adão tombou a cabeça, após desferir o golpe mortal. A chama da aceitação
imediatamente iluminou-lhe a face marcada pelo pranto. Consolado pelo brilho da
chama que ardia sobre o altar de seu pai, Abel num esforço doloroso ergueu a
mão portadora do cutelo da morte - aquele que em sua queda descerraria-lhes a
benção imerecida, após causar a dor. Enquanto trêmulo e pálido permanecia ainda
hesitante em suas trevas, Caim do outro lado da chama de perdão acesa no altar
de seu pai, clamava pela luz divina. Confiante de estar agradando o Criador com
sua oferta, orava: - Senhor, Criador e Rei Universal, Teu reino é de luz e
alegria; Tu és como o sol que vitorioso percorre o céu, envolvendo toda a
natureza com o seu manto de luz, fazendo-a despertar colorida, em pujante vida.
A ti que com o Teu amor fazes brilhar o dia, unindo sob teus raios toda a vida,
trago estas flores e frutos que são produtos dessa união. Aceita-os como
símbolos de nossa vitória, e faça brilhar sobre nosso altar a chama da eterna
benção". Abel, movido por uma profunda dor, cravou finalmente no peito do
cordeiro aquele instrumento de morte, fazendo-o adormecer para sempre. No
impulso do golpe, prostrou-se ao solo onde agonizante demorou, refletindo no
significado daquele sacrifício. Podia agora compreender a agonia que seu pai
experimentava em todas aquelas noites de sacrifício. Caim que silente aguardava
a resposta de sua prece, inquietou-se pela demora. Sua inquietação tornou-se
finalmente desespero, ao ver surgir além à chama da benção descendo sobre o
altar de seu irmão. Tomado então por emoções de tristeza e ira, bradou aos
céus: - Senhor, Senhor, não me ouves?! Não me respondes?! Seus rogos, porém,
não trouxeram nenhuma resposta além de um eco vazio, perdido naquela noite.
Vencido pela vergonha da tragédia, Caim prostrou-se, revolvendo-se em
inconsolável pranto. Satã exultou ao testemunhar o desespero de Caim que, com
gemidos maldizia o Criador por não haver se manifestado sobre o altar.
Festejava por ter conseguido através do engano levar Caim novamente a
manifestar diante do Universo sua rebeldia. Estava contente também em ver que
Caim não estava sozinho em sua queda, mas tinha sua irmã a seguir-lhe os
passos. Agora, lutaria para mantê-los cativos sob o seu poder, tornando-os
inimigos declarados do Eterno e de seus seguidores. O Criador, embora
entristecido pela desobediência de Caim, alegrava-se em poder honrar diante do
Universo aquele casal obediente que, no cordeiro imolado, via a promessa de um
Redentor que no futuro nasceria para redenção de todos os pecadores que o
aceitassem. Abel e sua companheira após consolarem-se da dor do rude golpe,
banhados pelos raios aquecidos daquela chama, uniram-se em sublime ato de amor,
esse que poderia gerar vida. Adão e Eva que penalizados já haviam previsto a
dura decepção de Caim e sua companheira, atraídos pelos seus gemidos,
apalparam-se nas trevas, até avizinharem-se de seu altar sem vida. Ali, movidos
por grande desejo de mudar-lhes a sorte, procuraram convencê-los a oferecerem
um cordeiro; O tempo ainda lhes era oportuno e se quisessem, poderiam buscar
nas pastagens o rebanho, tomando um cordeiro para o altar. Impulsionados pelo
orgulho, Caim e sua irmã rejeitaram os conselhos dos pais que somente queriam a
felicidade deles. Remoendo em lamúria sua amarga decepção, Caim permaneceu o
restante da noite a revolver-se em insônia. Em seus sentimentos e pensamentos,
sobrevinham agora as sombras do ódio e da vingança. Estava irado contra o
Criador, por haver rejeitado sua oferta. Contemplando ao longe a chama da
aprovação, sob a qual Abel e sua companheira viviam sua feliz união, Caim
encheu-se de indizível inveja que explodiu dentro dele num furor sem limites.
Lá estava o filho preferido - aquele a quem não tolerara desde a infância. Por
que seria ele mais digno?! Por que poderia gozar maiores privilégios?!
Inspirado pelo espírito maligno, quando o sol já estava quase raiando, Caim
começou a maquinar um terrível crime. Disse para si: - Se eu não sou digno de
viver sob a luz da benção divina, nem tão pouco o meu irmão será; Aguardarei o
momento oportuno, para apagar de seus olhos todo o brilho da felicidade. O sol
finalmente raiou revelando com sua luz a face transtornada de Caim. Que
mudança! Não brilhavam os seus olhos de felicidade ao entardecer?! Todas as
hostes da luz preocupavam-se com a situação infeliz de Caim. Sabiam que em sua
decidida rebelião, Satã o afundaria cada vez mais em maior desespero. O Criador
conhecendo os planos malignos de Caim, manifestou-se a ele no alvorecer, com o
propósito de ajudá-lo a compreender sua necessidade. Invisível aos demais da
família, o Eterno dirigiu-se a Caim e, estendendo sobre ele Sua mão amiga,
perguntou-lhe: - Filho, por que você está tão irado?! Em resposta, Caim
apontando para o altar coberto de flores e frutos, respondeu: - Estou magoado
por não teres aceito essa oferta que ofereci com tanta fé. Com palavras cheias
de compaixão, o Criador explicou-lhe novamente a necessidade humana da
salvação, a qual somente poderia ser alcançada mediante o Seu sacrifício, que
era simbolizado pela imolação do cordeiro. Disse-lhe que sua oferta de gratidão
somente poderia ser aceita, após o sacrifício de sangue. Não conformado com as
palavras do Eterno, Caim procurou justificar-se. Suas palavras, contudo, que
revelavam a grande mágoa de um orgulho ferido, foram finalmente interrompidas
pelos conselhos finais de Deus, que estendia-lhe uma única oportunidade, para
romper com sua escravidão espiritual: - Somente há um caminho Caim , que é de
sacrifício. Se você proceder conforme o seu irmão, será também aceito e
abençoado com a chama da benção; Se, todavia, proceder mal, terá selado o seu
destino das garras da morte. Após afirmar solenemente essas palavras, o Eterno
despediu-se de seu filho, tornando-Se invisível.
A História do
Universo Capitulo IX
As palavras do
Eterno mergulharam Caim na mais terrível luta íntima. De um lado Satã e seus
exércitos esforçavam-se em detê-lo em sua escravidão, do outro Deus e suas
hostes, procuravam despertar naquele coração em luta, o reconhecimento do único
caminho para a salvação. Caim, agitado em seus pensamentos e torturado pelo
peso de responsabilidade que repousava sobre si, pois seus passos seriam
seguidos por muitos outros, chegou, por vezes, a pensar em render-se, tomando
para si um cordeiro. Mas esse pensamento, logo era banido, dando lugar a outro,
de ódio e vingança. Em sua agonizante luta, quando o sol já caminhava para o
poente anunciando outra escura noite, Caim vencido pelo orgulho tomou trágica
decisão: Jamais aceitaria o plano da redenção simbolizado pelo cordeiro sobre o
altar. Essa decisão, qual seta dolorosa rasgou o coração do Eterno e de suas
hostes. fazendo-os prostrar em triste lamentação pela perdição daquele filho
amado. Era terrível pensar que muitos no desenrolar o grande conflito pelo
trono do Universo, haveriam de seguir os passos de Caim!. Cessada a batalha,
Caim ergueu-se com um sorriso maldoso nos lábios. Não teria mais conflitos em
sua consciência! Não seria mais perturbado pela idéia do sacrifício! Lutaria
agora, e construiria com sua sabedoria e força, um paraíso de paz e
prosperidade. Mais uma noite surgiu, trazendo com suas trevas a insônia de uma
aventura louca, desumana e cruel, que agora era planejada por Caim. Com o
coração dominado pelo mal, dizia para si naquela noite, que era a primeira da
semana: - Assim que raiar o dia, visitarei o lar de Abel. Fingindo estar arrependido,
pedirei dele um cordeiro para o meu altar. Pedirei que ele me acompanhe até o
rebanho, que pernoita em pastagens distantes; Sei que ele de boa vontade me
atenderá. Quando em nossos passos, nos encontrarmos distantes de seu lar, eu o
farei compreender a dor sentida pelos cordeiros. Depois de matá-lo, o
esconderei na floresta, longe do alcance dos olhos de sua companheira e de seus
pais. Comemorarei então o seu fim, unindo-me à minha companheira, como ele o
fez após a morte do cordeiro. Quando surgir o entardecer - esse que com seu
arrebol não trará mais Abel para o seu lar- fugirei com minha irmã para o vale
de onde regressei outrora, e de lá jamais voltarei a essa colina hostil, onde
cordeiros perecem sem culpa. Caminharemos assim até alcançarmos o berço da luz,
que estende-se nas campinas do Éden. Ali, longe dos rogos e conselhos desse meu
intolerável pai, oferecerei ao Senhor da luz, cultos de flores e frutos :
produtos que nascem sob seu brilho. O sol em sua marcha oculta, anunciou no
horizonte distante os sinais do amanhecer, num clarão que, refletido por uma
nuvem, tornava-a parecida a um manto banhado em sangue. Caim que trazia nos
olhos as marcas da insônia, ocultou à sua companheira o motivo que não o
deixara dormir. Sorriu simplesmente após ver surgir o sol, e saiu prometendo
regressar assim que sacrificasse no campo um cordeiro. Achando estranha sua
atitude, sua irmã perguntou-lhe o por que de não oferecer a oferta sobre o
altar. Ele desculpou-se dizendo que manteria seu propósito jamais macular o seu
altar com sangue de inocentes animais, mas cumpriria a vontade divina,
sacrificando um cordeiro para alcançar a benção sobre o seu matrimônio, mas o
faria distante, no campo. Após cumprir esse compromisso, retornaria para ela, e
seriam a partir de então uma só carne. Abel alegrava-se naquela manhã ao lado
de sua amada que, com um sorriso despertara como de um sonho, reclinada ao seu
peito, onde pulsava um coração o qual não podia ela imaginar, enviaria naquele
dia, num último esforço, a seiva da vida, para não mais retornar. Abel seria
como um cordeiro sobre o altar. Depois de cingir-se com o instrumento da morte,
Caim com passos movidos por uma decisão que não seria revogada, ladeou a casa
de seus pais, aproximando-se do lar de Abel que, ainda aos pés do altar,
permanecia com sua companheira, trocando juras de um amor eterno. O olhar de
ternura de Abel, sob o brilho do alvorecer trouxe para aquela jovem uma
lembrança que a comoveu. Acariciando sua face coberta pela barba macia qual lã,
com os lábios trêmulos de emoção, sussurrou-lhe: - Querido, o seu olhar é para
mim como o olhar de um cordeiro: me traz segurança, paz e esperança. Sou grata
por poder contemplar esses olhos em que brilha o amor! Tudo o que eu quero, é
que eles jamais se fechem para mim! Com emoção Abel beijou sua companheira
depois de ouvir suas palavras de carinho, e respondeu-lhe com um sorriso: -
Querida, somente a morte os poderá fechar; mas mesmo a morte não poderá
serrá-los para sempre, serrá-los pra sempre, pois no alvorecer eternal, eles se
abrirão para você com um brilho que jamais será desfeito por essa sombra! Abel
dizia essas palavras, quando os passos de Caim se fizeram ouvir em aproximação.
Ao ouvirem-no chamar por Abel, saíram-lhe ao encontro, e ficaram felizes ao vê-lo
expressar sua decisão de sacrificar um cordeiro. Como não possuía rebanho,
desejava adquirir um de seu irmão. Abel prontamente autorizou-o a tomar de seu
rebanho, não somente uma ovelha, mas quantas precisasse, até que formasse o seu
próprio rebanho. Caim, com um sorriso agradeceu-lhe a dádiva, mas acrescentou:
- Meu caro irmão, não aprecio abusar de sua bondade, mas eu gostaria
imensamente que você me acompanhasse até o rebanho, pois as ovelhas certamente
fugirão de mim que não sou pastor. Abel consentiu de boa vontade em
acompanhá-lo. Abraçou então sua companheira, prometendo logo regressar -
promessa que em dor veria desfazer-se no seu corpo ferido e em seus olhos a
escurecer em sangue, semelhante ao triste arrebol que não o traria de volta
para os braços de sua amada. Abel alegrou-se ao saber que seu irmão tomara a
decisão de sacrificar um cordeiro. Enquanto caminhavam rumo ao rebanho,
conversavam sobre a experiência do casamento: benção alcançada mediante o
sangrento sacrifício. Quando já estavam distantes de seus lares, avistaram o
rebanho que pastava sob o sol matinal. Abel adiantou-se em seus passos fazendo
soar sua voz de pastor. As ovelhas de uma só vez ergueram a cabeça, olhando na
direção do bom pastor. Caminhando em direção ao rebanho, Abel pediu a seu irmão
que o aguardasse naquele lugar enquanto tomaria um cordeiro gordo para o seu
altar. Não ouvindo resposta de Caim, Abel olhou para traz, e surpreendeu-se ao
ver que o semblante de Caim estava transtornado e seus olhos não expressavam
gratidão, mas ira. Abel voltando-se para ele, perguntou-lhe o por que de sua
infelicidade. Disse-lhe que Deus o amava, e visto que estava decidido a
oferecer-Lhe um cordeiro, o seu casamento seria abençoado e desfrutariam paz na
alma. Em resposta às palavras amorosas de Abel, Caim disse-lhe friamente: -
Você é o cordeiro que eu quero sacrificar" Depois de fazer-lhe esta cruel
declaração, Caim tirou do interior de sua veste uma faca de pedra e avançou
sobre o seu irmão que, pálido rogava-lhe, desferindo-lhe um profundo golpe na
face. O sangue imediatamente jorrou como de um cordeiro, fazendo Abel
estremecer de medo. Teria já chegado o dia de depor a vida?! Enquanto com um
gemido indagava, sentiu outro golpe que em sua violência o fez tombar ao solo.
Em sua mente atordoada pela dor, num último esforço de sua consciência,
lembra-se daquelas juras de amor trocadas no alvorecer. Em seu delírio de
morte, parecia ouvir sua amada dizer-lhe com os lábios trêmulos pela emoção: -
Querido, o seu olhar é como o olhar de um cordeiro...; Tudo o que eu espero, é
que eles jamais se fechem para mim! Revive assim com esforço, seu último beijo
acompanhado por sua promessa que a fez sorrir: - Somente a morte os poderá
fechar; mas mesmo ela não os poderá serrar para sempre, pois no alvorecer do
dia eternal eles se abrirão para você com um brilho que jamais será desfeito
por essa sombra. Após lembrar este juramento de amor, Abel vencido por um golpe
fatal, mergulhou na inconsciente treva, seguro de que em breve essa sombra
seria banida de seus olhos, no dia da ressurreição. Caim somente cessou de
golpear seu irmão, depois de certificar-se de que ele estava realmente sem
vida. Arrastou-o então até a floresta, deixando-o ali coberto com folhagens de
capim. Retornando para sua casa, Caim mostrou à sua companheira as marcas de
sangue em suas mãos, e disse que atendera o pedido divino, sacrificando um
cordeiro. Agora, estavam livres para se unir sob a benção do Senhor. Vencidos
pela paixão carnal, uniram-se então sob o brilho daquele sol que já não brilhava
para Abel. Quando o sol tingia o horizonte com seu arrebol, Caim lembrando-se
de seu crime levantou-se sobressaltado, e disse para a sua companheira que em
seu sacrifício, prometera ao Senhor da luz apresentar suas flores e frutos como
uma oferta de gratidão pela benção alcançada. Essa oferta deveria ser oferecida
nas divisas do Éden por ocasião do alvorecer. Precisavam, portanto, partir
imediatamente. Sem questionar a vontade de seu marido, aquela jovem reuniu
apressadamente suas vestes e a oferta de gratidão, e partiram para dentro da
noite. Caim tinha pressa, pois sabia que a ausência de Abel naquela noite,
traria a revelação de seu crime, o qual pretendia para sempre ocultar de sua
esposa. Banhada pela luz do arrebol, aquela jovem esposa sorria, certa de que
abraçaria o seu Abel antes da noite. Contemplando o sol em seu declinar sobre
as campinas de onde esperava vê-lo regressar, com saudade lembrava do alvorecer
que em sua luz revelara os olhos de seu esposo, compassivos como os de um
cordeiro. Emocionou-se ao lembrar do pedido que num sussurro lhe fizera: - Tudo
o que eu quero é que seus olhos jamais se fechem para mim. Lembra-se de sua
resposta carinhosa: - Querida, somente a morte poderá fechá-los; mas mesmo essa
não poderá cerrá-los para sempre, pois no alvorecer eternal eles se abrirão
para você com um brilho que jamais será desfeito por essa sombra". Com
essa lembrança, a jovem esposa viu enfim o sol mergulhar em seu túmulo de morte
e vida, envolvendo com seu último clarão a campina vazia e seu coração que a
pulsar com saudade, permaneceria também vazio. Franzindo a testa com
preocupação, aquela jovem indagava: - Por que não vem o meu amado?! Movida pelo
anseio, correu até a casa de seus pais, onde imaginava o encontrar. Chamando-o,
porém, não ouviu nenhuma resposta além do ruído dos passos de seus pais que,
curiosos saíram-lhe ao encontro , indagando: - Filha, você está procurando por
Abel? Ele ainda não chegou? -Não,- respondeu a filha, já com lágrimas nos
olhos, - ele ainda não chegou! Embora preocupados, aqueles pais abraçaram a
filha procurando consolá-la, dizendo que ele logo estaria em seus braços. Em
sua preocupação velada, perguntaram então à filha: - Já faz tempo que ele saiu?
- Logo após despertarmos, no alvorecer - respondeu. A esta resposta, seguiu um
silêncio de inquietantes indagações, enquanto juntos tentavam divisar em vão
seu vulto sob aquele prado banhado pelo último rastro de luz. Suspirando
profundo, Adão já suspeitando um possível mal, indagou de sua filha: - Ele saiu
sozinho? Soluçando ela respondeu: - Caim nos despertou pela manhã, pedindo um
cordeiro, e Abel saiu com ele. Preocupado, Adão saiu silencioso e dirigiu-se à
casa de Caim. Chamando ali por ele, não ouviu nenhuma resposta. Rompeu então
através das folhagens para o interior daquela cabana, onde leu no triste vazio
um presságio doloroso de traição , confirmado numa veste manchada de sangue,
apagando-se na penumbra. Vencido pela angústia, Adão caiu ao solo rompendo-se
em pranto; Não querendo, contudo, revelar seu desespero à sua filha e esposa
que precisavam de consolo para vencerem aquela triste noite, Adão num esforço
imenso enxugou as lágrimas e firmou-se contra as emoções, ao ouvir os passos
delas em aproximação. Do lado de fora, Eva e sua filha esperançosas de encontrarem
ali Abel em visita a seu irmão, indagou: - Eles estão aí papai? A voz
esperançosa de sua filha em meio àquela noite, foi qual seta a sangrar seu
coração, e temia responder sua pergunta. Finalmente, caminhou na direção de sua
filha, e vendo-a sofrer pela ausência de seu companheiro, procurou consolá-la
dizendo: - Filha, confie no poder do Criador. Ele cuidará dele, e o trará no
alvorecer! As palavras de consolo de Adão, contudo, longe de suavizarem o
pranto daquela jovem, mergulhou-a em maior sofrimento, fazendo-a reviver em
lembranças as promessas de Abel proferidas naquela manhã; Ele havia dito que se
algum dia os seus olhos fossem apagados pela morte, eles se abririam para ela
no alvorecer do sábado eterno. Caim e sua companheira em seus passos apressados
de fuga, encontraram-se finalmente distantes da colina, mergulhados naquele
vale de trevas que jamais entregaria de volta àquelas pais sofredores seus
filhos rebeldes. Caim agora, ao lado de sua esposa, ufanava-se zombando das
trevas, prometendo desfazê-la em breve com sua força. Vencidos pelo cansaço,
tombaram ao solo, onde adormecidos ficaram até serem despertos pelo alvorecer.
Refeitos da fadiga, continuaram a jornada pelo caminho da aventura, em passos
que faziam Caim se lembrar daquela caminhada interrompida pela incoerência.
Quão tolo havia sido, pensava, em dar ouvido a voz do anjo! Se houvesse
continuado em sua missão, possivelmente já teriam um paraíso banhado por uma
eterna luz. Entardecia quando o casal fugitivo alcançou o vale de ossos, lugar
em que Caim outrora sentira grande medo. Ao passar por aquele lugar, Caim
estremeceu. Temia agora não as trevas que lentamente baixavam sobre o vale, mas
a luz. Percebendo o seu temor, sua companheira perguntou-lhe: - Você está
temendo as trevas? - Estou temendo a luz, respondeu Cai: - Aquela que me fez
caminhar rumo à morte. Não entendendo o que ele queria dizer, sua companheira
insistiu para que ele esclarecesse o mistério. Com impaciência, Caim revelou
que estavam nas divisas do Éden; lugar onde encontrou-se outrora com o anjo.
Tendo dito isto, apontou para a esquerda acrescentando: - Sigamos nesta
direção, pois não quero encontrá-lo novamente. Tomando-a pelo braço, caminharam
rápidos, aproveitando a última luminosidade do arrebol. Quando enfim seus
passos não podiam ser dados sem dificuldades por causa das trevas, contemplaram
por entre as ramagens um brilho que, mais intenso que o do sol, permaneceu por
um momento, desvanecendo-se. Imóvel ao lado de Caim, suas esposa, curiosa
indagou: - Você viu? - Sim , respondeu Caim a tremer. - O que será? A essa
indagação, Caim não respondeu, simplesmente tomou-a pela mão e disse: -
Voltemos. Fujamos dessa luz que nos poderá matar. Sem compreender o mistério, a
jovem esposa o seguiu em passos rápidos que, aqui e acolá, eram impedidos por
tropeções que os lançavam ao chão. Nessa fuga, porém, não conseguiram
esquivar-se do brilho que surgiu-lhes mais forte diante dos olhos. Enquanto
espantados tentavam num último esforço fugir noutra direção, foram detidos por
uma forte mão que, desvendando os seus olhos, revelou diante deles a face do
Eterno, mais brilhante que o sol. Não sabendo como encará-Lo em Sua luz de
justiça, Caim temendo ser castigado pelo seu crime, curvou a cabeça entre as
mãos. O Criador indagou-lhe então com seriedade: - Onde está Abel o seu irmão?!
Como insistisse nesta pergunta, Caim envergonhado por ter de confessar o seu
terrível crime diante de sua companheira, de quem queria ocultar, respondeu
simplesmente: - Não sei. Sou eu o guardador de meu irmão?! Indignado por esta
resposta de desprezo e irresponsabilidade, o Eterno disse-lhe com firmeza: -
Que fizeste Caim! A voz do sangue do seu irmão clama a mim desde a terra. Agora
- continuou Deus - maldito será nesta terra que recebeu o sangue inocente de
seu irmão. Com voz cheia de tristeza, o Eterno continuou: - Até este dia, o
cobri de bênçãos, fazendo prosperar o seu labor na terra, dando-lhe prazer
nesta realização; desde agora, já não poderei abençoá-lo, pois pela espontânea
rebeldia você cerrou os canais desta benção. Por isso, caminhará sempre
vagabundo sobre esta terra amaldiçoada por sua culpa, fugitivo da luz desta
face que sempre sorriu-lhe perdão e salvação, até tombar vencido pela rebeldia
dentro da eterna noite. Depois de revelar sua triste e irremediável situação, o
Criador ergueu a voz e chorou amargamente. Duro Lhe era despedir para a morte
aquele filho amado que, pela insistente rebeldia selara seu destino eterno.
Caim todo trêmulo, tomado pelo medo e horror pela sua deplorável condição, com
desespero clamou a Deus: - Volta Senhor, volta! Conceda-me somente uma benção!
Movido pelo Seu infinito amor, o Eterno tornou-se para Caim que trêmulo Lhe
falou de seu temor: - Tenho medo dos perigos da floresta, e daqueles que
quererão no futuro procurar-me para vingar o sangue de meu irmão que
derramei". O Criador teve compaixão de Caim, prometendo-lhe proteção. Como
sinal dessa promessa, acariciou-lhe a face, fazendo-lhe desaparecer a abundante
barba. Depois deste gesto de pai amoroso que acaricia o filho mesmo na eterna
partida, Caim viu desaparecer diante de seus olhos o brilho daquela face
banhada pelas lágrimas, produzidas por sua ingratidão. À noite de desespero e
pranto foi finalmente foi banida pelo brilho de um novo alvorecer que com sua
luz revelaria uma tristeza ainda maior. Antes mesmo que o sol mostrasse sua
face sobre o vale oriental, a jovem viúva juntamente com seus pais caminharam
apressados pelos campos rumo às pastagens onde o rebanho pastava naqueles dias.
Com o coração ainda a palpitar esperança, avistaram ao longe o rebanho.
Chamaram ali por Abel, mas suas vozes não trouxeram nenhuma resposta além de um
eco vazio. Seus olhos discerniram então através das lágrimas, as marcas da dor,
naquele gramado amassado e coberto de sangue. Vencidos pela tristeza, seguiram
dolorosamente as manchas de sangue, até encontrarem o seu corpo dilacerado, sob
aquele capim coberto de moscas. Diante desta cena de terrível humilhação,
ergueram as vozes em gritos de pavor, não suportando a dor da separação. Ali
permaneceram em agonia, até verem o sol tombar em seu mais melancólico
entardecer. Quão dolorosa lhes era o pensamento de terem de regressar para
casa, deixando ali o amado Abel a desfazer-se em sua fria noite. Lembrando de
sua infância, quando em seu leito o cobriam com amor, prometendo despertá-lo no
alvorecer com um beijo, aqueles pais com um doloroso esforço o cobriram
novamente com aquele capim, com a certeza de que no alvorecer do dia eterno o
beijariam em seu em seu despertar feliz. Com dificuldade deixaram finalmente
aquele lugar já tomado pela noite e apalparam-se na direção daquelas casas
vazias, cujas paredes floridas já não traria para eles alegria. Vencida pelo
horror da dura revelação, a esposa de Caim prostrara em desmaio, vindo a
despertar pouco depois da partida do Eterno. Ali em meio às trevas, lembrou-se
da terrível revelação de Deus, e ficou possuída por grande medo. Temia não
somente as trevas, mas principalmente a Caim. Pensou em gritar por socorro; mas
quem a salvaria?! Dominada por esses sentimentos, ficou atenta, esperando pelo
amanhecer que revelou ao seu lado o corpo adormecido de alguém que não se
parecia com Caim. Assustada, temendo despertá-lo, afastou-se alguns passos
recostando-se num tronco de árvore, onde permaneceu até vê-lo levantar a face
lisa , chamando por ela. Reconhecendo ser a voz de seu esposo, moveu-se em sua
direção, mas logo deteve-se dominada pelo receio. Indagando em seu coração
sobre o mistério de sua face agora lisa, disse-lhe: - Tenho medo de
aproximar-me de você! Depois de expressar o seu temor, revelou outro maior: -
Tenho também medo de fugir de você! Erguendo-se com um sorriso, Caim
perguntou-lhe: - Por quê você me teme? - Porque temo a morte, respondeu aflita.
- Eu também, até ontem era como você, tinha medo da morte, disse-lhe Caim. -
Agora não a teme mais? Indagou-lhe sua esposa. - Não a temo, respondeu Caim,
passando a mão no rosto liso. - Mas o que baniu-lhe o seu temor? Perguntou-lhe
a jovem, temendo ainda aproximar-se. - Vê minha face agora lisa? Este é o sinal
de uma promessa feita pelo Senhor. - Qual promessa? perguntou-lhe sua
companheira, aproximando-se agora sem receio. Caim falou-lhe então da benção
prometida e confirmada naquele sinal, da qual partilharia também ela, se o
seguisse em seus passos. Não encontraria segurança e vida, contudo,
ausentando-se dele. Consolada pela promessa de proteção garantida no rosto liso
de seu esposo, aquela jovem o seguiu numa longa caminhada em contorno ao Éden.
Planejavam transpô-lo, alcançando o vale oriental que estendia-se para além de
seu impenetrável prado; Ali construiriam um altar estabelecendo o seu novo lar.
Caim e sua companheira alcançaram finalmente em sua jornada um vale que,
coberto por densa floresta estendia-se ao oriente do paraíso. Ali naquele ambiente
de aparência hostil teriam temido não fosse a promessa assinalada na face de
Caim. Almejando encontrar além um lugar melhor, construíram ali um altar
provisório, onde no alvorecer do primeiro dia de uma nova semana, ofereceram ao
Senhor revelado na face do Sol, flores e frutos - símbolos de fecundidade. Sob
a luz do alvorecer uniram-se novamente naquele ato comemorativo da vitória que
julgavam haver encontrado. Depois de unir-se à sua mulher, Caim ergueu-se ante
o altar dedicando ao Senhor representado pelo sol, o seu lar. Pediu que os
tornassem fecundos para darem a muitos filhos o direito de contemplar-lhe a
face de brilho. Caim concluiu sua prece de consagração, com uma promessa
confirmada por um sinal, dizendo: - Se atentares para a nossa súplica, trazendo
em teu brilho fecundidade, construiremos por onde andarmos altares em honra a
ti, onde o adoraremos com ofertas de gratidão. Como sinal de nossa fidelidade,
consagraremos para o teu culto, este dia que nos unes sob tua luz, o qual
chamaremos pelo teu nome: O DIA DO SOL.