O PASTOR
Por Roque Frangiotti
Fonte: Coleção Patrística Vol I,
Padres Apostólicos. Ed. Paulus
Esta obra foi escrita em meados
do segundo século por Hermas.
No Cânon de Muratori1 se lê:
"E muito recentemente, em nossa época na cidade de Roma, Hermas escreveu o
Pastor, quando seu irmão Pio, o bispo, ocupava a cátedra de Roma". Ora, o
governo do papa Pio data de 142 a 155 mais ou menos. O Pastor teria sido
escrito por esta data, por volta de 150, e o Cânon de Muratori por volta do ano
200. Na Visão II,4:3, a mulher idosa que aparece a Hermas (alegoria da Igreja)
pede que ele entregue "uma cópia do livro a Clemente e outra a Grapta.
Clemente o enviará a outras cidades: é sua missão". Trata-se de Clemente
de Roma? Seria um artifício literário, pré-datando a obra para colocá-la sob o
patrocínio do grande bispo de Roma, garantido-lhe, assim, autoridade e
importância? Ou o texto das quatro primeiras visões seria obra da juventude de
Hermas, datando, portanto, do tempo de Clemente, isto é, por volta de 96? Ou,
de fato, só começa na quinta Visão, datando esse novo texto do tempo do Papa
Pio? A antiga versão latina intitula a quinta Visão: Visio quinta, initium
Pastoris (Visão quinta, início do Pastor). Mas, até o momento, predomina, entre
os estudiosos, a opinião que se considera o Pastor obra surgida por volta do
ano 150 d.C
Foi um dos escritos mais
considerados da antiguidade cristã. Estranha enquanto vazada do gênero
apocalíptico, cuja essência decorre dos diálogos obtidos através de visões de
seres celestes.
Esta obra foi, por muito tempo,
tida como inspirada, inclusive alguns a colocavam no Cânon do NT. As frequentes
referências que se encontram dela em várias obras do período patrístico,
demonstram a alta estima em que era tida.
Eusébio de Cesaréia afirma que Ireneu
não só conheceu esta obra, mas que a tinha como Escritura inspirada, apontando
para Contra as Heresias 4:20,2 de Ireneu.
Clemente de Alexandria retoma em
sua obra Stromates 1:29; 2:10, a passagem da parábola 9:16. Orígenes supera
Clemente em apreço e estima pelo Pastor, cujas citações se multiplicam por
várias de suas obras.
Orígenes era um dos defensores da
inspiração divina desta obra: "[...]escritura que a mim se parece muito
útil e, ao que creio, divinamente inspirada[...]" (In Rom 10:31). Porém,
Orígenes também reconhece que muitos não compartilhavam de seu pensamento:
"Se se nos permite, para suavisar este ponto, , alegar o testemunho da
Escritura que corre na Igreja, porém não é por todos unanimente reconhecida por
divina [...]" (Comment.
in Mat 14:21).
A obra era muito usada no
cristianismo primitivo para instruir aqueles que acabavam de entrar na Igreja e
queriam ser instruídos na piedade, como podemos comprovar no início do século
IV no testemunho de Eusébio "que este livro é contestado por alguns que
não o põem entre os livros recebidos unanimente, mas que outros julgam muito
necessário, sobretudo, para os que necessitam de uma instrução elementar. Por
isso sabemos que se lê publicamente nas Igrejas e constatei que alguns dos mais
antigos escritores se serviram dele". (HE, III,3:6)
São Jerônimo, em seu De vir. ill.
10 escreve que: "Hermas, de quem faz menção, o apóstolo Paulo escreveu aos
romanos [...], assegura que é autor do livro intitulado o Pastor, e que se lê
publicamente em algumas igrejas da Grécia. Na realidade, é livro útil, e dele
testemunham muitos escritores antigos, porém, entre os latinos é quase
desconhecido".
Após larga difusão,
especialmente, no Oriente, nas Igrejas gregas, inspirado para uns, apenas útil
todos e até mesmo recusado por outros, o Pastor foi, definitivamente, colocado
entre os apócrifos após o Concílio Ecumênico de Hipona em 393, onde a Igreja
definiu o catálogo bíblico.
Conteúdo da Obra
Trata-se de uma obra longa, com
114 capítulos dispostos em 3 partes:
5 visões - capítulos 1 ao 25
12 mandamentos - capítulos 26 ao
49
10 Parábolas - capítulos 50 ao
114
A preocupação central de Hermas
não é doutrinário-dogmática, mas moral. Seu argumento principal é a necessidade
de penitência indo ao encontro da misericórida divina.
Confiante na misericórdia de
Deus, Hermas crê numa nova possibilidade de perdão além do batismo. É esta,
propriamente, a grande mensagem da obra. Dessa maneira, ele se posiciona contra
os rigoristas, corrente que se firmava em Roma, sustentando que não havia outra
penitência além daquela do batismo.
O leitor notará que o conceito de
penitência, isto é, meios de santificação do homem, corresponde aos Sacramentos
da Igreja.
O batismo é a primeira grande
penitência que apaga os pecados. Antes de ser batizado, o homem está morto. A
Parábola 9:16 elenca todos os efeitos do batismo. Só após receber o selo
batismal, o homem leva o nome do Filho de Deus.
No setor das ações, Hermas chama
a atenção para o grande valor do jejum, do celibato e do martírio.
A Eclesiologia em Hermas, domina
a idéia de que a Igreja é uma instituição necessária para a salvação. A Igreja
é a primeira de todas as coisas criadas (Visão 2,8:1), realidade que preexiste
ao mundo criado. Por isso ela lhe aparece sob a forma de uma mulher idosa. Mas
a figura mais significativa sob a qual a Igreja se apresenta a Hermas, é na
alegoria de uma torre (Visão 3,3-5). Este símbolo representa a Igreja dos
vencedores, a Igreja Triunfante. Este edifício feito de pedras, tem o Filho de
Deus como rocha, e como fundamento os patriarcas e profetas do AT, depois os
apóstolos, os bispos, doutores e os servidores humildes.
Quanto a Cristo, Hermas não
emprega nenhuma vez, ao longo de sua obra, os termos Jesus Cristo, ou Logos.
Chama-o de Salvador, Filho de Deus e Senhor.
A Cristologia de Hermas suscitou
dificuldades, pois segundo sua obra, há duas pessoas em Deus: Deus Pai e
Deus-Espírito-Filho. Para Hermas o Filho de Deus é o Espírito Santo encarnado
(Parábola 5,6:5-7; 9:1).
O Pastor de Hermas - Visões
Por Hermas
Tradução: Ivo Storniolo, Euclides
M. Balancin
Fonte: Coleção Patrística Vol I,
Padres Apostólicos. Ed. Paulus
V I S Õ E S
PRIMEIRA VISÃO
CAPÍTULO I
1 Meu senhor me havia levado a
Roma para me vender a uma certa Rosa. Vários anos depois, a revi e comecei a
amá-la como irmã. 2Algum tempo depois, eu a vi tomando banho no Tibre, lhe
estendi a mão e ajudei a sair do rio. Olhando sua beleza, pensava comigo mesmo:
Eu seria muito feliz se tivesse mulher com essa beleza e caráter. Era a única coisa
que eu pensava, sem ir além disso.
3Passado algum tempo,
dirigindo-me para Cumas, refletia como são grandes, marcantes e poderosas as
obras de Deus. Durante a viagem dormi. Então o espírito me arrebatou e me
conduziu através de um caminho impraticável, por onde ninguém podia andar. O
lugar era escarpado, todo cortado por águas. Atravessei o rio que aí havia e,
chegando à planície, me ajoelhei e comecei a rezar a Deus, confessando-lhe meus
pecados.
4Durante minha oração, o céu se
abriu e vi aquela mulher que havia desejado. Do céu, ela me saudou: Bom dia,
Hermas . 5Olhei para ela e falei: Senhora, que fazes aí? Ela me respondeu: Fui
transportada para denunciar ao Senhor os teus pecados . 6Eu disse: Então, agora
és a minha acusadora? Ela respondeu: Não! Ouve as palavras que te vou dizer:
Deus, que habita nos céus, que do nada criou os seres, que os multiplicou e os
fez crescer em vista da sua santa Igreja, está irritado contigo, porque
cometeste falta contra mim . 7Então eu lhe respondi nestes termos: Cometi falta
contra ti? Em que lugar e quando, alguma vez te dirigi palavra desonrosa? Por
acaso, não te considerei sempre como deusa? Por acaso, não te tratei sempre
como irmã? Mulher, por que me acusas falsamente de maldade e impureza?
8Sorrindo, ela me disse: O desejo da maldade entrou no teu coração. Não te
parece que, para um homem justo, é prejudicial ter no coração o desejo da
maldade? É falta, e grande, porque o homem justo tem pensamentos justos. E
mediante esses pensamentos justos que ele aumenta sua glória nos céus e faz que
o Senhor lhe seja indulgente para com todos os seus atos. Aqueles, porém, que
são maus no coração, só atraem para si morte, e prisão, sobretudo aqueles que
passam esta vida se vangloriando de suas riquezas e não se interessam pelos
bens futuros. As almas deles se arrependerão, daqueles que, não tendo
esperança, se desesperaram de si mesmos e da própria vida. Quanto a ti, reza a
Deus. Ele curará teus pecados e os pecados de toda a tua família e de todos os
santos.
CAPÍTULO 2
1Quando ela terminou de dizer
essas palavras, os céus se fecharam e eu fiquei tremendo e triste. Dizia a mim
mesmo: Se o pecado está escrito contra mim, como poderei alcançar a salvação?
Como aplacarei a Deus pelos meus pecados realmente cometidos? Com que palavras
pedirei ao Senhor que me seja favorável? 2Essas eram minhas reflexões e
hesitações, quando vi diante de mim uma poltrona forrada de lã branca como a
neve, e grande. Então surgiu uma senhora idosa, com vestes resplandecentes, e
um livro nas mãos. Ela sentou-se e me saudou: Bom dia, Hermas. Triste, respondi
chorando; Bom dia, senhora. 3Ela então me disse: Por que essa de tristeza,
Hermas? Tu, que és paciente, calmo e sempre sorridente, por que estás abatido
dessa maneira e sem alegria? Eu respondi: É porque uma excelente mulher diz que
cometi contra ela uma falta. 4Então ela continuou: Para um servo de Deus não se
trata do ato em si mesmo. Mas certamente o desejo a respeito dela entrou no teu
coração. Para os servos de Deus, intenção desse tipo conduz ao pecado. Para o
espírito muito santo e já provado, intenção má, desejar má ação é de se
espantar, sobretudo tratando-se do casto Hermas, que se abstém de todo mau
desejo, que é pleno de perfeita simplicidade e grande inocência.
CAPÍTULO 3
1Entretanto, não é por isso que
Deus está irritado contigo, mas porque teus filhos agem mal diante do Senhor e
de vós, seus pais, que os mantendes. De fato, amas teus filhos e não os
corriges. Ao contrário, deixas que eles se corrompam terrivelmente. É por isso
que o Senhor está irritado contigo. Mas ele vai curar todos os males que
atingiram tua família, pois é por causa dos pecados e faltas deles que estás
arruinado em teus negócios temporais. 2A grande misericórdia do Senhor teve
compaixão de ti e de tua família; ele te fortalecerá e te estabelecerá na sua
glória. Quanto a ti, apenas não desanimes: tem coragem e fortalece a tua
família. O ferreiro, com o martelo, consegue o objeto que ele quer; da mesma
forma, a palavra justa de cada dia consegue superar qualquer iniqüidade.
Portanto, não cesses de corrigir teus filhos. Eu sei que, se eles fizerem
penitência do fundo do coração, serão inscritos nos livros da vida com os
santos.
3Quando terminou de falar, ela
ainda me perguntou: Queres ouvir a leitura? Respondi: Quero sim, senhora. Ela
continuou: Presta atenção e escuta os louvores de Deus. Eu ouvi coisas sublimes
e admiráveis, que não consegui guardar. Todas essas palavras causam arrepios e
o homem não é capaz de alcançar. Entretanto, lembro-me das últimas palavras,
pois eram do nosso alcance e doces: 4 Vê! O Deus das Potestades, aquele que com
seu poder invisível e superior e grande inteligência criou o mundo; que por sua
gloriosa vontade revestiu de graças as suas criaturas; que por sua palavra
poderosa fixou o céu e assentou a terra sobre as águas; que por sua sabedoria e
previdência criou a santa Igreja e também a abençoou; esse mesmo Deus desloca
os céus e as montanhas, as colinas e os mares, que se tornam uma coisa única
para os eleitos dele. Assim, ele cumpre na sua glória e a alegria, a promessa
que fez para eles, se ao menos observarem os mandamentos do Senhor, que
receberam com grande fé.
CAPÍTULO 4
1Quando ela terminou de ler e se
levantou da poltrona, chegaram quatro jovens que, levando a poltrona, foram
embora, em direção ao Oriente. 2Então ela me chamou, tocou no meu peito e
disse: Gostou da minha leitura? Respondi: Senhora, as últimas palavras me
agradam, mas as anteriores são penosas e duras. 3Ela ainda falava comigo,
quando apareceram dois homens, a tomaram pelos braços e se foram, na mesma
direção da poltrona, para o lado do Oriente. Quando estava para partir, o ar
dela era alegre e, ao se retirar, me disse: Sê homem, Hermas.
SEGUNDA VISÃO
CAPÍTULO 5
1Eu me dirigia para Cumas, na
mesma época do ano anterior. Enquanto caminhava, lembrei-me da visão que tivera
no ano anterior, e novamente um espírito me arrebatou e me transportou para o
mesmo lugar do ano precedente. 2Chegando aí, ajoelhei, comecei a rezar ao
Senhor e a glorificar o seu nome, por me ter considerado digno e meter dado a
conhecer os meus pecados passados. 3Ao me levantar da oração, vi diante de mim
a senhora idosa que eu vira no ano anterior. Ela caminhava e lia um pequeno
livro. Então me disse: Podes anunciar isto aos eleitos de Deus? Eu lhe respondi:
Senhora, não consigo guardar na memória tantas coisas. Dá-me o livrinho, para
que eu faça uma cópia. Ela disse: Toma e depois me devolve. 4Eu o tomei e,
afastando-me para um lugar do campo, copiei tudo, letra por letra, porque não
conseguia reconhecer as sílabas. Quando terminei de copiar as letras do
livrinho, repentinamente me foi tirado da mão, sem eu ver quem o tomou.
CAPÍTULO 6
1Depois de quinze dias de jejum e
muitas orações ao Senhor, foi-me revelado o sentido do texto. Estava escrito o
seguinte: 2 Hermas, teus filhos se revoltaram contra Deus, blasfemaram o
Senhor, traíram seus pais com muita maldade e tiveram de ouvir o nome de
traidores de seus pais. Sua traição de nada lhes aproveitou e ainda continuaram
acrescentando aos seus pecados a impureza e as contaminações da maldade e,
desse modo, suas iniqüidades chegaram ao máximo. 3Transmite essas palavras a
todos os teus filhos e à tua esposa, que doravante deve ser como tua irmã. Ela
não domina a língua com a qual pratica o mal, porém, ouvindo essas palavras ela
a dominará e alcançará misericórdia. 4Depois que tiveres dado a conhecer essas
palavras que o Senhor me ordenou revelar-te, todos os pecados passados serão
perdoados a eles, bem como a todos os santos que pecaram até hoje, se fizerem
penitência de todo o coração e se afastarem de seus corações as dúvidas. 5O
Senhor jurou por sua glória e respeito de seus eleitos: se depois deste dia,
fixado como limite, ainda se cometer um só pecado, eles não obterão a salvação,
pois a penitência para os justos tem limite. Terminaram os dias de penitência
para todos os santos. Contudo para os pagãos, a penitência pode ser feita até o
último dia. 6 Dize, portanto, aos chefes da Igreja que endireitem seus caminhos
na justiça, a fim de receberem plenamente, com grande glória, o que lhes foi
prometido. 7Perseverai portanto, vós que praticais a justiça, e não duvideis,
para que o vosso caminho esteja com os santos anjos. Felizes sois vós que
suportais a grande tribulação que se aproxima, e todos os que não renegarem a
sua própria vida. 8Porque o Senhor jurou por seu Filho: aqueles que renegarem o
seu Senhor, perderão sua própria vida, como também aqueles que estão dispostos
a renegá-lo nos dias futuros. Quanto àqueles que o renegaram antes, o Senhor,
em sua grande misericórdia, tornou-se propício para eles.
CAPÍTULO 7
1Quanto a ti, Hermas, não tenhas
rancor contra teus filhos, nem abandones tua irmã. E assim, eles serão
purificados dos pecados que cometeram. Se tu não lhes guardares rancor, eles
receberão educação correta. O rancor provoca a morte. Quanto a ti, Hermas,
sofreste grandes tribulações pessoais por causa das faltas de tua família,
porque não cuidavas dela. Tu a negligenciaste, envolvendo-se ela em teus maus
negócios. 2O que te salva, porém, é não teres abandonado o Deus vivo, assim
como a tua simplicidade e a tua grande continência. Isso te salva, contanto que
perseveres, e salva também todos aqueles que agem assim e andam no caminho da
inocência e da simplicidade. Esses dominarão todo o mal e permanecerão firmes
até a vida eterna. 3Felizes todos aqueles que praticam a justiça; jamais
perecerão. 'Dize a Máximo: Eis que chega a tribulação. Se te parece bem, renega
de novo. O Senhor está próximo daqueles que fazem penitência, como está escrito
no livro de Eldad e Medat, que profetizaram para o povo no deserto.'
CAPÍTULO 8
1Irmãos, quando eu dormia, tive
uma revelação. Foi-me feita por um jovem encantador, que me disse: Quem achas
que é a mulher idosa de quem recebeste o livrinho? Eu respondi: A Sibila. Ele
disse: Estás enganado. Não é ela. Eu lhe perguntei: Quem é então? Ele me
respondeu: É a Igreja. Eu lhe perguntei: Então, por que era tão idosa? Ele
respondeu: Porque foi criada antes de todas as coisas. Por isso, ela é idosa.
Foi por meio dela que o mundo foi ordenado. 2Depois disso, tive uma visão em
minha casa. A mulher idosa apareceu e me perguntou se eu já havia entregue o
livrinho aos presbíteros. Eu respondi que não. Ela continuou: Fizeste bem,
porque tenho algumas palavras para acrescentar. Quando eu tiver terminado tudo
o que tenho a dizer, tu o darás a conhecer a todos os eleitos. 3Farás duas
cópias do livrinho e as mandarás, uma a Clemente e outra a Grapta. Clemente,
por sua vez, mandará a cópia às outras cidades, porque essa missão é dele. Grapta
exortará as viúvas e os órfãos. Tu o lerás para esta cidade, na presença dos
presbíteros que dirigem a Igreja.
TERCEIRA VISÃO
CAPÍTULO 9
1Irmãos, esta é a terceira visão
que eu tive. 2Eu tinha jejuado freqüentemente e pedido ao Senhor que me concedesse
a revelação que ele tinha prometido fazer-me por meio da mulher idosa. Nessa
mesma noite, ela me apareceu e disse: Já que tens tanto desejo de conhecer
tudo, vai ao campo onde cultivas a espelta, e pela quinta hora eu aparecerei a
ti e te mostrarei o que precisas ver. 3Eu lhe perguntei: Senhora, em que lugar
do campo? Ela respondeu: Onde quiseres. Escolhi um lugar belo e afastado.
Contudo, antes que eu lhe falasse e dissesse o lugar, ela me disse: Irei aonde
quiseres. 4Irmãos, eu caminhava, então, pelo campo, cantando as Horas. Cheguei
ao lugar onde lhe havia dito que iria e vi um banco de marfim e em cima dele
uma almofada de linho e, estendido sobre ela um véu de linho finíssimo. 5Ao ver
esses objetos, sem que houvesse ninguém no lugar, fiquei espantado. Fui tomado
de tremor e meus cabelos ficaram em pé. Ao verme sozinho ali, tive calafrios.
Contudo, caí em mim, lembrei-me da glória de Deus e recobrei a coragem.
Ajoelhei-me e confessei novamente ao Senhor os meus pecados, como já fizera
antes. 6Então ela apareceu com seis jovens que eu já vira antes, aproximou-se
de mim, ouviu-me rezando e confessando meus pecados ao Senhor. Ela me tocou e
disse: Hermas, pára de suplicar somente por teus pecados. Suplica também pela
justiça, a fim de obter um tanto dela para a tua família. 7Então ela me
levantou pela mão, levou-me até junto ao banco e disse aos jovens: Ide
construir. 8Então os jovens se retiraram, deixando-nos sozinhos. Ela me disse:
Senta aqui. Eu lhe respondi: Senhora, deixa que os presbíteros sentem primeiro.
Ela replicou: Faze o que te digo: senta. 9Quis então sentar-me à direita; ela
porém não me permitiu, e me faz sinal com a mão para sentar à esquerda. Eu
estava pensativo e triste, porque ela não me permitira sentar à direita. Então
ela me disse: "Estás triste, Hermas?" O lugar da direita está
reservado para outros, para os que já agradaram ao Senhor e sofreram por causa
do Nome. Ainda te falta muito para poderes sentar-te com eles. Contudo,
persevera na tua simplicidade, como fizeste até agora e sentarás ao lado deles
e também com todos aqueles que farão o que eles fizeram e sofrerão o que eles
sofreram.
CAPÍTULO 10
lEu lhe perguntei. O que é que
sofreram? Ela me respondeu: Ouve: açoites, prisões, grandes tribulações,
cruzes, feras, tudo por causa do Nome. E por isso que está reservado para eles
o lado direito do santuário, a eles e a todo aquele que sofre por causa do
Nome. Os outros ficam do lado esquerdo. Mas uns e outros, os que estiverem
sentados à direita e os que estiverem à esquerda, gozam dos mesmos dons e das
mesmas promessas. Os que estão sentados à direita, porém, têm glória
particular. 2Tu desejas sentar à direita com eles, mas teus defeitos são
numerosos. Deverás ser purificado de teus defeitos, e todos aqueles que não
tiverem duvidado serão purificados de todos os seus pecados cometidos até hoje.
3Depois de dizer isso, ela fez menção de ir embora. Lancei-me a seus pés,
suplicando-lhe, pelo Senhor, que me concedesse a visão que ela me prometera.
4Ela, tomou de novo a minha mão, levantou-me e me fez sentar no banco à
esquerda. Ela também sentou, à direita. Depois, levantou um bastão brilhante, e
me disse: Estás vendo uma coisa grande? Eu lhe respondi: Senhora, não estou
vendo nada . Ela continuou: Não estás vendo diante de ti uma grande torre que
está sendo construída sobre as águas, com pedras quadradas e brilhantes? 5Com
efeito, ela estava sendo construída em forma quadrada pelos seis jovens que
tinham vindo com ela. Outros milhares e milhares de homens carregavam as
pedras, uns do fundo da água, outros da terra, e as entregavam aos seis jovens,
que as recebiam e construíam. 6Eles colocavam as pedras tiradas do fundo da
água pois já eram lavradas e se ajustavam imediatamente na construção
perfeitamente às outras pedras; ajustavam-se tão bem umas com as outras, que
não se via nenhuma juntura, e a torre parecia construída como um só bloco. 7Das
pedras trazidas da terra, umas eram rejeitadas e outras utilizadas; outras
ainda eram quebradas e jogadas longe da torre. 8Muitas outras pedras estavam no
chão, ao redor do edifício. Não as utilizavam na construção, porque algumas
estavam carcomidas, outras rachadas, outras mutiladas; outras ainda eram
brancas e redondas e não se encaixavam na construção. 9Eu via também outras
pedras jogadas longe da torre, caindo no caminho e, sem parar, rolando para
lugares inacessíveis; outras caíam no fogo e queimavam, e outras ainda caíam
perto da água mas não conseguiam rolar para dentro da água, embora desejassem
rolar e entrar na água.
CAPÍTULO 11
1Depois de me ter mostrado tudo
isso, ela quis ir embora. Eu lhe disse: Senhora, que me serve ver essas coisas,
se não sei o que significam? Ela me respondeu: Es curioso para conhecer o que
se refere à torre! Eu lhe disse: Sim, senhora, quero conhecer para anunciar aos
irmãos e alegrá-los, para que, ouvindo isso, conheçam a Deus em toda a sua
glória.2Ela então me disse: Muitos ouvirão. Contudo, depois de ouvirem, uns se
alegrarão e outros chorarão. Todavia, também estes últimos, se ouvirem e
fizerem penitência, se alegrarão. Ouve, portanto, as parábolas da torre, pois
eu vou te revelar tudo. Não me incomodes mais, pedindo-me revelação, pois essas
revelações podem acabar. Tu, porém, não pararás de pedir revelações, pois és
insaciável. 3A torre que viste em construção, sou eu mesma, a Igreja, que viste
agora e antes. Pergunta o que desejas a respeito da torre: eu te revelarei,
para que te alegres com os santos. 4Eu lhe pedi: Senhora, agora que me julgaste
digno de todas as revelações, revela-me. Ela me disse: O que convém te revelar,
será revelado. Basta que teu coração esteja voltado para Deus e não duvides de
nada do que vires. 5Eu lhe perguntei: Senhora, por que a torre está construída
sobre as águas? Ela respondeu: Já te disse que és curioso a respeito das
Escrituras e pesquisas com cuidado. Pesquisando, encontras a verdade. Ouve
porque a torre foi construída sobre as águas: é porque vossa vida foi salva
pela água e ainda o será. A torre foi construída pela palavra do Nome
todo-poderoso e glorioso, e é sustentada pela força invisível do Senhor.
CAPÍTULO 12
lEntão continuei: Senhora, que
coisa grande e admirável! Senhora, quem são os seis jovens que constroem? (Ela
respondeu:) São os santos anjos de Deus, criados em primeiro lugar. O Senhor
confiou-lhes toda a sua criação, para desenvolvê-la, construí-la e governá-la.
É por meio deles que a construção da torre será terminada. 2(Perguntei:) E quem
são os que carregam as pedras? (Ela respondeu): Também eles são anjos de Deus,
mas os seis primeiros são superiores a eles. Quando a construção da torre
estiver terminada, eles se alegrarão todos juntos ao redor dela, e glorificarão
o Ser, por ela ter sido terminada. 3Eu lhe perguntei: Senhora, eu gostaria de
conhecer o destino das pedras e qual o significado de cada uma delas . Ela me
respondeu: Tu não és mais digno que os outros para que isso te seja revelado.
Outros estão antes de ti e são melhores. É a eles que essas visões deveriam ser
reveladas. Contudo, para que o nome do Senhor seja glorificado, tu recebeste e
receberás ainda essas revelações, por causa dos que vacilam, dos que ficam se
perguntando se tudo isso é real. Dize-lhes que tudo isso é ou não é verdadeiro
e que nada disso está fora da verdade. Tudo é firme, sólido e bem alicerçado.
CAPÍTULO 13
1Ouve agora o que se refere às
pedras que entram na construção. As pedras quadradas e brancas, que se ajustam
bem entre si, são os apóstolos, os bispos, os doutores e os diáconos. Todos
esses, caminhando segundo a santidade de Deus, desempenharam com pureza a
santidade seu ministério de bispos, doutores e diáconos a serviço dos eleitos
de Deus. Uns já morreram e outros ainda vivem. Estes são os que estiveram
sempre de mútuo acordo, conservaram a paz entre si e se ouviram reciprocamente.
É por isso que na construção da torre suas junturas se ajustavam bem. 2(Eu
perguntei:) E quem são as pedras tiradas do fundo da água, que se colocam na
construção e pelas suas junturas se ajustam bem às outras já colocadas? (Ela
respondeu): São os que sofreram por causa do nome de Deus. 3(Eu continuei:)
Senhora, quero saber também quem são as outras pedras tiradas da terra. Ela
respondeu: As que entram na construção sem ser talhadas são os que o Senhor
aprovou, porque andaram no caminho reto do Senhor e respeitaram perfeitamente
seus mandamentos. 4(Continuei:) E quem são aquelas que eram levadas e postas na
construção? (Ela respondeu): São os novatos na fé, porém fiéis. Os anjos os
exortam a praticar o bem, e não se encontrou neles nenhum mal. 5(Perguntei
ainda): E quem são aquelas que eram rejeitadas e jogadas fora? (Ela respondeu:)
São aqueles que pecaram e que desejam fazer penitência. Por isso não foram
jogados muito longe da torre. Se fizerem penitência, serão úteis para a
construção. Aqueles que têm intenção de fazer penitência, caso façam
penitência, ficarão firmes na fé, contanto que façam penitência agora, enquanto
a torre ainda está em construção. Quando ela estiver terminada, não haverá mais
lugar para eles: serão rejeitados, e só poderão permanecer perto da torre.
CAPÍTULO 14
1Queres conhecer as pedras que
são cortadas e jogadas para bem longe da torre? São os filhos da iniqüidade:
têm fé hipócrita e nenhuma forma de maldade se afastou deles. É por isso que
não alcançam a salvação. São inúteis para a construção, por causa de suas maldades.
Foram, portanto, feitos em pedaços e jogados para longe pela ira do Senhor,
pois eles o irritaram. 2Entre as outras que viste jogadas em grande número pelo
chão, e que não entravam na construção, as carcomidas são aqueles que
conheceram a verdade, mas não perseveraram nela, nem aderiram aos santos. Por
isso, são inúteis. 3(Perguntei:) E quem são as pedras com rachaduras? (Ela
respondeu:) São aqueles que nutrem rancor mútuo no coração, e não conservam a
paz entre si. Assumem aparência de paz, mas, quando se separam, suas maldades
persistem em seus corações: são essas as rachaduras dessas pedras. 4As pedras
mutiladas são aqueles que têm fé e, no essencial, permanecem ligados à justiça,
mas neles subsistem restos de iniqüidade. É por isso que elas estão mutiladas e
não inteiras. 5(Eu perguntei:) Senhora e quem são as pedras brancas e redondas,
que não se adaptam à construção? Ela me respondeu: Até quando serás ignorante e
sem bom senso? Perguntarás tudo sem nada compreenderes por ti mesmo? São
aqueles que têm fé, mas também conservam as riquezas deste mundo. Quando chega
a tribulação, por causa de suas riquezas e negócios, eles renegam seu Senhor.
6Eu então lhe replico: Senhora, quando é que eles serão úteis para a
construção? Ela me diz: Quando for aparada a riqueza que os domina, então serão
úteis para Deus. A pedra redonda não pode se tornar quadrada se não for cortada
e não perder algo de si. Do mesmo modo, os ricos deste mundo não poderão ser
úteis ao Senhor, se suas riquezas não forem aparadas. 7Aprende contigo mesmo:
enquanto eras rico, eras inútil; agora, porém, és útil e frutuoso para a vida.
Tornai-vos úteis para Deus! Tu mesmo foste uma dessas pedras.
CAPÍTULO 15
1As outras pedras que viste
jogadas longe da torre, caindo no caminho e rolando daí para lugares
inacessíveis, são aqueles que tiveram a fé, mas que, devido às suas dúvidas,
abandonam o seu verdadeiro caminho. Eles acham que podem encontrar caminho
melhor, se extraviam e se enveredam lamentavelmente, andando por lugares
inacessíveis. 2As que caem no fogo e queimam são aqueles que se afastaram para
sempre do Deus vivo, e não lhes acudiu à inteligência a idéia de fazerem
penitência das paixões e das obras perversas que praticam. 3Queres saber quem
são aquelas que caem junto da água, mas não conseguem rolar para dentro dela?
São aqueles que ouviram a palavra de Deus e querem ser batizados em nome do
Senhor. Contudo, quando tomam consciência da pureza que a verdade exige, mudam
de opinião e voltam novamente para seus desejos perversos. 4E assim ela
terminou a explicação da torre. 5Sem escrúpulos, eu lhe perguntei se todas
essas pedras rejeitadas e impróprias para a construção podiam fazer penitência
e encontrar lugar na torre. Ela me respondeu: Elas podem fazer penitência, mas
não podem se encaixar nessa torre. 6Elas se encaixarão em outro lugar muito
menor e só depois que tiverem passado pelas provações da penitência e cumprido
os dias necessários para expiar os seus pecados. São transportadas para outro
lugar, porque participaram da palavra de justiça. Se refletirem sobre as obras
perversas que cometeram, serão transportados das provações; se não refletirem,
não serão salvos, e isso devido à dureza de seus corações.
CAPÍTULO 16
1Quando terminei de a interrogar
sobre todas essas coisas, ela me disse: Queres ver mais alguma coisa? Eu estava
muito desejoso de ver, e fiquei deveras contente. 2Ela me olhou sorridente e
perguntou: Vês sete mulheres ao redor da construção? Eu respondi: Sim, senhora.
(Ela continuou) A torre é sustentada por elas, por ordem do Senhor. 3Ouve agora
as funções que elas desempenham. A primeira, de mãos fortes, se chama Fé. É por
meio dela que os eleitos do Senhor são salvos. 4A segunda, que tem cinto e
aspecto viril, chama-se Continência, e é filha da Fé. Todo aquele que e segue é
feliz durante a vida, porque se abstém de toda má ação, crendo que, por se
abster de todo desejo perverso, herdará a vida eterna. 5(Eu então perguntei:)
Senhora, e quem são as outras? (Ela continuou) Elas são filhas uma da outra e
se chamam Simplicidade, Ciência, Inocência, Santidade e Caridade. Portanto, se
realizares todas as obras da mãe delas, viverás. 6Perguntei: Senhora, eu
desejaria saber qual é o poder de cada uma delas. Ela respondeu: Ouve quais são
os poderes delas. 7Elas estão subordinadas umas às outras e seguem-se
mutuamente, conforme são geradas. Da Fé nasce a Continência; da Continência, a
Simplicidade; da Simplicidade, a Inocência; da Inocência, a Santidade; da
Santidade, a Ciência; da Ciência, a Caridade. Suas obras são puras, santas e
divinas. 8Quem quer que se torne seu servidor e tenha força para perseverar em
suas obras, habitará na torre, junto com os santos de Deus. 9Perguntei-lhe
ainda sobre os tempos, para saber se já havia chegado o fim. Ela, então, gritou
em voz alta: Insensato, não vês que a torre ainda está em construção? Quando
estiver terminada, então chegará o fim. E ela será terminada logo. Não me
perguntes mais nada. Basta a ti e aos santos lembrar-vos disso e renovar vossos
espíritos. 10Mas não é somente para ti que tudo isso foi revelado: deves
torná-lo conhecido de todos, em três dias. 11Em primeiro lugar, és tu que deves
refletir. Hermas, eu te ordeno repetir literalmente aos santos todas as
palavras que te vou dizer, para que, depois de tê-las ouvido e observado, eles
sejam purificados de seus pecados, e tu com eles.
CAPÍTULO 17
1Filhos, escutai-me. Eu vos criei
com toda a simplicidade, inocência e santidade, pela misericórdia do Senhor, o
qual, gota a gota, fez cair sobre vós a justiça, para vos justificar e vos santificar
de toda maldade e perversidade. Vós, porém, não quereis corrigir-vos de vossa
maldade. 2Agora, portanto, escutai-me. Vivei em paz uns com os outros, cuidai
uns dos outros e socorrei-vos mutuamente. Não vos aposseis, somente para vós,
dos bens que Deus criou em abundância, mas reparti também com os necessitados.
3Alguns, de fato, pelo excesso no comer, acabam por enfraquecer o corpo e minar
a saúde. Outros, que não têm o que comer, vêem a saúde arruinada pela
insuficiência de alimentos e o corpo se arruína. 4Essa intemperança é danosa
para vós, para vós que possuís e não repartis com os necessitados. 5Vede o
julgamento que está para vir. Vós que tendes muito, procurai os que têm fome,
enquanto a torre não estiver terminada, porque, depois de terminada, ainda que
quisésseis fazer o bem, não teríeis mais ocasião. 6Atenção, portanto, vós que
vos orgulhais de vossas riquezas, para que os necessitados não gemam e o gemido
deles chegue até o Senhor, e sejais excluídos, junto com vossos bens, fora da
porta da torre. 7Eu me dirijo agora aos chefes da Igreja e àqueles que ocupam
os primeiros lugares. Não vos torneis semelhantes aos envenenadores. Eles levam
seus venenos em frascos. Vós tendes vossa poção e veneno no coração. 8Estais
endurecidos, recusais purificar vossos corações para temperar, com o coração
puro, vosso pensamento na unidade, a fim de obter a misericórdia do grande Rei.
9Atenção, portanto, meus filhos, para que essas divisões não tirem a vossa
vida. 10Como pretendeis instruir os eleitos do Senhor, se vós mesmos não tendes
instrução? Instruí-vos, portanto, uns aos outros, e conservai a paz mútua, a
fim de que também eu, apresentando-me alegre diante do Pai, possa falar
favoravelmente a respeito de todos ao vosso Senhor.
CAPÍTULO 18
1Quando ela terminou de falar
comigo, chegaram os seis jovens encarregados da construção e a levaram para a
torre. Outros quatro tomaram o banco e também o levaram para a torre. Não vi o
rosto deles, pois estavam de costas. 2No momento em que ela se retirava, eu lhe
pedi que me explicasse as três formas sob as quais ela me aparecera. E ela me
respondeu: É necessário que o perguntes a outro para que o revele a ti.
3Irmãos, eu a tinha visto, na primeira visão do ano anterior, muito idosa e
sentada na poltrona. 4Na visão seguinte, ela estava com aspecto mais jovem,
porém o corpo e os cabelos eram de idosa; ela me falava de pé e estava mais
alegre do que antes. 5Por ocasião da terceira visão, ela era inteiramente jovem
e muito bela; só os cabelos eram de idosa. Estava muito alegre e sentada num
banco. 6Eu estava muito intrigado para compreender a revelação prometida sobre
essas coisas. De noite, numa visão, vi a mulher idosa, que me disse: Toda
pergunta exige humildade. Jejua, portanto, e obterás o que pedes ao Senhor. 7Jejuei
então um dia e, nessa noite, me apareceu um jovem que me disse: Por que pedes
continuamente revelações na oração? Atenção! Pedindo muito, podes prejudicar
teu corpo. 8Bastam para ti essas revelações. Es capaz de suportar revelações
mais fortes do que aquelas que já tiveste? 9Eu lhe respondi: Senhor, peço
apenas a respeito das três formas da mulher idosa, para que a revelação fique
completa. Ele me respondeu: Até quando sereis insensatos? O que vos torna
insensatos é duvidar e não voltar o vosso coração para o Senhor. 10Eu lhe
respondi novamente: É justamente por teu meio, Senhor, que conhecemos essas
coisas.
CAPÍTULO 19
1Ele me disse: Escuta o que estás
procurando sobre as formas. 2Por que na primeira vez ela te apareceu idosa e
sentada numa poltrona? Porque vosso espírito estava envelhecido, murcho e sem
força, por causa de vossa fraqueza e dúvidas. 3Os velhos, por não terem mais
esperança de rejuvenescer, não esperam outra coisa senão a morte. Da mesma
forma, enfraquecidos pelos negócios do mundo, vos tendes deixado levar pelo
abatimento e não entregastes ao Senhor as vossas preocupações. Vosso coração se
despedaçou e envelhecestes em meio às tristezas. 4(Eu disse:) Senhor, eu
desejaria saber por que ela estava sentada numa poltrona (Ele respondeu:) Porque
toda pessoa fraca, por causa da fraqueza, é obrigada a sentar para reconfortar
seu corpo débil. Esse é o sentido geral da primeira visão.
CAPÍTULO 20
1Na segunda visão, tu a viste de
pé, com aspecto mais jovem e mais alegre do que antes, mas com o corpo e os
cabelos de idosa. Escuta a seguinte comparação: 2um idoso desesperançado por
causa de sua fraqueza, e miséria, não espera mais nada, senão o último dia da
sua vida. Caso, imprevistamente, lhe seja deixada uma herança, ao saber disso,
ele levanta, alegra-se e recobra as forças. Ele não permanece deitado, mas
põe-se de pé, e seu espírito, que estava consumido por seus sofrimentos
anteriores, rejuvenesce; não fica sempre sentado, mas age virilmente.
Igualmente acontece convosco, depois de ouvir a revelação que o Senhor vos fez.
3Ele teve compaixão de vós, vosso espírito rejuvenesceu e vós deixastes a
fraqueza. A força voltou para vós e vos fortalecestes na fé. Vendo vossa força,
o Senhor se alegrou e, por isso, vos mostrou a construção da torre. Ele ainda
vos fará outras revelações, se de todo o coração estabelecerdes a paz entre
vós.
CAPÍTULO 21
1Na terceira visão, tu a viste
mais jovem, bela, alegre, de aspecto encantador. 2E como pessoa triste que
recebe boa notícia: imediatamente esquece suas tristezas anteriores. Ela só
pensa nessa notícia que ouviu, retoma forças para o bem e, pela alegria que
experimenta, seu espírito rejuvenesce. O mesmo acontece convosco: ao ver esses
bens, vosso espírito rejuvenesceu. 3Tu a viste sentada no banco, em posição
estável, pois o banco tem quatro pés e se mantém firme. O mundo também é
sustentado por quatro elementos. 4Aqueles que fizerem penitência serão
completamente rejuvenescidos e firmes, ao menos aqueles que tiverem feito
penitência de todo o coração. Tu recebeste, assim, toda a revelação. Doravante,
não peças mais nenhuma revelação. Se tiveres necessidade, a receberás.
QUARTA VISÃO
CAPÍTULO 22
lIrmãos, esta é a visão que tive
vinte dias depois da última, prefigurando a tribulação que se aproxima. 2Eu
caminhava pela Via Campana para o meu campo, situado a uns dez estádios da via
pública. O lugar é de fácil acesso. 3 Caminhando sozinho, pedi ao Senhor que
completasse as revelações e as visões que me enviou por meio de sua santa
Igreja, a fim de me fortalecer e conceder a conversão aos seus servos que
tropeçaram. Desse modo, seu nome sublime e glorioso será glorificado, pois ele
julgou-me digno de me mostrar suas maravilhas. 4Eu o glorificava e lhe dava
graças, quando um ruído de vozes me respondeu: Não duvides, Hermas. Comecei
então a refletir e disse a mim mesmo: Que razões teria eu para duvidar, eu que
sou assim sustentado pelo Senhor e que vi essas maravilhas? 5Avancei um pouco,
irmãos, e então vi uma nuvem de poeira que se levantava até o céu, e perguntei:
Será algum rebanho que se aproxima e levanta a poeira? A nuvem estava mais ou
menos a um estádio de mim. 6Mas ela aumentava cada vez mais e eu suspeitei que
fosse algo divino. Nesse momento, o sol brilhou um pouco, e então pude ver uma
fera enorme, parecida com a baleia. E da sua boca saíam gafanhotos de fogo. A
fera tinha cerca de cem pés de comprimento, e sua cabeça era do tamanho de um
barril. 7Comecei a chorar e a pedir ao Senhor que me livrasse do monstro.
Lembrei-me da palavra que tinha ouvido: Não duvides, Hermas. 8Então, irmãos,
revesti-me da fé em Deus, lembrei-me de seu ensinamento sublime e, num arroubo
de coragem, me expus diante da fera. Ela avançava com grande estrépito, capaz
de destruir uma cidade. 9Aproximei-me, e a enorme baleia se estendeu pelo chão,
apenas pondo para fora a língua. Ela não fez nenhum outro movimento, até que
passei por ela. 10A fera tinha quatro cores na cabeça: preto, avermelhado de
fogo e sangue, dourado e branco.
CAPÍTULO 23
lEu ultrapassara a fera, e
continuei uns trinta pés, quando veio ao meu encontro uma jovem adornada, como
se estivesse saindo do quarto nupcial, toda vestida de branco, com sandálias
brancas, coberta até a fronte, com mitra cobrindo a cabeça. Seus cabelos eram
brancos. 2Pelas visões anteriores, reconheci que era a Igreja, e fiquei muito
contente. Ela me saudou, dizendo: Bom dia, homem. Eu lhe respondi com a mesma
saudação: Bom dia, senhora. 3Ela me perguntou: Não encontraste nada? Eu lhe
respondi: Senhora, encontrei uma fera tão grande, que seria capaz de aniquilar
povos. Mas, pelo poder e misericórdia do Senhor, consegui escapar dela. 4Então
me disse: Tiveste a felicidade de escapar, porque entregaste tua preocupação a
Deus, abriste teu coração ao Senhor, acreditando que não poderias ser salvo de outro
modo, senão pelo seu Nome grande e glorioso. Por isso, o Senhor enviou o seu
anjo, aquele que está à frente das feras selvagens, cujo nome é Tegri: ele
fechou a boca da fera, a fim de evitar que ela te devorasse. Por tua fé,
escapaste de grande tribulação, pois a visão de tão grande fera não te fez
duvidar. 5Portanto, agora vai, e explica as grandezas do Senhor aos seus
eleitos. Dize-lhes que essa fera é a prefiguração da grande tribulação que está
para chegar. Se vos preparardes e de todo coração fizerdes penitência diante do
Senhor, podereis escapar da tribulação. É preciso, porém, que vosso coração se
tome puro e irrepreensível, e que sirvais irrepreensivelmente ao Senhor pelo
resto de vossos dias. Entregai ao Senhor as vossas preocupações, e ele as resolverá.
6Crede no Senhor que tudo pode, vós que duvidais. Ele desvia sua ira de vós e
envia flagelos para vós que duvidais Ai daqueles que ouvirem essas palavras e
não as aceitarem. Seria melhor para eles não ter nascido.
CAPÍTULO 24
1Perguntei-lhe então sobre as
quatro cores que a fera tinha na cabeça. Ela me respondeu: Estás novamente
curioso a respeito dessas coisas. Eu lhe disse: Sim, senhora. Dá-me a conhecer
o que significa isso. 2Ela disse: Escuta. A cor negra é este mundo em que
habitais; 3o avermelhado de fogo e sangue quer dizer que este mundo deverá
perecer pelo fogo e pelo sangue. 4A parte dourada sois vós, que fugistes deste
mundo. Com efeito, o ouro é provado pelo fogo e se torna útil. Da mesma forma,
vós que habitais no mundo sois provados. Vós que perseverais e resistis à prova
do fogo, sereis purificados. Assim como o ouro deixa sua escória, vós também
deixareis toda tristeza e angústia, e sereis purificados e úteis para a
construção da torre. 5A parte branca é o mundo que se aproxima, onde habitarão
os eleitos de Deus, pois os eleitos de Deus para a vida eterna serão puros e
sem mancha. 6Quanto a ti, não cesses de falar aos santos. Tendes a prefiguração
da grande tribulação que se aproxima. Se quiserdes, porém, ela não será nada.
Lembrai vos do que foi escrito antes. 7Tendo dito isso, ela foi embora, e eu
não vi por onde se foi. Apareceu uma nuvem e eu, apavorado, voltei-me para
olhar para trás, com a impressão de que a fera estivesse voltando.
QUINTA VISÃO
CAPÍTULO 25
lEu estava rezando em casa,
sentado na cama, quando vi entrar um homem de aparência gloriosa, vestido com
roupas de pastor, coberto com pele branca de cabra, com o bornal nas costas e o
cajado na mão. Saudou-me e respondi à saudação. 2Imediatamente ele sentou ao
meu lado, e me disse: Fui enviado pelo anjo mais venerável, para morar contigo
pelo resto da tua vida. 3Pareceu-me que ele estava ali para me provar. Eu lhe
perguntei: Quem és tu? Eu sei muito bem a quem fui confiado. Ele me disse: Não
me reconheces? Eu respondi: Não. Ele continuou: Eu sou o Pastor, a quem foste
confiado. 4Ele ainda falava, quando seu aspecto mudou, e então o reconheci: era
justamente aquele a quem eu fora confiado. Logo a seguir, cheio de confusão,
fui tomado pelo medo e completamente arrasado pela tristeza. Será que eu o
tinha tratado de forma desconsiderada e insensata? 5Ele, porém, me respondeu:
Não te perturbes. Ao contrário, fortalece-te com os mandamentos que te darei,
pois fui enviado para te mostrar, ainda uma vez, tudo o que viste antes, os
principais pontos úteis para vós. Quanto a ti, anota tudo sobre os mandamentos
e as parábolas. Escreverás as outras coisas, conforme eu te indicar. Ordeno que
escrevas primeiro os mandamentos e as parábolas, para que possas lê-los e
observá-los imediatamente. 6Então escrevi os mandamentos e as parábolas,
conforme ele me ordenara. 7Se vós os escutardes e observardes, se caminhardes
neste caminho e os puserdes em prática com o coração puro, recebereis do Senhor
tudo o que vos prometeu. Todavia, se depois de escutardes, não vos
converterdes, se continuardes a pecar, recebereis do Senhor o contrário. Eis
aqui tudo o que o Pastor, o anjo da penitência, me ordenou que escrevesse.
O Pastor de Hermas - Mandamentos
Por Hermas
Tradução: Ivo Storniolo, Euclides
M. Balancin
Fonte: Coleção Patrística Vol I,
Padres Apostólicos. Ed. Paulus
M A N D A M E N T O S
PRIMEIRO MANDAMENTO
CAPÍTULO 26
1"Antes de tudo, crê que
existe um só Deus, que criou e organizou o universo, fazendo passar todas as
coisas do não-ser para o ser, que contém tudo e ele próprio não é contido por
nada. 2Crê nele e teme-o, e temendo-o, sê continente. Observa isso e afasta de
ti todo mal, para que sejas revestido de toda virtude de justiça, e viverás
para Deus, se observares esse mandamento."
SEGUNDO MANDAMENTO
CAPÍTULO 27
1Ele me disse: "Sê simples e
inocente, e serás como as crianças que não conhecem o mal que destrói a vida
dos homens. 2Em primeiro lugar, não fales mal de ninguém, nem ouças com prazer
o maledicente. Do contrário, participarás do pecado do maledicente, se
acreditares na maledicência que ouves. Pois, acreditando nisso, também ficarás
hostil ao teu irmão, e participarás do pecado do maledicente. 3A maledicência é
má, é demônio agitado, que nunca está em paz, e só sente prazer nas discórdias.
Fica longe dele, e tuas relações com todos serão sempre perfeitas. 4Sê
reservado. Com reserva, não há mau tropeço, mas tudo é plano e alegre. Realiza
o bem e, do produto do trabalho que Deus te concede, dá com simplicidade a
todos os necessitados, sem te preocupares a quem darás ou não. Dá a todos,
porque Deus quer que seus próprios bens sejam dados a todos. 5Os que recebem
prestarão contas a Deus do motivo e finalidade daquilo que tiverem recebido: os
que receberem por necessidade não serão julgados, mas os que enganarem para
receber, serão punidos. 6Aquele que dá é irrepreensível, pois realiza com
simplicidade o serviço, conforme recebeu do Senhor, sem discriminar a quem dá
ou não. O serviço, assim realizado na simplicidade, subsistirá em Deus.
7Observa, portanto, esse mandamento, conforme te ordenei, para que tua
conversão e a da tua casa sejam encontradas simples, puras, inocentes e
incorruptíveis."
TERCEIRO MANDAMENTO
CAPÍTULO 28
1Ele me disse novamente:
"Ama a verdade, e apenas a verdade saia de tua boca, para que o espírito,
que Deus colocou nesse corpo, seja encontrado verdadeiro por todos os homens.
Assim, o Senhor, que habita em ti, será glorificado, porque o Senhor é
verdadeiro em todas as palavras, e nele não há mentira. 2Os mentirosos renegam
o Senhor e o despojam, não lhe restituindo o depósito recebido. De fato,
receberam dele um espírito que não mente. Se o restituem mentiroso, transgridem
o mandamento do Senhor e se tornam fraudulentos." 3Ouvindo isso, eu chorei
muito. Vendo-me chorar, ele me disse: "Por que choras?" Eu respondi:
"Senhor, porque não sei se posso me salvar." Ele perguntou: "Por
quê?" Eu continuei: "Senhor, é porque na minha vida eu nunca disse
palavra verdadeira, mas sempre vivi usando de fraude para com todos e fiz com
que minhas mentiras passassem por verdades aos olhos de todos. Ninguém jamais
me contradisse. Ao contrário, sempre confiaram em minha palavra. Senhor, como
posso viver, tendo feito isso?" 4Ele me disse: "Tu pensas bem e
verdadeiramente. De fato, era preciso que, como servo de Deus, tivesses
caminhado na verdade. A má consciência não deveria habitar com o espírito da
verdade e trazer tristeza ao espírito santo e verdadeiro." Eu disse:
"Senhor, jamais ouvi palavras tão exatas." 5Ele continuou:
"Agora, porém, estás ouvindo. Observa-as, a fim de que também as mentiras
que disseste antes em teus negócios, agora tenham credibilidade, ao verem que a
tua linguagem hoje é verdadeira. Se observares essas coisas e, a partir de
agora, disseres só a verdade, poderás adquirir a vida. E todo aquele que
observar esse mandamento e se abstiver desse grande vício da mentira, viverá em
Deus."
QUARTO MANDAMENTO
CAPÍTULO 29
1Ele me disse: "Eu te ordeno
guardar r castidade e que não entre em teu coração o desejo de outra mulher,
nem de qualquer fornicação, nem de qualquer outro vício semelhante. Porque, se
fizeres isso, cometerás grande pecado. Lembra-te sempre de tua esposa, e jamais
pecarás. 2Se esses desejos entrarem em teu coração, pecarás; e se entrarem
outras coisas igualmente más, também cometerás pecado, pois tal desejo é grande
pecado para o servo de Deus. Se alguém realiza esse ato vicioso, prepara a
morte para si mesmo. 3Portanto, estejas atento. Evita esse desejo, pois onde
habita a santidade, no coração do homem justo, a iniqüidade não deve
entrar." 4Eu lhe disse: "Senhor, permite-me apresentar algumas
questões." Ele respondeu: "Podes perguntar." Eu continuei:
"Senhor, se alguém tem esposa que crê no Senhor, e descobre que ela é adúltera,
esse homem comete pecado vivendo com ela?" 5Ele me respondeu:
"Enquanto ele não sabe, não comete pecado. Mas se fica sabendo do pecado
de sua mulher e que ela, ao invés de se arrepender, persiste no adultério, o
marido, vivendo com ela, se torna cúmplice de sua falta e participa no
adultério dela." 6Então perguntei: "Se a mulher persiste nessa
paixão, o que o marido deverá fazer?" Ele respondeu: "Deve repudiá-la
e viver sozinho. Contudo, se depois de ter repudiado sua mulher, ele se casar
com outra, então ele também comete adultério." 7Eu disse: "Senhor, e
se a mulher depois de ter sido repudiada, se arrepender e quiser voltar a seu
marido, ele deverá acolhê-la?" 8Ele continuou: "Sim. E se o marido
não a receber, ele cometerá pecado e carrega-se de grande culpa. E preciso
acolher aquele que peca e se arrepende, mas não muitas vezes. Para os servos de
Deus existe apenas uma conversão. É em vista dessa conversão que o homem não
deve se casar de novo. Essa obrigação vale tanto para a mulher como para o
homem. 9O adultério não é apenas macular o corpo. Quem vive como os pagãos,
também comete adultério. Portanto, se alguém persiste nessa conduta sem se
converter, afasta-te e não vivas mais com ele. Caso contrário, serias cúmplice
do seu pecado. 10A razão por que se ordena permanecer sozinho, tanto o homem
como a mulher, é porque em tal caso é possível o arrependimento. "Contudo,
não quero dar tal pretexto para que alguém faça isso, e sim impedir que o
pecador recaia no pecado. Para quem pecou antes, existe quem pode curá-lo: é
aquele que tem poder sobre todas as coisas".
CAPÍTULO 30
1Continuei a perguntar: "Uma
vez que o Senhor julgou-me digno de habitares sempre comigo, suporta ainda
algumas interrogações, pois nada compreendo, e meu coração se endureceu, por
causa de minhas ações passadas. Ensina-me, pois sou totalmente desprovido de
inteligência e não compreendo absolutamente nada." 2Ele me respondeu:
"Estou encarregado da conversão e concedo inteligência a todos o que se
arrependem. Não te parece que o fato de se arrepender é em si mesmo
inteligência? O arrependimento é ato de grande inteligência. Com efeito, o
pecador compreende que fez o mal diante do Senhor, e que o ato que ele cometeu
entra no coração, então se arrepende e não pratica mais o mal. Ao contrário,
ele se empenha com todo o zelo a praticar o bem, humilha e experimenta a sua
alma, pois ela pecou. Vês, portanto, que o arrependimento é ato de grande
inteligência." 3Eu disse: "Senhor, é por isso que te pergunto essas
coisas com minúcias. Primeiro, porque sou um pecador que desejo saber o que
devo fazer para viver, pois meus pecados são muitos e numerosos." 4Ele
disse: "Viverás, se observares meus mandamentos e seguires seus caminhos.
Quem ouvir esses mandamentos e os observar, viverá em Deus."
CAPÍTULO 31
1Eu disse: "Senhor, ainda
quero te fazer outra pergunta." Ele respondeu: "Pergunta."
Continuei: "Ouvi alguns doutores dizerem que não há outra conversão além
daquela do dia em que descemos à água e recebemos o perdão dos pecados
anteriores." 2EIe me respondeu: "Ouviste bem. E assim mesmo. Aquele
que recebeu o perdão de seus pecados não deveria mais pecar, e sim permanecer
na pureza. 3Entretanto, como queres saber tudo com pormenores, eu te explicarei
também isso, sem dar pretexto para pecar aos que hão de crer ou aos que começaram
agora a crer no Senhor, pois tanto uns como outros não têm necessidade de fazer
penitência de seus pecados, pois seus pecados passados já foram abolidos. 4Para
os que foram chamados antes destes dias, o Senhor estabeleceu uma penitência,
pois o Senhor conhece os corações. E sabendo tudo de antemão, ele conheceu a
fraqueza dos homens e a esperteza do diabo em fazer o mal aos servos de Deus e
exercer sua malícia contra eles. 5Sendo misericordioso, o Senhor teve compaixão
de sua criatura e estabeleceu a penitência, e deu-me o poder sobre ela.
6Todavia, eu te digo: se, depois desse chamado importante e solene, alguém,
seduzido pelo diabo, cometer pecado, ele dispõe de uma só penitência; contudo,
se peca repetidamente, ainda que se arrependa, a penitência será inútil para
tal homem, pois dificilmente viverá." 7Então eu lhe disse: "Senhor,
sinto-me reviver depois de ouvir essas coisas tão pormenorizadamente, pois sei
que serei salvo, se eu não continuar a pecar." Ele me disse: "Serás
salvo, tu e todos os que fizerem essas coisas."
CAPÍTULO 32
1Eu lhe perguntei novamente:
"Senhor, já que toleraste uma vez minhas interrogações, esclarece-me
também este ponto." Ele respondeu: "Podes falar." Eu disse:
"Senhor, se uma mulher ou um homem morre e o cônjuge se casa de novo, este
último peca por se casar?" 2EIe respondeu: "Não peca, mas, se
permanece sozinho, adquire maior honra e glória diante do Senhor. Se ele se
casa, porém, não comete pecado. 3Observa, portanto, a castidade e a santidade,
e viverás em Deus. Observa tudo o que te digo e te direi a partir deste dia em
que me foste confiado, e habitarei em tua casa. 4Alcançarás o perdão de teus
pecados passados, contanto que observes os meus mandamentos. Também os outros
serão perdoados, se observarem meus mandamentos e se caminharem nessa
castidade."
QUINTO MANDAMENTO
CAPÍTULO 33
1Ele me disse: "Sê paciente
e prudente, e dominarás todas as ações más e realizarás toda a justiça. 2Se
fores paciente, o Espírito Santo, que habita em ti, será límpido e não ficará
na sombra de outro espírito mau. Encontrando grande espaço livre, ele ficará
contente e se alegrará como o vaso em que ele habita e servirá a Deus com
alegria, pois terá felicidade em si mesmo. 3Se sobrevier acesso de cólera,
imediatamente o Espírito Santo, que é delicado, se angustiará por não ter lugar
puro, e procurará afastar-se do lugar. Ele se sente sufocado pelo espírito mau
e não tem mais lugar para servir a Deus como quer, porque está contaminado pela
cólera. Com efeito, o Senhor habita na paciência e o diabo, na cólera. 4Que
esses dois espíritos habitem juntos é, portanto, coisa inconveniente e má para
o homem em que habitam. 5Se tomas uma pequenina gota de absinto e a derramas
num vaso de mel, não se estraga todo o mel? O mel fica estragado pelo pouquíssimo
absinto, que destrói a doçura do mel, e já não agrada ao dono, porque se tornou
amargo e sem utilidade. Todavia, se não se derrama absinto no mel, o mel
permanece doce e agrada muito ao seu dono. 6Vê: a paciência supera o melem
doçura, é útil ao Senhor, que habita nela. Ao contrário, a cólera é amarga e
inútil. Portanto, se se mistura a cólera com a paciência, a paciência se
mancha, e sua oração não é útil para Deus." 7Eu disse: "Senhor, eu
desejaria conhecer a força da cólera, para me preservar dela." Ele
respondeu: "Se não te guardares com tua família, destruirás toda a
esperança. Mas preserva-te dela, pois eu estou contigo. Todos os que fizerem
penitência do fundo do coração se guardarão dela, porque eu estarei com eles e
os protegerei. Com efeito, todos foram justificados pelo anjo santíssimo."
CAPÍTULO 34
1Ele me disse: "Escuta agora
qual é a força da cólera como ela é má, como perverte os servos de Deus com sua
força, e como os desvia da justiça. Ela não desvia os pleno. de fé, nem pode
fazer nada contra eles, pois meu poder está com eles. Ela desvia somente os
vazios e vacilantes. 2Quando a cólera vê essas pessoas tranqüilas, insinua-se
no coração delas e, por um nada, o homem ou a mulher se deixam tomar pela
amargura, com os negócios da vida cotidiana, alimentação, ou qualquer
futilidade, um amigo, um presente dado ou recebido, ou ainda qualquer outra
ninharia. Tudo isso são coisas fúteis, vãs, insensatas e prejudiciais para os
servos de Deus. 3A paciência, ao contrário, é grande e forte, tem força poderosa
e sólida, que se expande largamente; a paciência é alegre, contente e sem
preocupações, e glorifica o Senhor em todo momento. Nada nela é amargo; ela
permanece sempre doce e calma. Essa paciência habita com os que têm fé íntegra.
4A cólera, ao contrário é, em primeiro lugar, estulta, leviana e estúpida; da
estupidez nasce a amargura; da amargura a irritação; da irritação, o furor, e
do furor o ressentimento. Tal ressentimento, nascido de tantos males, é pecado
grave e incurável. 5Quando todos esses espíritos vêm habitar o mesmo vaso, onde
já habita o Espírito Santo, o vaso não pode mais conter tudo e transborda.
6Então o espírito delicado, que não tem o costume de habitar com o espírito
mau, nem com a aspereza, afasta-se de tal homem e procura habitar com a doçura
e a mansidão. 7Mas, quando se afasta do homem em que habitava, esse homem se
esvazia do espírito justo e, daí para a frente, cheio de espíritos maus,
agita-se em todas as suas ações, arrastado de cá para lá pelos espíritos maus,
completamente cego para todo pensamento bom. Eis o que acontece com todas as
pessoas coléricas. 8Afasta-te, portanto, da cólera, esse espírito maligno.
Reveste-te, em troca, de paciência, resiste à cólera e à amargura, e te
encontrarás com a santidade, amada pelo Senhor. Estejas atento para não te
descuidares desse mandamento. Se o dominares, poderás observar também os outros
mandamentos, que te ordenarei. Sê forte e inabalável neles, e fortaleçam-se
igualmente todos os que quiserem caminhar neles."
SEXTO MANDAMENTO
CAPÍTULO 35
1Ele me disse: "No primeiro
mandamento, eu te ordenei guardar a fé, o temor e a continência." Eu
respondi: "Sim, Senhor." Ele continuou: "Agora te explicarei as
forças dele, para que conheças o poder e a eficácia que elas possuem. Suas
forças são de dois tipos e estão relacionadas com o justo e com o injusto. 2Tem
confiança no justo, mas não confies no injusto. De fato, o justo segue caminho
reto, ao passo que o injusto segue caminho tortuoso. 3Quanto a ti, anda pelo
caminho direito e plano, deixando o caminho torto. O caminho tortuoso não tem
trilhas, mas é impraticável, cheio de obstáculos, pedregoso e espinhoso. Ele é
fatal para os que nele caminham. 4Aqueles, porém, que andam pelo caminho reto,
andam de maneira uniforme e sem tropeços, porque ele não é pedregoso, nem
espinhoso. Vês, portanto, que é mais conveniente seguir o caminho reto. 5Eu lhe
disse: "Senhor, eu gosto de andar por esse caminho." Ele me disse:
"Segue-o, e siga também por ele todo aquele que se converte ao Senhor, do
fundo do coração".
CAPÍTULO 36
1Ele me disse: "Ouve agora o
que vou te falar sobre a fé. Há dois anjos com o homem: um é da justiça, e
outro é do mal." 2Eu perguntei: "Senhor, como distinguirei as ações
deles, se os dois anjos habitam comigo?" 3Ele me respondeu: "Ouve e
compreende. O anjo da justiça é delicado, modesto, doce e suave. Quando entra
em teu coração, imediatamente fala contigo sobre a justiça, a castidade, a
santidade, a temperança, sobe todo ato e toda virtude nobre. Quando tudo isso
entra em teu coração, saibas que o anjo da justiça está contigo, pois essas
obras são próprias do anjo da justiça. Tem confiança nele e em suas obras. 4Vê
agora as obras do anjo do mal. Em primeiro lugar, ele é colérico, amargo e
insensato, e suas obras malignas os servos de Deus. Quando entra em teu
coração, tu o conheces por suas obras." 5Eu disse: "Senhor, não sei
como poderei reconhecê-lo". Ele continuou: "Escuta. Quando a cólera
se apodera de ti, ou a amargura, saibas que ele está em ti. Da mesma forma, os
desejos da atividade, dispersa os gastos loucos em numerosos festins, em
bebidas inebriantes, em orgias sem fim, em requintes variados e supérfluos,
paixões pelas mulheres, grande riqueza, orgulho exagerado, altivez e tudo o que
se assemelha a isso, se essas coisas entram no teu coração, saibas que o anjo
do mal está em ti. 6Reconhecendo suas obras, afasta-te dele e não creias nele,
pois essas obras são más e inconvenientes para os servos de Deus. Aí tens as
ações dos dois anjos. Compreende essas ações e depõe tua confiança no anjo da
justiça. 7Afasta-te do anjo do mal, porque seu ensinamento é mau para qualquer
obra. Se alguém é fiel e o pensamento desse anjo entra em seu coração, é
inevitável que essa pessoa, homem ou mulher, cometa pecado. 8Por outro lado, se
homem ou mulher são depravados e as obras do anjo da justiça entram em seu
coração, é inevitável que essa pessoa faça o bem. 9Vê, portanto, que é bom
seguir o anjo da justiça e renunciar ao anjo mau. 10Esse mandamento explica o
que se refere à fé, para que acredites nas obras do anjo da justiça e,
cumprindo-as, vivas em Deus. Acredita também que as obras do anjo do mal são
funestas. Evitando-as, viverás em Deus."
SÉTIMO MANDAMENTO
CAPÍTULO 37
1Ele me disse: "Teme o
Senhor e guarda seus mandamentos. Guardando os mandamentos de Deus, serás forte
em tudo o que fizeres e tua ação será incomparável. Com efeito, temendo ao
Senhor, farás tudo bem. Ele é o temor que precisas ter, e então serás salvo.
2Não temas o diabo. Temendo ao Senhor, triunfarás do diabo, pois ele não tem
poder. Se alguém não tem poder, também não apresenta motivo para temor. Quem
tem poder glorioso, também inspira temor. De fato, todo aquele que tem poder,
inspira temor; aquele que não o tem, é desprezado por todos. 3Teme as obras do
diabo, porque elas são más. Temendo ao Senhor, teme também as obras do diabo, e
não as pratiques, mas afasta-te delas. 4Há duas espécies de temor. Se quiseres
praticar o mal, teme ao Senhor e não o praticarás. Todavia, se quiseres
praticar o bem, teme ao Senhor, e o praticarás. O temor do Senhor é forte,
grande e glorioso. Teme, portanto, ao Senhor, e nele viverás. Os que o temem e
observam seus mandamentos, viverão em Deus." 5Eu perguntei: "Senhor,
por que disseste: aqueles que observam seus mandamentos viverão em Deus?"
Ele respondeu: "Porque tola a criação teme ao Senhor, mas não guarda seus
mandamentos. Os que o temem e guardam seus mandamentos têm a sua vida junto de
Deus. Aqueles, porém, que não guardam seus mandamentos não têm vida em si
mesmos."
OITAVO MANDAMENTO
CAPÍTULO 38
1Ele continuou: "Já te disse
que as criaturas de Deus são de dois tipos; a abstinência também é dupla, pois
é preciso se abster de algumas coisas e de outras não." 2Eu pedi:
"Senhor, ensina-me de quais coisas preciso me abster e de quais não."
Ele respondeu: "Escuta. Abstém-te do mal e não o pratiques. Não te
abstenhas do bem, mas pratica-o. Com efeito, se te abstiveres de praticar o
bem, cometerás grande pecado; por outro lado, se te abstiveres de praticar o
mal, praticarás um grande ato de justiça. Abstém-te, portanto, de todo mal e
pratica o bem." 3Eu perguntei: "Senhor, quais são os males de que nos
devemos abster?" Ele me respondeu: "Escuta: adultério, fornicação,
excesso na bebida, prazer depravado, comer em demasia, luxo da riqueza, ostentação,
orgulho, altivez, mentira, maledicência, hipocrisia, rancor e todo tipo de
blasfêmia. 4São essas as piores obras que existem na vida dos homens. O servo
de Deus deve abster-se dessas obras, pois aquele que não se abstém delas, não
pode viver em Deus. Escuta agora as obras que seguem a essas." 5Eu
perguntei: "Senhor, há ainda outras obras más?" Ele respondeu:
"Muitas, das quais os servos de Deus devem se abster: o roubo, a mentira,
a fraude, o falso testemunho, a avareza, os desejos maus, o engano, a
vanglória, a arrogância e outros vícios semelhantes. 6Não te parece que tudo
isso é mau?" Eu respondi: "E muito mau para os servos de Deus."
(Ele continuou): "É preciso que o servo de Deus se abstenha de tudo isso.
Abstém-te, portanto, de tudo isso, para que vivas em Deus e sejas inscrito com
os que se abstêm dessas coisas. São essas as coisas das quais te deves abster.
7As coisas das quais não te deves abster e sim praticar, são estas: não te
abstenhas do bem, mas pratica-o." 8Eu pedi: "Senhor, mostra-me o
poder das boas ações, para que eu siga seu caminho e as sirva, a fim de que,
praticando-as, possa salvar-me."Ele respondeu: "Escuta as obras do
bem, que deves praticar e não evitar. 9Em primeiro lugar, a fé, o temor do
Senhor, a caridade, a concórdia, as palavras justas, a verdade, a perseverança.
Não há nada de melhor na vida humana. Se alguém as observa e delas não se
abstém, será feliz em sua vida. 10Escuta agora as obras que seguem a essas:
assistir às viúvas, visitar os órfãos e necessitados, resgatar da escravidão os
servos de Deus, ser hospitaleiro (pois na hospitalidade encontra-se por vezes a
ocasião de fazer o bem), não criar obstáculos para ninguém, ser calmo,
tornar-se inferior a todos, honrar os anciãos, praticar a justiça, conservar a
fraternidade, suportar a violência, ser paciente, não nutrir rancor, consolar
os aflitos na alma, não afastar da fé os escandalizados, mas convertê-los e
dar-lhes coragem, corrigir os pecadores, não oprimir os devedores e
necessitados, e outras ações semelhantes. 11Não te parece que essas sejam boas
ações?" Eu respondi: "Que coisa é melhor do que isso, Senhor?"
Ele continuou: "Anda, portanto, nesse caminho, não te abstenhas dessas
coisas, e viverás em Deus. 12Observa este mandamento: se praticares o bem e não
te abstiveres dele, viverás em Deus, e todos os que agirem assim, também
viverão em Deus. E ainda, se não praticares o mal e te abstiveres dele, viverás
em Deus; e todos aqueles que guardarem esses mandamentos e andarem em seus
caminhos, também viverão em Deus."
NONO MANDAMENTO
CAPÍTULO 39
1Ele continuou: "Remove de
ti a dúvida e por nada no mundo hesites em pedir alguma coisa a Deus, dizendo a
ti mesmo: 'Como poderia eu pedir alguma coisa ao Senhor e obtê-la, tendo
cometido tão grandes pecados contra ele?' 2Não penses assim. Ao contrário,
converte-te ao Senhor, do fundo do coração, suplica-o confiante e conhecerás
sua grande misericórdia, porque ele não te abandonará, mas atenderá a oração da
tua alma. 3De fato, Deus não é como os homens rancorosos; ele não conhece o
rancor e tem compaixão de sua criatura. 4Tu, portanto, purifica teu coração de
todas as vaidades deste mundo e dos males dos quais já te falei. Suplica ao
Senhor e obterás tudo; nenhuma de tuas orações será rejeitada, se suplicares ao
Senhor com confiança. 5Contudo, se duvidares em teu coração, não alcançarás
nenhum dos teus pedidos, pois os que duvidam de Deus são indecisos e não
alcançam nada do que pedem. 6Em troca, os que são íntegros na fé, pedem tudo
com plena confiança no Senhor, e são atendidos, porque pedem sem vacilar e sem
incerteza. Com efeito, todo homem que duvida, se não fizer penitência,
dificilmente se salvará. 7Portanto, purifica da dúvida o teu coração,
reveste-te de fé, porque ela é forte e tem confiança que Deus atenderá todas as
tuas orações. E se alguma vez pedires alguma coisa ao Senhor e ele tardar em
concedê-la, não duvides porque não obtiveste logo o pedido da tua alma;
certamente, tardas a receber o que pediste, por causa de alguma provação ou de
algum pecado que ignoras. 8Não deixes, portanto, de pedir o que tua alma
deseja, e o obterás. Contudo, se ao rezar caíres no desânimo e na dúvida,
culpa-te a ti mesmo e não àquele que está disposto à te dar. 9Cuidado com a
dúvida: ela é má, insensata e desenraiza da fé, não poucos, até pessoas muito
fiéis e firmes, pois a dúvida é filha do diabo e faz muito mal aos servos de
Deus. 10Despreza, portanto, a dúvida, e domina-a em tudo. Para isso, reveste-te
de fé firme e poderosa. De fato, a fé tudo promete e tudo cumpre, mas a dúvida,
que não tem confiança sequer em si mesma, malogra-se em toda obra que
empreende. 11Vês, portanto, que a fé vem do alto, do Senhor, e tem grande
força; a dúvida, porém, é apenas um espírito terrestre que vem do diabo e não
tem força, nenhuma. 12Serve, portanto, à fé que tem força e afasta a dúvida que
não tem força nenhuma. Então viverás em Deus, e todos os que pensam assim
também viverão em Deus.
DÉCIMO MANDAMENTO
CAPÍTULO 40
1Ele continuou: "Afasta de
tia tristeza, pois ela é irmã da dúvida e da cólera." 2Eu perguntei:
"Senhor, como é que ela é irmã delas? Parece-me que a cólera é uma coisa,
a dúvida é outra, e a tristeza ainda outra coisa." Ele me respondeu:
"Es homem insensato. Não compreendes que a tristeza é o pior de todos os
espíritos e o mais terrível para os servos de Deus e que, mais do que todos os
espíritos, ela arruína o homem e expulsa o Espírito Santo, e depois
salva?" 3Eu disse: "Senhor, de fato sou insensato e não compreendo
essas parábolas. Com efeito, não compreendo como a tristeza pode expulsar e
depois salvar." 4Ele continuou: "Escuta. Os que nunca pesquisaram a
verdade, nem indagaram sobre a divindade, que se limitaram a crer, ficam presos
em seus negócios, riquezas, amizades pagãs e outras numerosas ocupações deste
mundo. Todos esses, que só vivem para isso, são incapazes de compreender as
parábolas a respeito da divindade. Ficam obscurecidos por essas atividades, se
corrompem e ficam áridos. 5As vinhas, antes belas, por falta de cuidados, secam
por causa dos espinhos e ervas daninhas de todo tipo. Da mesma forma, os homens
que abraçaram a fé e se perdem nas múltiplas atividades de que falei,
extraviam-se do seu bom senso e nada mais compreendem sobre a justiça. Até
mesmo quando ouvem falar sobre divindade e verdade, sua mente está em seus
negócios, e nada compreendem. 6Todavia, os que temem a Deus, buscam a divindade
e a verdade, e têm o coração voltado para o Senhor. Esses logo entendem e
compreendem tudo o que se lhes diz. Eles têm em si o temor do Senhor. Com
efeito, onde o Senhor habita, aí há total compreensão. Adere, portanto, ao
Senhor, e compreenderás e entenderás tudo."
CAPÍTULO 41
1Ele continuou: "Escuta,
portanto, insensato, como a tristeza expulsa o Espírito Santo e depois salva.
2Quando o vacilante empreende uma ação e não colhe êxito por causa de sua
própria dúvida, a tristeza se insinua nele e entristece o Espírito Santo e o
expulsa. 3Em seguida, a cólera se apodera da pessoa por causa de qualquer
coisa, e o amargura muito. De novo, a tristeza entra no coração do homem que se
irritou, o qual se entristece pelo que fez e se arrepende de ter feito o mal.
4Essa tristeza, portanto, parece trazer a salvação, porque, depois de ter feito
o mal, a pessoa se arrepende. Essas duas atitudes entristecem o espírito: a
dúvida, porque não colheu êxito no empreendimento; e a cólera, porque fez o
mal. As duas entristecem o Espírito Santo. 5Afasta, portanto, a tristeza de ti,
para não entristecer o Espírito Santo que habita em ti, a fim de que ele não
suplique a Deus contra ti e de ti se afaste. 'Com efeito, o Espírito de Deus,
que foi dado ao teu corpo, não suporta a tristeza nem a angústia."
CAPÍTULO 42
1"Reveste-te, portanto, da
alegria, que agrada a Deus e ele a aceita: faze dela as tuas delicias. De fato,
todo homem alegre realiza sempre o bem, pensa no bem e despreza a tristeza. 2O
homem triste pratica sempre o mal. Em primeiro lugar, pratica o mal porque
entristece o Espírito Santo, que foi dado alegre ao homem; em seguida,
entristecendo o Espírito Santo, pratica a injustiça por não suplicar a Deus,
nem louvá-lo. Com efeito, a oração do homem triste jamais tem a força de subir
ao altar de Deus". 3Eu perguntei: "Por que a súplica do homem triste
não sobe ao altar?" Ele respondeu: "Porque a tristeza reside no seu coração.
Unida à oração, a tristeza não permite que a oração suba pura ao altar. O vinho
misturado com vinagre não tem o mesmo sabor. Igualmente acontece com a
tristeza: misturada com o Espírito Santo, não conserva a própria oração.
4Purifica-te, portanto, dessa tristeza maligna, e viverás em Deus. E todos os
que afastarem de si a tristeza e se revestirem de toda alegria, também viverão
em Deus.
DÉCIMO PRIMEIRO MANDAMENTO
CAPÍTULO 43
1Ele me mostrou homens sentados
num banco e outro homem sentado numa poltrona. E me disse: "Vês as pessoas
sentadas no banco?" Eu respondi: "Sim, senhor." Ele explicou:
"Esses são fiéis, e o que está sentado na poltrona é falso profeta, que
corrompe a inteligência dos servos de Deus, isto é, corrompe a inteligência dos
que duvidam, e não dos fiéis. 2Aqueles que duvidam vão até ele como adivinho e
lhe perguntam o que lhes acontecerá. Então esse falso profeta, sem ter em si
nenhum poder do espírito divino, responde-lhes segundo o que perguntam e
segundo seus maus desejos, satisfazendo-lhes a alma com o que desejam. 3Sendo
vazio ele próprio, dá respostas vãs a homens vãos. Seja qual for a pergunta,
ele responde conforme a vaidade do interrogador. Também diz coisas verdadeiras,
pois o diabo o enche com o seu espírito, a fim de dobrar algum justo. 4Contudo,
os fortes na fé do Senhor, revestidos de verdade, não aderem aos espíritos
maus, mas se afastam deles. Por outro lado, os vacilantes e que mudam
constantemente de opinião, consultam os adivinhos como os pagãos, e carregam-se
de pecado maior que o dos idólatras. Com efeito, quem faz consulta a um falso
profeta sobre alguma coisa, é idólatra, vazio da verdade e insensato. 5De fato,
todo espírito dado por Deus não se deixa interrogar, mas, possuindo força da
divindade, diz tudo espontaneamente, porque vem do alto, do poder do espírito
divino. 6Ao invés, o espírito que se deixa interrogar e que fala conforme o
desejo dos homens, é terreno e leviano, porque não tem nenhum poder. Se não é
interrogado, não diz nada." 7Eu lhe perguntei: "Senhor, como saber
quem deles é verdadeiro e quem é falso profeta?" Ele respondeu:
"Escuta o que estou para te dizer sobre ambos os profetas, e então
discernirás o verdadeiro do falso profeta. Discerne pela vida o homem que tem o
espírito divino. 8Em primeiro lugar, quem tem o espírito que vem do alto, é
calmo, sereno e humilde. Ele se abstém de todo mal e de todo desejo vão deste
mundo; ele se considera inferior a todos e, quando interrogado, nada responde a
ninguém e não fala em particular. O Espírito Santo não fala quando o homem
quer, mas só quando Deus quer que ele fale. 9Quando um homem, que tem o
espírito de Deus, entra numa assembléia de homens justos, crentes no espírito
divino, e nessa assembléia de homens justos se suplica a Deus, então o anjo do
espírito profético que está junto dele, plenifica esse homem, e ele, pleno do
Espírito Santo, fala à multidão conforme quer o Senhor. 10É desse modo que se
manifesta o espírito da divindade. Tal é o poder do Senhor sobre o espírito da
divindade. 11Escuta agora a respeito do espírito terreno e vão, que não tem
poder e é insensato. 12Primeiro, tal homem, que julga possuir o espírito,
exalta-se a si mesmo, quer ter o primeiro lugar, e logo se apresenta
descaradamente, imprudente e loquaz. Vive em meio a muitas delícias e muitos outros
prazeres, e aceita pagamento por sua profecia. Quando nada recebe, também não
profetiza. Poderia um espírito divino receber pagamento para profetizar? Não é
possível que o profeta de Deus aja desse modo; o espírito desses profetas é
terreno. 13Além disso, ele não se aproxima da assembléia de homens justos para
nada, mas foge deles. Ele se une aos vacilantes e vãos, e profetiza para eles à
parte. Engana-os, falando-lhes coisas vazias, conforme o que desejam, pois
responde para gente vazia. Um vaso vazio quando bate em outro vaso vazio não
quebra, apenas ressoam mutuamente. 14Quando o falso profeta entra em assembléia
repleta de homens justos, portadores do espírito da divindade, se eles começam
a rezar, tal homem se esvazia e o espírito terrestre, tomado de medo, foge
dele. Tal homem emudece, completamente desorientado e incapaz de falar. 15Se
armazenas óleo e vinho num depósito e aí colocas uma vasilha vazia, quando
quiseres desocupar o depósito, encontrarás vazia essa vasilha. Igualmente
acontece com os profetas vazios, quando entram em meio aos espíritos dos
justos: da mesma forma que entraram, assim são encontrados. 16Aí tens a vida
dos dois tipos de profeta. Examina, portanto, o homem que se diz portador do
espírito, a partir de seus atos e de sua vida. 17Quanto a ti, crê no espírito
que vem de Deus e tem poder, mas não creias no espírito terrestre e vazio,
porque nele não existe poder. Ele vem do diabo. 18Escuta a parábola que vou te
contar. Pega uma pedra e atira para o céu. Vê se podes atingi-lo. Ou então pega
um tubo de água e atira o jato para o céu. Vê se és capaz de furar o céu."
19Eu perguntei: "Senhor, como se pode fazer isso? As duas coisas que
disseste são impossíveis!" Ele respondeu: "Assim como essas coisas
são impossíveis, também os espíritos terrestres são impotentes e fracos. 20Toma
agora a força que vem do alto. O granizo é grão pequenino, mas quando cai sobre
a cabeça de uma pessoa, que dano lhe causa! Ou então, pega a gota de água, que
cai do telhado no chão e fura a pedra. 21Vês, portanto, que as melhores coisas
que caem do alto sobre a terra têm grande força. Da mesma forma, o espírito
divino que vem do alto é poderoso. Crê, portanto, nesse espírito e afasta-te do
outro."
CAPÍTULO 44
1Ele continuou: "Arranca de
ti todo mau desejo, e reveste-te do desejo bom e santo. Revestido desse desejo,
odiarás o desejo mau e o domarás como quiseres. 2O desejo mau é selvagem e
difícil de amansar. É terrível, e com sua selvageria consome os homens.
Principalmente se o servo de Deus cair nesse desejo e não tiver discernimento,
será consumido de modo terrível. Ele consome também os que não têm a veste do
desejo bom e se deixam enredar por este mundo. O desejo entrega-os à
morte". 3Eu perguntei: "Senhor, quais são as obras do desejo mau, que
entregam os homens à morte? Dá-me a conhecê-las, para que me afaste
delas." Ele respondeu: "Escuta com quais obras o desejo mau mata os
servos de Deus."
CAPÍTULO 45
1Antes de tudo, o desejo de outra
mulher ou homem, o luxo das riquezas, os banquetes numerosos e vãos, a
embriaguez, e muitos outros prazeres insensatos. Com efeito, todo prazer é
insensato e vazio para os servos de Deus. 2Tais desejos são maus, e matam os
servos de Deus, porque o desejo mau é filho do diabo. E preciso, portanto,
abster-se dos desejos maus para que, abstendo-vos, vivais em Deus. 3Todos os
que são dominados por eles e não lhes resistem, acabarão morrendo, pois esses
desejos são mortais. 4Reveste-te, portanto, do desejo da justiça e, armado do
temor de Deus, resiste a eles. De fato, o temor de Deus habita no desejo bom.
Se o desejo mau te vir armado do temor de Deus e resistindo, ele fugirá para
longe de ti e não o verás mais, porque ele teme as tuas armas. 5Quanto a ti,
vitorioso e coroado por sua derrota, apresenta-te diante do desejo da justiça e
entrega-lhe a vitória que recebeste, e serve-o do modo que ele quiser. Se
servires o desejo bom e te submeteres a ele, poderás dominar o desejo mau e
comandá-lo, conforme quiseres.
CAPÍTULO 46
Eu disse: "Senhor, desejaria
saber de que modo devo servir ao desejo bom." Ele respondeu: "Escuta.
Pratica a justiça e a virtude, a verdade e o temor do Senhor, a fé, a mansidão
e todas as coisas boas semelhantes a essas. Praticando essas coisas, serás
servo agradável de Deus e viverás nele. Todo aquele que servir ao desejo bom
viverá em Deus."
2EIe terminou os doze mandamentos
e me disse: "Tens agora esses mandamentos. Anda em conformidade com eles e
exorta os ouvintes, para que se exercitem na penitência purificadora pelo resto
dos dias de sua vida. 3Cumpre com cuidado esse serviço que te confio. Desse
modo, realizarás. Com efeito, encontrarás boa acolhida daqueles que se dispõem
a fazer penitência; eles acreditarão em tuas palavras. Eu estarei contigo e os
induzirei a crer em ti." 4Eu lhe disse: "Senhor, esses mandamentos
são grandes, sublimes e gloriosos, e podem alegrar o coração do homem que for
capaz de observá-los. Todavia, Senhor, não sei se esses mandamentos podem ser
guardados pelo homem, pois eles são muito duros". 5Ele me respondeu:
"Se te convenceres de que esses mandamentos podem ser guardados, tu os
guardarás facilmente, e eles não serão duros. Contudo, se se insinuar no teu
coração que não podem ser guardados pelo homem, não os guardarás. 6Agora,
porém, eu te garanto: se não os guardares e os negligenciares, nem tu, nem teus
filhos, nem tua família vos salvareis, pois decidindo que esses mandamentos não
podem ser guardados pelo homem, tu te condenas a ti mesmo."
CAPÍTULO 47
1Ele me disse isso de modo tão
indignado, que fiquei confuso e com muito medo. Sua aparência se alterou de tal
modo que nenhum homem poderia suportar sua ira. 2Vendo-me completamente
perturbado e confuso, começou a falar-me de modo mais brando e sereno, dizendo:
"Tolo, insensato e vacilante! Não compreendes que a glória de Deus é
grande, forte e admirável? Ele não criou o mundo para o homem e não lhe
submeteu toda a sua criação, dando-lhe o poder de dominar todas as coisas que
existem debaixo do céu? 3Portanto, se o homem é o senhor de todas as criaturas
de Deus e domina sobre todas, será que ele não pode dominar também esses
mandamentos? Somente o homem que leva o Senhor em seu coração é capaz de
dominar todas as coisas e todos esses mandamentos. 4No entanto, para os que têm
o Senhor somente nos lábios, e cujo coração está endurecido e estão distantes
de Deus, esses preceitos são duros e inacessíveis. 5Esteja o Senhor em vosso
coração, vós homens vazios e levianos na fé, e sabereis que não há nada mais
fácil, suave e simples do que esses mandamentos. 6Convertei-vos, vós que seguis
os mandamentos do diabo, mandamentos difíceis, amargos, brutais e licenciosos,
e não temais o diabo, pois ele não tem poder nenhum sobre vós. 7Eu, o anjo da
penitência, que triunfo sobre o diabo, estarei convosco. O diabo só pode
amedrontar, mas esse medo não tem força alguma. Não o temais, portanto, e ele
fugirá de vós."
CAPÍTULO 48
1Eu lhe disse: "Senhor,
escuta ainda algumas palavras." Ele respondeu: "Dize o que
queres." Eu continuei: "Senhor, o homem tem o desejo de guardar os
mandamentos de Deus, e ninguém deixa de pedir ao Senhor que o reforce nos seus
mandamentos e o submeta a eles. O diabo, porém, é duro, e domina os
homens." 2EIe me respondeu: "Ele não conseguirá dominar os servos de
Deus, se estes, de todo coração, nele tiverem esperança. O diabo é capaz de
combater, não porém de triunfar. Se lhe resistirdes, será derrotado e,
envergonhado, fugirá de vós. Todavia, aqueles que são vazios temem o diabo como
se ele tivesse poder. 3Quando um homem enche de bom vinho recipientes
apropriados e entre estes deixa alguns semicheios, ao voltar para os
recipientes ele não se preocupa com os que estão cheios, pois sabe que estão
cheios; observa, sim, os que estão semicheios, temendo que tenham azedado, e o
vinho perca o sabor. 4mesmo acontece com o diabo: Ele vai e tenta todos os
servos de Deus. Os que estão cheios de fé lhe resistem fortemente, e o diabo se
afasta deles, pois não encontra por onde entrar. Então, ele vai até os que
estão semicheios e, encontrando lugar, entra neles, faz o que quer, tornando-os
seus escravos."
CAPÍTULO 49
1"Eu, o anjo da penitência,
vos digo: não temais o diabo, pois fui enviado para estar com aqueles de vós
que de todo o coração fazem penitência, para os fortificar na fé. 2Portanto,
crede, em Deus, vós que, por causa dos vossos pecados, desesperastes da vida e
acrescentais pecados a pecados, agravando assim profundamente a vossa própria
vida. Se vos converterdes ao Senhor de todo o vosso coração e praticardes a
justiça pelo resto dos dias de vossa vida; se o servirdes retamente, conforme a
sua vontade, ele vos curará de vossos pecados passados e não vos faltará força
para dominar as obras do diabo. Não temais de modo nenhum a ameaça do diabo,
pois ele, como nervos de cadáver, não tem força nenhuma. 3Escutai, portanto, e
temei aquele que pode salvar ou destruir tudo; observai seus mandamentos e
vivereis em Deus." 4Eu lhe pedi: "Senhor, agora estou fortificado em
todos os mandamentos do Senhor, porque estás comigo. Sei que abaterás todo o
poder do diabo e que nós o dominaremos, e venceremos todas as suas obras.
Senhor, espero que, fortalecido pelo Senhor, eu possa guardar os preceitos que
me deste." 5Ele me respondeu: "Tu os guardarás, contanto que teu
coração permaneça puro, voltado para o Senhor. Todos aqueles que os guardarem,
purificando o coração dos desejos vazios deste mundo , viverão em Deus."
O Pastor de Hermas - Parábolas -
Parte I
Por Hermas
Tradução: Ivo Storniolo, Euclides
M. Balancin
Fonte: Coleção Patrística Vol I,
Padres Apostólicos. Ed. Paulus
P A R Á B O L A S
PRIMEIRA PARÁBOLA
CAPÍTULO 50
1Ele me disse: "Vós, servos
de Deus, sabeis que habitais em terra estrangeira. De fato, vossa cidade
acha-se longe desta cidade. Portanto, se conheceis vossa cidade, aquela que
deveis habitar, por que correis assim atrás de campos, instalações luxuosas,
palácios e mansões inúteis? 2Quem procura tais coisas nesta cidade não espera
retornar à sua própria cidade. 3Insensato, vacilante, homem infeliz! Ignoras
que tudo isso é estrangeiro e está em poder de outro? De fato, o dono desta
cidade dirá: 'Não quero que habites na minha cidade. Vai embora daqui, porque
não obedeces às minhas leis'. 4Então, tu, que possuis campos, casas e muitos
bens, ao ser expulso por ele, o que farás com teu campo, tua casa e tudo o que
te resta do que acumulaste? Porque o dono desta cidade te diz justamente: 'Ou
obedeces às minhas leis, ou sais do meu país'. 5Portanto, o que farás, tu que
segues a lei da tua cidade? Por causa de teus campos e do resto de teus bens,
renegarás tua lei e andarás de acordo com a lei dessa cidade? Atenção! E
perigoso renegar tua lei, porque, se queres retornar à tua cidade, temo que não
te acolham mais, por teres renegado a lei de tua cidade, e assim sejas excluído
dela. 6Vigia, portanto. Visto que moras em terra estrangeira, não reserves para
ti senão o estritamente necessário, e estejas pronto. Desse modo, quando o dono
dessa cidade quiser te expulsar, porque te opões às suas leis, sairás da sua
cidade, chegarás à tua, e aí viverás conforme tua lei, sem prejuízo e com alegria.
7Atenção, vós que servis ao Senhor e o tendes no coração. Praticai as obras de
Deus, lembrando-vos de seus mandamentos e das promessas que ele vos fez. Crede
que ele as manterá, se seus mandamentos forem observados. 8Em lugar de campos,
resgatai os oprimidos, conforme cada um puder; visitai as viúvas e os órfãos, e
não os desprezeis. Gastai vossas riquezas e todos os vossos bens, que
recebestes de Deus, nesses campos e casas. 9De fato, o Senhor vos enriqueceu,
para que presteis a ele tais serviços. E melhor adquirir esses campos, bens e
casas, que reencontrarás em tua cidade, quando aí retornares. 10Esse
investimento é nobre e alegre, não produz tristeza, nem medo, mas alegria. Não
procureis o investimento dos pagãos, perigoso para os servos de Deus. 11Fazei
vossos próprios investimentos, com os quais podeis alegrar-vos. Não cometais
fraude, não toqueis nos bens de outros, nem os desejeis, porque é mau desejar
os bens alheios. Realiza tua tarefa, e serás salvo."
SEGUNDA PARÁBOLA
CAPÍTULO 51
1Caminhava eu para o meu campo e,
observando um olmeiro e uma videira, refletia sobre essas árvores e seus
frutos. Então o Pastor me apareceu e disse: "O que pensas sobre o olmeiro
e a videira?" Eu respondi: "Senhor, penso que eles se completam perfeitamente."
2EIe disse: "Essas duas árvores existem para servir de modelo aos servos
de Deus." Eu pedi: "Desejaria saber o modelo que podem oferecer essas
árvores das quais falas." Ele perguntou: "Vês o olmeiro e a
videira?" Respondi: "Sim, senhor." 3Ele continuou: "A videira
produz frutos, mas o olmeiro é estéril. Entretanto, se essa videira não se
prende ao olmeiro, fica estendida no chão e não produzirá frutos. Os frutos que
produzir apodrecerão, se ela não estiver suspensa no olmeiro. 4Vês, portanto,
que o olmeiro também dá muitos frutos, não menos que a videira, e até
mais." Eu perguntei: "Por que mais, Senhor?" Ele respondeu:
"Porque a videira suspensa no olmeiro dá muitos frutos belos, ao passo que
estendida no chão só produz frutos podres e poucos. Essa parábola vale para os
servos de Deus, o pobre e o rico." 5Eu. perguntei: "Senhor, como
assim? Explica-me." Ele respondeu: "Escuta. O rico tem muitos bens,
mas aos olhos do Senhor ele é pobre, porque se distrai com suas riquezas. A
oração e a confissão ao Senhor não lhe são importantes e, se ele as faz, são
breves, fracas e sem nenhum poder. Contudo, se o rico se volta para o pobre e
atende às suas necessidades, crendo que o bem que ele fez ao pobre poderá
encontrar sua retribuição junto a Deus (porque o pobre é rico por sua oração e
confissão, e sua oração tem grande poder junto de Deus), então o rico atende
sem hesitação às necessidades do pobre. 6Assim, o pobre, socorrido pelo rico,
reza por ele e agradece a Deus pelo seu benfeitor; este, por sua vez, redobra o
zelo para com o pobre, para que não lhe falte nada na vida, pois sabe que a
oração do pobre é bem acolhida e rica junto a Deus. 7Desse modo, ambos cumprem
sua tarefa: o pobre o faz mediante sua oração, que é sua riqueza recebida do
Senhor. Ele a devolve ao Senhor na intenção daquele que o ajuda. E o rico, sem
hesitação, dá ao pobre a riqueza que recebeu do Senhor. Essa é uma ação nobre e
bem acolhida por Deus, porque o rico compreendeu perfeitamente o sentido da sua
riqueza e partilhou com o pobre os dons do Senhor, cumprindo assim,
convenientemente, a sua tarefa. 8Para os homens, o olmeiro parece não produzir
fruto. Eles não ignoram e não compreendem que, se vier seca, o olmeiro, que
conserva água, nutre a videira, e esta, continuamente provida de água, produz o
duplo de frutos, para ela mesma e para o olmeiro. Da mesma forma, os pobres,
rezando ao Senhor para os ricos, asseguram pleno desenvolvimento às riquezas
deles. Por sua vez, os ricos, atendendo às necessidades dos pobres, dão
satisfação à sua alma. 9Portanto, ambos participam da ação justa. Quem age
assim não será abandonado por Deus, mas será inscrito no livro dos viventes.
10Felizes os que possuem e compreendem que o Senhor preserva suas riquezas,
pois aquele que o compreende poderá também prestar bons serviços."
TERCEIRA PARÁBOLA
CAPÍTULO 52
1Ele me mostrou muitas árvores
sem folhas, que me pareciam mortas, e eram todas semelhantes. E me perguntou:
"Vês essas árvores?" Respondi: "Sim, senhor, eu as vejo: são
semelhantes e mortas." Ele continuou: "Essas árvores que vês são os
habitantes deste mundo." 2Eu perguntei: "Senhor, então por que são
semelhantes e mortas?" Ele respondeu: "Porque os justos e os
pecadores não se distinguem neste mundo, mas são semelhantes. De fato, para os
justos este mundo é inverno, e eles não se distinguem, pois nele habitam
juntamente com os pecadores. 3No inverno, despojadas de suas folhas, as árvores
são semelhantes, e não se distingue quais estão mortas e quais vivas. Da mesma
forma, os justos e os pecadores não se distinguem neste mundo; são todos
semelhantes."
QUARTA PARÁBOLA
CAPÍTULO 53
1De novo, ele me mostrou muitas
árvores, umas verdes e outras secas. E me disse: "Vês essas árvores?"
Respondi: "Sim, senhor, eu as vejo: umas estão verdes e outras
secas." 2EIe continuou: "As árvores verdes são os justos, que
habitarão no mundo que está para chegar. De fato, o mundo que está para chegar
será verão para os justos e inverno para os pecadores. Portanto, quando brilhar
a misericórdia do Senhor os servos de Deus poderão ser distinguidos e serão
visíveis para todos. 3No verão, os frutos de cada árvore aparecem e se pode
saber de que espécie são. Do mesmo modo, naquele mundo os frutos dos justos
serão manifestos e se saberá que todos eles são vigorosos. 4Entretanto, naquele
mundo, os pagãos e os pecadores, as árvores secas que viste, serão encontrados
secos e mortos, e serão queimados, como madeira morta, patenteando-se assim que
durante a vida deles sua conduta foi má. De fato, os pecadores serão queimados,
porque pecaram e não fizeram penitência; os pagãos serão queimados porque não
conheceram o seu Criador. 5Portanto, leva frutos em ti mesmo, para que, naquele
verão, teu fruto seja conhecido. Evita muitas ocupações e não cometas nenhum
pecado. Os que se carregam de muitas ocupações cometem também muitos pecados.
São absorvidos por seus negócios e não servem mais em nada ao Senhor. 6Como
poderia o homem assim pedir algo ao Senhor e ser atendido, se ele não serve ao
Senhor? Os que o servem, -receberão o que pedem, mas os que não o servem, não
receberão absolutamente nada. 7Aquele que tem apenas uma ocupação, pode também
servir ao Senhor; o seu pensamento não se corromperá longe do Senhor, mas o
servirá, conservando pensamento puro. Se assim fizeres, poderás levar frutos
para o mundo que está para chegar. Qualquer um que fizer isso, levará
frutos."
QUINTA PARÁBOLA
CAPÍTULO 54
1Eu jejuava, sentado sobre um
monte, e agradecia a Deus tudo o que ele fizera por mim. Então vi o Pastor
sentado junto de mim, dizendo: "Por que vieste aqui tão cedo?" (Eu
respondi): "Senhor, porque estou montando guarda." 2EIe perguntou:
"Que quer dizer guarda?" Eu respondi: "Senhor, estou
jejuando." Ele continuou: "E que jejum é esse que estás
fazendo?" Eu respondi: "Senhor, eu jejuo por costume." 3Ele
disse: "Não sabes jejuar para o Senhor, e esse jejum que fazes é sem
valor." Eu perguntei: "Senhor, por que dizes isso?" Ele
explicou: "Digo-te que não é jejum esse que imaginas fazer. Eu te
ensinarei, porém, qual é o jejum agradável e perfeito para o Senhor." Eu disse:
"Sim, senhor. Tu me farás feliz, se eu puder conhecer o jejum que agrada a
Deus." Então ele explicou: "Escuta. 4Deus não deseja esse jejum
vazio. Com efeito, jejuando desse modo para Deus, não farás nada para a
justiça. Jejua do seguinte modo: 5Não faças nada de mau em tua vida e serve ao
Senhor de coração puro; observa seus mandamentos, andando conforme seus
preceitos, e que nenhum desejo mau entre em teu coração, e crê em Deus. Se
fizeres isso e o temeres, abstendo-te de toda obra má, viverás em Deus. Se
cumprires essas coisas, farás um jejum grande e agradável ao Senhor."
CAPÍTULO 55
1Escuta a parábola sobre o jejum.
2Um homem possuía um campo e muitos escravos, e mandou plantar uma vinha numa
parte do campo. Ele escolheu um servo muito fiel e estimado, chamou-o e lhe
disse: "Toma conta desta vinha que plantei e, durante minha ausência,
coloca as estacas. Não faças mais nada na vinha. Observa esta minha ordem e
serás livre na minha casa." Então o senhor do escravo saiu de viagem.
3Depois que partiu, o escravo tomou conta e estaqueou. Tendo terminado de
estaquear, viu que a vinha estava cheia de mato. 4Então refletiu e disse:
"Já executei a ordem do senhor. Agora capinarei a vinha, pois capinada
ficará mais bela e, não sendo sufocada pelo mato, produzirá mais fruto.
Decidido, capinou a vinha e arrancou todo o mato que havia nela. Sem o mato que
a sufocava, a vinha ficou mais bela e florescente. 5Depois de certo tempo, o
senhor do campo e do servo voltou. Foi até à vinha e, vendo que estava muito
bem estaqueada, capinada, o mato extirpado e que as videiras floresciam, ficou
muito satisfeito com o trabalho do escravo. 6Chamou então seu filho amado, que
era o herdeiro, e seus amigos conselheiros. Disse-lhes o que ordenara ao
escravo e tudo o que ele vira executado. Eles se alegraram com o escravo, por
causa do testemunho que o patrão dera dele. 7Então o patrão lhe disse:
"Prometi a liberdade a esse escravo, se ele executasse a ordem que lhe
dera. Ele não só executou a ordem, mas fez bom trabalho na vinha, e isso me
agradou muito. Portanto, como recompensa do trabalho que ele realizou, quero
que seja herdeiro junto com meu filho, porque teve uma boa idéia e, ao invés de
descartá-la, a realizou." 8O filho do senhor aprovou a intenção de
designar o escravo como seu co-herdeiro. 9Alguns dias mais tarde, o patrão dava
um banquete e enviou muita comida do banquete ao escravo. Este aceitou a comida
que o senhor lhe enviara, reteve o suficiente para si e distribuiu o resto a
seus companheiros de escravidão.10Os companheiros o receberam, se alegraram e
começaram a rezar para que ele, que os tratara tão bem, recebesse ainda mais
favores do senhor. "0 senhor soube de tudo o que acontecera e de novo se
alegrou muito com a conduta do escravo. Chamou novamente os amigos e o filho e
contou-lhes a respeito da atitude do servo quanto à comida recebida. E eles
concordaram mais ainda que o servo se tornasse herdeiro juntamente com o filho
do senhor."
CAPÍTULO 56
1Eu lhe disse: "Senhor, não
compreendo essas parábolas, nem as poderei entender, se não me
explicares." 2EIe respondeu: "Vou te explicar tudo, e, te
esclarecerei tudo que eu falar. Guarda os mandamentos do Senhor, e lhe serás
agradável e contado entre os que observam seus mandamentos. 3Se fizeres algo de
bom, além do mandamento de Deus, conseguirás glória maior e serás glorificado
junto a Deus, mais do que deverias ser. Portanto, se, observando os mandamentos
de Deus, acrescentares essas boas obras, te alegrarás, se as observares
conforme a minha ordem." 4Eu lhe disse: "Senhor, observarei tudo o
que me indicares, pois sei que estás comigo." Ele me respondeu:
"Estarei contigo, pois tens esse desejo de fazer o bem, e estarei com
todos os que têm o mesmo desejo. 5Se os mandamentos do Senhor são observados,
teu jejum é muito bom. Eis como observarás o jejum que queres praticar: 6Antes
de tudo, guarda-te de toda palavra má, de todo desejo mau, e purifica teu
coração de todas as coisas vãs deste mundo. Se observares isso, teu jejum será
perfeito. 7E jejuarás do seguinte modo: depois de cumprir o que foi escrito, no
dia em que jejuares, não tomarás nada, a não ser pão e água. Calcularás o preço
dos alimentos que poderias comer nesse dia e o porás à parte para dar a uma
viúva, a um órfão ou necessitado e, desse modo, te tornarás humilde. Graças a
essa humildade, quem tiver recebido ficará saciado e rogará ao Senhor por ti.
8Se jejuares como te ordenei, teu sacrifício será aceito por Deus, teu jejum
será anotado, e o serviço, assim realizado, será bom, alegre e bem acolhido
pelo Senhor. 9Observarás isso com teus filhos e toda a tua família. Desse modo,
serás feliz, e todos os que ouvirem esses preceitos e os observarem, serão
felizes e receberão do Senhor as coisas que pedirem."
CAPÍTULO 57
1Eu lhe pedi insistentemente que
me explicasse o sentido simbólico do campo, do senhor, da vinha, do escravo que
estaqueara a vinha, do filho e dos amigos conselheiros, pois compreendera que
tudo isso era uma parábola. 2Ele me respondeu: "És muito ousado em tuas
perguntas! De modo algum deves perguntar, pois, se alguma coisa se deve
explicar a ti, será explicada." Eu lhe disse: "Senhor, tudo o que me
mostrares sem explicar, será inútil que eu veja, pois não compreenderei o que
significa. Da mesma forma, se me contas parábolas sem explicá-las, terei ouvido
em vão alguma coisa de ti." 3De novo, ele me respondeu, dizendo:
"Todo servo de Deus que tem o Senhor em seu coração, pode lhe pedir a
compreensão e obtê-la. Ele poderá, então, explicar qualquer parábola e, graças
ao Senhor, tudo o que for dito em parábolas será compreensível para ele. Os
indolentes e preguiçosos para a oração, porém, vacilam em pedir ao Senhor. 4O
Senhor é misericordioso e atende todos os que lhe pedem sem hesitação. Tu,
porém, que foste fortificado pelo anjo glorioso e dele recebeste essa oração, e
não és preguiçoso, por que não pedes a compreensão? Tu a receberás." 5Eu
repliquei: "Senhor, tendo a ti comigo, tenho necessidade de te pedir e
perguntar. Com efeito, tu me mostras tudo e falas comigo. Se eu visse ou
ouvisse essas coisas sem ti, pediria ao Senhor que as explicasse a mim".
CAPÍTULO 58
1 Ele continuou: "Já te
disse, e não faz muito, que és esperto e ousado para pedir explicação das
parábolas. Como és tão perseverante, vou te explicar o sentido simbólico do
campo e de tudo o mais que o acompanha, para que possas explicá-lo a todos.
Escuta, portanto, e compreende. 2O campo é este mundo, e o dono do campo é
aquele que criou todas as coisas, que as organizou e lhes deu força. O filho é
o Espírito Santo, e o escravo é o Filho de Deus. As videiras são o povo, que
ele mesmo plantou. 3As estacas são os santos anjos do Senhor, que protegem o
seu povo. O mato arrancado da vinha são as iniqüidades dos servos de Deus. A
comida do banquete que ele enviou ao escravo são os mandamentos que ele deu por
meio de seu filho. Os amigos e conselheiros, são os primeiros santos anjos
criados. A viagem do senhor é o tempo que resta para a sua parusia." 4Eu
lhe perguntei: "Senhor, tudo isso é grande, admirável e glorioso. Como
poderei, Senhor, compreender essas coisas por mim mesmo? Nenhum outro homem,
ainda que fosse muito inteligente, poderia compreendê-las. Explica-me ainda,
Senhor, o que vou perguntar." 5Ele disse: "Se desejas alguma
explicação, podes pedi-Ia." Eu perguntei: "Senhor, por que o Filho de
Deus aparece na parábola sob forma de escravo?"
CAPÍTULO 59
1 Ele respondeu: "Escuta. O
Filho de Deus não aparece sob a forma de escravo, mas com grande poder e
soberania." Eu disse: "Como, senhor? Não compreendo." 2Ele
continuou: "Porque Deus plantou a vinha, isto é, criou o seu povo e o
entregou a seu Filho, e o Filho estabeleceu os anjos sobre eles para guardá-los
individualmente. Ele próprio purificou os pecados deles, trabalhando muito e
suportando muitas fadigas, pois ninguém pode capinar uma vinha sem trabalho e
fadiga. 3Ele, portanto, tendo purificado os pecados do povo, ensinou os
caminhos da vida, dando-lhes a lei, que recebera de seu Pai. Observa que ele é
o senhor do povo, porque recebeu todo o poder do seu Pai. 4Escuta por que o
senhor nomeou seu filho conselheiro e os anjos gloriosos para decidir a herança
que deveria ser dada ao escravo. 5Deus fez habitar na carne que ele havia
escolhido o Espírito Santo preexistente, que criou todas as coisas. Essa carne,
em que o Espírito Santo habitou, serviu muito bem ao Espírito, andando no
caminho da santidade e pureza, sem macular em nada o Espírito. 6Ela se portou
digna e santamente, participou dos trabalhos do Espírito e colaborou com ele em
todas as coisas. Comportou-se com firmeza e coragem e, por isso, Deus a
escolheu como companheira do Espírito Santo. Com efeito, a conduta dessa carne
agradou a Deus, pois ela não se maculou na terra, enquanto possuía o Espírito
Santo. 7Ele tomou então o Filho e os anjos gloriosos por conselheiros, para que
essa carne, que tinha servido ao Espírito irrepreensivelmente, obtivesse um
lugar de repouso e não parecesse ter perdido a recompensa pelo seu serviço.
Toda carne em que o Espírito Santo habitou e que for encontrada pura e sem
mancha, receberá sua recompensa. 8Aí tens a explicação dessa parábola."
CAPÍTULO 60
1 Eu disse: "Senhor, fiquei
contente em ouvir a explicação." Ele disse: "Escuta agora. Guarda tua
carne pura e sem mancha; para que o espírito, que nela habita, dê testemunho em
favor dela e assim seja justificada. 2Cuida para que nunca entre em teu coração
a idéia de que tua carne é perecível. E cuidado para não abusar dela com alguma
impureza. Se manchas tua carne, mancharás também o Espírito Santo. Portanto, se
manchas tua carne, não viverás." 3Eu perguntei: "Senhor, se tiver
havido alguma ignorância antes que essas palavras tivessem sido ouvidas, como
se pode salvar o homem que manchou a sua carne?" Ele respondeu:
"Quanto às ignorâncias anteriores, somente Deus pode conceder a cura, pois
ele tem todo o poder. 4Agora, porém, estejas atento, e o Senhor, em sua grande
misericórdia, as curará, se doravante não manchares nem tua carne, nem teu
espírito, pois os dois vão juntos e não podem manchar-se um sem o outro.
Portanto, conserva os dois puros, e viverás em Deus."
SEXTA PARÁBOLA
CAPÍTULO 61
1 Sentado em casa, eu glorificava
ao Senhor por tudo que tinha visto, e meditava sobre os mandamentos,
descobrindo que eles são bons, fortes, alegres, gloriosos e capazes de salvar a
alma do homem. E dizia a mim mesmo: "Serei feliz, se caminhar conforme
esses mandamentos, e qualquer um que andar nesse caminho também será
feliz." 2Enquanto dizia isso a mim mesmo, de repente vi o pastor ao meu
lado dizendo: "Por que duvidas a respeito dos mandamentos que te dei? Eles
são bons. Não duvides em nada. Ao contrário, reveste-te da fé do Senhor e
andarás em seus caminhos, porque eu te fortificarei neles. 3Esses mandamentos
são úteis para os que farão penitência, porque, se não andarem nesse caminho,
sua penitência será inútil. 4 Vês, portanto, que fazeis penitência, rejeitai os
males deste mundo, que vos aniquilam. Revestidos de toda a virtude de justiça,
podereis observar os meus preceitos, mas não acrescenteis pecados aos vossos
pecados. Se não acrescentardes mais pecados, cancelarei os vossos pecados
passados. Caminhai, portanto, conforme os meus mandamentos, e vivereis em Deus.
Todas essas coisas vos foram ditas por mim." 5Depois de me dizer isso, ele
acrescentou: "Vamos ao campo, e te mostrarei os pastores das ovelhas."
Eu disse: "Vamos, senhor." Fomos para uma planície, e ele me mostrou
um jovem pastor, vestido com roupa amarela. 6Apascentava numerosas ovelhas, as
quais viviam de modo voluptuoso e dissoluto, saltando alegremente de cá para
lá. O pastor também estava muito satisfeito com seu rebanho; sua fisionomia era
alegre, e ele andava de um lado para o outro, no meio das ovelhas. Vi também
outras ovelhas juntas, dissolutas e voluptuosas; mas estas não saltavam.
CAPÍTULO 62
1 Então ele me perguntou:
"Vês esse pastor?" Eu respondi: "Vejo, senhor." Ele
continuou: "E o anjo da volúpia e do erro. Ele aniquila as almas dos
servos de Deus que são vazios, desviando-os da verdade e enganando-os com maus
desejos, nos quais eles morrem. 2De fato, eles esquecem os mandamentos do Deus
vivo e caminham nos enganos e volúpias vãs, e são destruídos por esse anjo:
alguns morrem, outros se corrompem." 3Eu lhe disse: "Senhor, não sei
o que é essa morte e essa corrupção." Ele respondeu: "Escuta. Todas
as ovelhas que viste muito alegres e saltitantes são os que se separaram
definitivamente de Deus e se entregaram às paixões deste mundo. Para eles não
há mais penitência para a vida, porque, além de tudo, blasfemaram contra o nome
do Senhor. Para eles, portanto, resta apenas a morte. 4Aquelas que viste,
pastando no mesmo lugar sem saltitar, são os que se entregaram às volúpias e
aos enganos, mas sem blasfemar contra o Senhor. Corromperam-se longe da
verdade. Para eles, portanto, existe esperança de penitência, a fim de que
possam viver. A corrupção conserva ainda alguma esperança de restauração, ao
passo que a morte implica em perdição eterna." 5Avançamos um pouco, e ele
me mostrou um pastor de porte alto e de aspecto selvagem, vestido com pele
branca de cabra, com bornal nas costas, e na mão um cajado rude e cheio de nós
e um grande chicote. Seu olhar era tão severo que me infundiu medo. Assim era o
seu olhar! 6Esse pastor recebia do pastor jovem as ovelhas dissolutas e
voluptuosas, mas que não saltitavam. Ele as impelia para lugar escarpado, cheio
de espinhos e cardos, e as ovelhas não conseguiam livrar-se dos espinhos e dos
cardos, pois ficavam emaranhadas neles. 7Pastavam presas, entre os espinhos e
cardos, e sofriam muito, açoitadas pelo pastor, o qual as fazia andar de cá
para lá, sem lhes dar descanso, e elas jamais se tranqüilizavam.
CAPÍTULO 63
1 Ao vê-Ias assim flageladas e
atormentadas, fiquei triste por elas, porque assim torturadas não tinham nenhum
tipo de trégua. 2Então perguntei ao pastor que conversava comigo: "Senhor,
quem é esse pastor tão cruel e severo, que não tem nenhuma piedade dessas
ovelhas?" Ele respondeu: "Esse é o anjo do castigo. Ele é justo, mas
foi encarregado do castigo. 3Ele recebe aqueles que vagueiam longe de Deus e
que seguiram o caminho dos desejos e enganos deste mundo. Ele os pune conforme
cada um merece, com castigos terríveis e variados." 4Eu pedi:
"Senhor, eu desejaria saber quais são esses diversos castigos." Ele
continuou: "Escuta quais são as diversas provações e castigos. As provações
são as da vida. Alguns são castigados com prejuízos, outros pela indigência
outros por doenças diversas, outros por alguma insegurança e outros ainda são
injuriados por pessoas indignas e têm que sofrer muitas outras calamidades. 5De
fato, incertos em suas intenções, muitos se lançam a muitas coisas, mas em nada
conseguem sucesso. Dizem que não são felizes em seus negócios e não lhes entra
no coração que cometeram ações más; ao contrário, acusam o Senhor. 6Quando são
atribulados por essas provações, são entregues a mim para uma boa reeducação.
Eles se reforçam na fé do Senhor e o servem, de coração puro, pelo resto de
seus dias. Quando fazem penitência, as obras más que praticaram lhes entram no
coração e então eles glorificam a Deus, porque é juiz justo e porque cada um
sofreu justamente por suas próprias ações. Doravante, eles servem ao Senhor de
coração puro e têm sucesso em tudo o que fazem, pois recebem do Senhor tudo o
que pedem. Então eles glorificam ao Senhor, por terem sido entregues a mim, e
já não sofrem mal nenhum".
CAPÍTULO 64
1 Eu lhe disse: "Senhor,
explica-me ainda esse ponto." Ele perguntou: "O que procuras
ainda?" Eu continuei: "Senhor, os voluptuosos e transviados são
atormentados por tanto tempo quanto aquele em que foram voluptuosos e transviados?"
Ele respondeu: "São atormentados durante tempo igual." 2Observei:
"Senhor, são atormentados por pouquíssimo tempo. Com efeito, seria preciso
que as pessoas que vivem assim na volúpia e se esquecem de Deus, fossem
torturadas por tempo sete vezes maior." 3Ele me disse: "Insensato!
Não conheces a força do tormento." Eu respondi: "Senhor, se eu
conhecesse, não pediria explicação." Ele continuou: "Escuta qual é a
força de uma e outra coisa. 4O tempo da volúpia e do engano é de uma hora; mas
uma hora de tormento tem a força de trinta dias. Passando um dia na volúpia e
no engano, e um dia nos tormentos, esse dia de tormento vale por um ano
inteiro. A pessoa é atormentada por tantos anos quantos dias passou na volúpia.
Vês, portanto, que o tempo da volúpia e do engano é mínimo, mas o do castigo e
do tormento é longo."
CAPÍTULO 65
1Eu disse: "Senhor, não
compreendi inteiramente os tempos do engano, da volúpia e do tormento.
Explica-me com mais clareza." Ele respondeu: 2"Tua insensatez é
insistente e não queres purificar teu coração e servir a Deus. Cuidado para que
o tempo não se cumpra e sejas encontrado insensato. Ouve, portanto, para
compreender o que desejas. 3Aquele que vive um dia na volúpia e no engano,
fazendo o que quer, reveste-se de muita insensatez e não percebe a ação que
faz. No dia seguinte, esquece o que fez no dia anterior. A volúpia e o engano
não têm memória, por causa da insensatez de que se revestem. Quando, porém, o
castigo e o tormento se ligam ao homem por um dia, é durante um ano todo que
ele é castigado e atormentado, pois o castigo e o tormento têm grande memória.
4Atormentado e castigado durante um ano inteiro, ele se lembra então da volúpia
e do engano, e reconhece que é por causa deles que sofre esses males. Todo
homem que vive na volúpia e no engano é assim atormentado, porque, possuindo a
vida, ele se entregara à morte." 5Eu perguntei: "Senhor, quais são as
volúpias perniciosas?" Ele respondeu: "Tudo o que o homem faz com
prazer, é volúpia. Assim o colérico, fazendo aquilo que é conforme a sua paixão,
é voluptuoso. O mesmo acontece com o adúltero, o bêbado, o maledicente, o
mentiroso, realizando aquilo que é conforme à sua própria doença, se entrega
por esse ato à volúpia. 6Todas essas volúpias são más para os servos de Deus.
Portanto, é por causa desses enganos que sofrem aqueles que são castigados e
atormentados. 7Contudo, há também volúpias que salvam os homens, pois muitos
experimentam volúpia em fazer o bem: são impulsionados pelo próprio prazer.
Essa é volúpia proveitosa para os servos de Deus e traz vida para o homem. As
volúpias perniciosas, de que falamos antes, só lhe trazem tormentos e castigos.
Caso se obstinem e não se arrependam, acarretam a morte para si mesmos."
SÉTIMA PARÁBOLA
CAPÍTULO 66
1 Poucos dias depois, vi o pastor
na mesma planície onde tinha visto também os pastores, e ele me perguntou:
"O que procuras ainda?" Respondi: "Senhor, estou aqui a fim de
te pedir que mandes o pastor justiceiro sair da minha casa, pois ele me
atribula muito." Ele disse: "É preciso que sejas atribulado. Com
efeito, foi assim que o anjo glorioso ordenou a respeito de ti. Ele quer que
sejas provado." Perguntei: "Senhor, o que fiz de tão mau, para ser
entregue a esse anjo?" 2Ele respondeu: "Escuta. Teus pecados são
numerosos, mas não tanto para que sejas entregue a esse anjo. Todavia, tua
família cometeu grandes pecados e iniqüidades, e o anjo glorioso ficou irritado
com as obras deles e, por isso, ordenou que sejas atribulado por algum tempo.
Dessa forma, eles farão penitência e se purificarão de todo desejo deste mundo.
Quando se tiverem arrependido e purificado, o anjo do castigo se
afastará." 3Perguntei-lhe: "Senhor, se foram eles que fizeram essas
coisas para irritar o anjo glorioso, que fiz eu? Ele respondeu: "E que não
há outro modo para que eles sejam atribulados, se tu, chefe da família, não
sofreres tribulação. Porque sendo tu atribulado, eles forçosamente o serão
também, mas, se tiveres prosperidade, nenhuma tribulação poderá
atingi-los." 4Eu repliquei: "Senhor, eles já fizeram penitência de
todo o coração." Ele respondeu: "Eu sei muito bem que eles fizeram
penitência do fundo do coração. Você pensa que os pecados daqueles que fazem
penitência são imediatamente remidos? De modo algum. E preciso que aquele que
fez penitência prove sua própria alma, se humilhe profundamente em tudo o que
faz e passe por muitas e variadas tribulações. Se ele suportar as tribulações
que lhe sobrevierem, aquele que tudo criou e fortaleceu terá compaixão dele e
lhe concederá a cura. 5Isso acontecerá seguramente, se ele vir puro de toda
coisa má o coração do penitente. E, portanto, proveitoso a ti e à tua família
passar agora por tribulações. Mas, por que estou falando tanto? Tens que passar
por tribulações, conforme ordenou esse anjo do Senhor que te confiou a mim. Agradece
ao Senhor por julgar-te digno de te mostrar previamente a tribulação. Dessa
forma, conhecendo-a de antemão, tu a suportarás valorosamente." 6Eu lhe
pedi: "Senhor, fica comigo, e eu poderei suportar qualquer
tribulação." Ele respondeu: "Eu estarei contigo, e pedirei ao anjo
justiceiro para te atribular mais suavemente. Todavia, serás atribulado por
pouco tempo, e depois serás restabelecido em teu lugar. Continua, porém, a te
humilhar e a servir ao Senhor de coração puro - tu, teus filhos e tua família -
e anda conforme os meus mandamentos que te dei. Desse modo, tua penitência
poderá ser firme e pura. 7Se observares isso com tua família, toda tribulação
se afastará de ti. E a tribulação também se afastará de todos os que andarem
conforme os meus mandamentos."
OITAVA PARÁBOLA
CAPÍTULO 67
1Ele me mostrou um grande
salgueiro, que cobria planícies e montanhas, e ao abrigo do salgueiro tinham-se
recolhido todos os que são chamados pelo nome do Senhor. 2Debaixo do salgueiro,
estava de pé o anjo glorioso do Senhor, com enorme estatura. Tinha uma grande
foice, e cortava ramos do salgueiro e as dava à multidão abrigada debaixo do
salgueiro. Os ramos que entregava eram pequenos, com cerca de meio metro.
3Depois de todos terem recebido seu ramo, o anjo deixou a foice, e a árvore
estava inteira, da mesma forma como eu a vira. 4Eu me admirava e dizia a mim
mesmo: "Como é possível que, depois de tantos ramos cortados, a árvore
esteja inteira?" O pastor me disse: "Não te admires que essa árvore
permaneça inteira, depois que tantos ramos foram cortados. Espera e, depois de
ver tudo, te será explicado o que significa isso." 5O anjo que entregara
os ramos à multidão, pediu-os de novo. Pedia-os na ordem segundo a qual eles os
haviam recebido, e cada um entregava seu ramo. O anjo do Senhor os tomava e os
examinava. 6De alguns, ele recebia ramos secos e roídos como por vermes, e aos
que entregavam tais ramos o anjo dizia que formassem um grupo à parte. 7Outros
entregavam ramos secos, mas não roídos por vermes. Também a estes o anjo dizia
que formassem um grupo separado. 8Outros os entregavam meio secos, e também
estes formavam um grupo separado. 9Outros entregavam seus ramos meio secos e
fendidos, e também estes formavam um grupo separado. 10Outros entregavam seus
ramos verdes e fendidos, e também estes formavam um grupo separado. 11Outros
entregavam ramos com metade seca e metade verde, e também esses formavam um
grupo separado. 12Outros devolviam seus ramos, dois terços verdes e secos no
resto, e também estes formavam um grupo separado. 13Outros entregavam seus
ramos, dois terços secos, e verdes no resto, e também estes formavam um grupo
separado. 14Outros entregavam seus ramos quase completamente verdes; apenas uma
pequena parte dos seus ramos estava seca, bem na ponta, mas estavam fendidos. E
também estes formavam um grupo separado. 15 Os ramos de alguns outros tinham
apenas uma pequena ponta verde e o resto estava seco, e também estes formavam
um grupo separado. 16Outros vinham com os ramos verdes, como os tinham recebido
do anjo. A maior parte da multidão entregava ramos assim, e o anjo alegrava-se
muito com isso. E também estes formavam um grupo separado. 17Outros entregavam
seus ramos verdes com brotos novos, e também estes formavam um grupo separado,
e o anjo ficava muito alegre com eles. 18Outros entregavam seus ramos verdes e
com brotos, os quais traziam uma espécie de fruto. Os homens, cujos ramos foram
encontrados assim, estavam muito alegres. Também o anjo se alegrava com eles, e
igualmente o pastor estava muito alegre com eles.
CAPÍTULO 68
1O anjo do Senhor ordenou que
trouxessem coroas, e foram trazidas coroas que pareciam feitas de palmas. Então
coroou os homens que haviam entregue os ramos que tinham brotos e uma espécie
de fruto, e enviou-os para a torre. 2Também enviou para a torre aqueles que
haviam entregue os ramos com brotos, mas sem fruto, dando-lhes um selo. 3Todos
os que iam para a torre vestiam roupas brancas como a neve. 4Enviou também
aqueles que tinham entregue os ramos verdes como os haviam recebido, dando-lhes
roupas brancas e o selo. 5Ao terminar isso, o anjo disse ao pastor: "Eu
também vou. Conduze tu para dentro das muralhas os que são dignos de habitar
aí. Examina com cuidado seus ramos, e depois os conduze. Examina
cuidadosamente. Atenção para que ninguém te escape, pois, se alguém escapar, eu
mesmo julgarei junto ao altar." Dito isso ao pastor, foi embora. 6Depois
que o anjo saiu, o pastor me disse: "Tomemos os ramos de todos e os
plantemos, para ver se alguns dentre eles viverão." Eu lhe perguntei:
"Senhor, como esses ramos secos viverão?" 7Ele me respondeu:
"Esta árvore é salgueiro, e é cheia de vida por natureza. Plantando esses
ramos, muitos deles viverão, se receberem um pouco de umidade. Por isso,
procurarei água para regá-los. Se algum deles viver, eu me alegrarei com ele;
se não viver, não terei sido negligente." 8O pastor me ordenou que os
chamasse conforme estavam agrupados. Eles vieram, grupo por grupo, e entregaram
seus ramos ao pastor. O pastor os tomou e, por grupo, os replantou; depois de
plantados, jogou tanta água neles, de modo que os ramos não apareciam sobre a
água. 9Depois de regar os ramos, disse-me: "Vamos embora. Dentro de poucos
dias, voltaremos para examinar todos esses ramos, pois aquele que criou esta
árvore deseja que vivam todos aqueles que receberam um ramo dela. Quanto a mim,
espero que, encontrando umidade e regados com água, a maioria desses ramos
viverá."
CAPÍTULO 69
1Eu lhe disse: "Senhor,
faze-me compreender o que é essa árvore, pois não entendo como ela, aparada de
tantos ramos, continua inteira, sem parecer em nada que foi aparada. É isso que
eu não entendo." 2Ele me respondeu: "Escuta. Essa grande árvore que
cobre planícies, montanhas e toda a terra, é a lei de Deus dada ao mundo
inteiro, e essa lei é o Filho de Deus anunciado até os confins da terra. Os
povos que se encontram debaixo da árvore são aqueles que ouviram o anúncio e
creram. 3O anjo grande e glorioso é Miguel, que tem o poder sobre esse povo e o
governa. É ele que dá a lei e grava no coração daqueles que crêem. 4Ele
examina, portanto, se aqueles a quem deu a lei, a observaram bem. Vês muitos
ramos inúteis. Reconhecerás entre eles os que não observaram a lei, e verás a
morada de cada um." 5Perguntei-lhe: "Senhor, por que o anjo enviou alguns
para a torre e deixou para ti os outros?" Ele respondeu: "Todos
aqueles que transgrediram a lei que receberam dele foram deixados em meu poder
para fazerem penitência. Todos os outros que se alegraram na lei e a
observaram, ele os tem em seu próprio poder." 6Perguntei: "Senhor,
quem são aqueles que foram coroados e se dirigiram para a torre?" Ele me
respondeu: "Esses coroados são os que lutaram contra o diabo e o venceram;
eles sofreram pela lei. 7Os outros que entregaram seus ramos verdes com brotos
novos, mas sem fruto, foram atribulados por causa da lei, sem entretanto serem
torturados por ela, mas não a renegaram. 8Os que entregaram os ramos verdes
como os haviam recebido, são santos e justos. Caminharam muito de coração puro,
observando os mandamentos do Senhor. Conhecerás o resto, quando eu examinar os
ramos plantados e regados."
CAPÍTULO 70
1Alguns dias depois, voltamos a
esse lugar e o pastor sentou-se no lugar do anjo grande, e eu fiquei ao seu
lado Então ele me disse: "Cinge-te com uma toalha e serve-me.? Eu me cingi
com uma toalha limpa, feita de saco. 2Vendo-me cingido e pronto para servi-lo,
ele me disse: "Chama os homens cujos ramos foram plantados, na mesma ordem
em que cada um o devolveu." Fui até à planície, chamei a todos, e todos os
grupos se apresentaram. 3O pastor lhes disse: "Cada um arranque seu
próprio ramo e o traga a mim." 4 Os primeiros a devolvê-los foram aqueles
cujos ramos estavam secos e corroídos. Como estavam secos e corroídos, ele
mandou que fossem colocados à parte. 5Em seguida, os devolveram os que tinham
os ramos secos, mas não corroídos. Alguns deles os devolveram verdes, e outros,
secos e corroídos como por vermes. Aos que os devolveram verdes, o pastor
mandou formar um grupo separado; aos que os devolveram secos e corroídos, ele
mandou que os colocassem com os primeiros. 6Depois, os devolveram os que os
tinham recebido metade secos e fendidos, e muitos deles os devolveram verdes e
sem fendas; alguns, verdes com brotos novos e frutos nesses brotos, como os
tinham aqueles que foram coroados para a torre. Alguns os devolveram secos e
carcomidos; outros, secos mas não carcomidos; outros ainda, tais como estavam
antes: meio secos e fendidos. E o pastor mandou que eles se separassem, cada um
em seu grupo respectivo, e os outros restantes, à parte.
CAPÍTULO 71
1Em seguida, os devolveram os que
tinham recebido os ramos verdes, mas fendidos. Todos esses os devolveram verdes
e tomaram lugar em seu próprio grupo. O pastor alegrou-se com estes, pois todos
se tinham transformado e livrado de suas fendas. 2Também os devolveram aqueles
que os haviam recebido metade verdes e metade secos. Os ramos de alguns foram
encontrados inteiramente verdes; de outros, metade verdes; de outros, secos e
carcomidos; e de outros ainda, verdes com brotos novos. Todos esses foram
mandados para seus respectivos grupos. 3Em seguida, os devolveram aqueles que
os tinham recebido com dois terços verdes e um terço seco. Muitos deles os
devolveram verdes; muitos outros, metade secos; e outros, secos e carcomidos.
Todos esses foram mandados cada um para seu próprio grupo. 4Em seguida, os
devolveram aqueles que tinham recebido ramos secos em dois terços e verdes no
resto. Muitos deles os devolveram metade secos; alguns, secos e carcomidos; e
alguns ainda, metade secos e fendidos. Muito poucos os devolveram verdes. E
todos esses tomaram lugar em seus respectivos grupos. 5Em seguida, os
devolveram aqueles que tinham recebido ramos verdes, mas com mínima parte seca
e fendida. Desses, alguns os devolveram verdes; e alguns, verdes com brotos
novos. Também esses se foram para seus respectivos grupos. 6Em seguida, os
devolveram aqueles que tinham recebido com mínima parte verde e todo o resto
seco. Os ramos destes, em sua maior parte, foram encontrados verdes, com brotos
novos e com frutos neles; e outros, inteiramente verdes. O pastor se alegrou
muito com esses ramos, por tê-los encontrado assim. E também esses se foram,
cada um para seu próprio grupo.
CAPÍTULO 72
1Depois de examinar os ramos de
todos, o pastor me falou: "Eu lhe disse que esta árvore é cheia de vida.
Vês quantos fizeram penitência e foram salvos?" Eu respondi: "Vejo,
senhor." Ele continuou: "Isso é para que saibas que a misericórdia de
Deus é grande e gloriosa, e como ele deu um espírito àqueles que eram dignos de
fazer Penitência." 2Perguntei:
"Senhor, então, por que nem todos fizeram penitência?" Ele respondeu:
"O Senhor concedeu a penitência àqueles cujo coração ele viu que estava
pronto para se purificar e que haviam de servi-lo de todo o coração. Contudo,
àqueles nos quais viu a perfídia e a maldade e que iriam arrepender-se apenas
hipocritamente, ele não concedeu a penitência, para que não blasfemassem
novamente sua lei." 3Eu lhe pedi: "Senhor, explica-me quem é cada um
daqueles que te devolveram os ramos, e a morada que lhes cabe. Desse modo, após
terem ouvido, aqueles que acreditaram e receberam o selo, mas que o quebraram e
não o preservaram inteiro, reconhecerão suas obras, farão penitência e
receberão de ti um selo. Assim glorificarão o Senhor, por ter usado piedade com
eles e te haver enviado para renovar seus espíritos." 4Ele explicou:
"Escuta. Aqueles cujos ramos foram encontrados secos e carcomidos por
vermes, são os apóstatas e traidores da Igreja que, com seus pecados,
blasfemaram o Senhor e que ainda se envergonharam do nome do Senhor invocado
sobre eles. Tais indivíduos estão definitivamente mortos para Deus. Vês que
nenhum deles fez penitência, embora tenham ouvido as palavras que lhes
transmitiste, sob minha ordem. A vida, portanto, foi tirada desses homens.
5Aqueles que devolveram os ramos secos, mas não apodrecidos, estão próximos dos
anteriores: eram hipócritas que introduziam ensinamentos errados, que desviavam
os servos de Deus e sobretudo os pecadores, não lhes permitindo fazer
penitência, mas persuadindo-os com ensinamentos loucos. Todavia, esses têm
esperança de fazer penitência. 6Vês que muitos dentre eles já fizeram
penitência, desde quando lhes falaste sobre os meus preceitos. Outros ainda
farão penitência, e todos aqueles que não fizerem penitência, já perderam a
vida. Aqueles que fizeram penitência tornando-se bons, têm sua morada nas
primeiras muralhas; alguns subiram à torre. Vês, portanto, que a penitência dos
pecadores traz vida, e a impenitência, traz morte."
CAPÍTULO 73
1 Escuta também sobre aqueles que
devolveram os ramos metade secos e fendidos. Aqueles cujos ramos estavam
somente secos pela metade, são os que duvidam; não estão nem vivos nem mortos.
2Os que os tinham secos pela metade e fendidos, são os que duvidam e murmuram,
e que nunca estão em paz entre si, mas sempre em discórdia. Também esses ainda
têm possibilidade de fazer penitência. Vês que alguns deles já fizeram
penitência e ainda há esperança de penitência para eles. 3Todos os que dentre
eles fizeram penitência, têm sua morada na torre. Aqueles, porém, que se
arrependerem demasiadamente tarde, habitarão nos muros; aqueles que não fizerem
penitência, persistindo em suas ações, certamente morrerão. 4Aqueles que
devolveram ramos verdes, mas fendidos, sempre foram fiéis e bons, mas têm entre
si inveja pelos primeiros lugares e por alguma honraria. Todos eles são loucos
em rivalizarem entre si pelos primeiros lugares. 5Todavia, depois de terem
ouvido meus mandamentos, como eram bons, eles se purificaram e logo fizeram penitência.
A morada deles foi na torre. Contudo, se um deles voltar novamente à discórdia,
será expulso da torre e perderá a própria vida. 6A vida pertence a todos os que
observam os mandamentos do Senhor. Ora, nesses mandamentos nada se diz de
primeiros lugares, nem de alguma honraria, mas fala-se da paciência e humildade
do homem. Nessas pessoas, portanto, está a vida do Senhor; nos que provocam
discórdia e violam a lei, está a morte."
CAPÍTULO 74
1 "Aqueles que devolveram
seus ramos metade verdes e metade secos, são os que estavam imersos em seus
negócios e não se juntavam aos santos. Por isso, metade neles estava viva, e
metade estava morta. 2Todavia, depois de terem ouvido meus mandamentos, fizeram
penitência e foram morar na torre. Alguns outros se afastaram definitivamente,
e não têm possibilidade de fazer penitência. Com efeito, por causa de seus
negócios, eles blasfemaram o Senhor e o renegaram. Portanto, perderam a vida,
por causa da maldade que praticaram.
3 Muitos dentre eles são
vacilantes; esses ainda têm possibilidade de fazer penitência, se logo se
arrependerem, e sua morada será na torre. Se levarem demasiado tempo para
fazerem penitência, irão morar nas muralhas; se não fizerem penitência, também
eles já terão perdido a vida. 4Aqueles que devolveram os ramos dois terços
verdes e no resto secos, são aqueles que renegaram de diversas formas. 5Muitos
deles fizeram penitência e foram morar na torre. Outros se afastaram
definitivamente de Deus; esses perderam definitivamente a vida. Alguns deles duvidaram
e provocaram discórdia; estes ainda têm possibilidade de fazer penitência, se a
fizerem logo, sem persistir em seus prazeres. Mas, se eles se obstinarem em
suas ações, estarão trabalhando para a própria morte."
CAPÍTULO 75
1 "Aqueles que devolveram
ramos com dois terços secos e no resto verdes, são os que foram fiéis, mas que
se enriqueceram e adquiriram honra entre os pagãos. Revestiram-se de grande
orgulho, tornaram-se arrogantes, abandonaram a verdade e se separaram dos
justos. Ao contrário, conviveram com os pagãos, e esse caminho lhes pareceu
mais agradável. Eles não se afastaram de Deus, permaneceram na fé, mas não
praticaram as obras da fé. 2Muitos deles fizeram penitência e tiveram sua
morada na torre. 3Outros, convivendo inteiramente com os pagãos e arrastados
pelas suas glórias vãs junto aos pagãos, afastaram-se de Deus e praticaram as
obras dos pagãos; esses foram contados como pagãos. 4Outros entre eles ficaram
na dúvida, porque não esperavam mais ser salvos, por causa das ações que haviam
praticado. Outros ainda, não só duvidaram, mas fomentaram divisões entre si.
Para esses indivíduos e para aqueles que permaneceram na dúvida por causa de
suas ações, ainda há possibilidade de penitência. Mas a sua penitência deve ser
rápida, para que a morada deles seja dentro da torre. Para os que não fazem
penitência, mas permanecem nos seus prazeres, a morte está próxima."
CAPÍTULO 76
1 "Os que devolveram ramos
verdes, mas com a ponta seca e fendida, são os que sempre foram bons, fiéis e
gloriosos junto de Deus, mas pecaram um pouco, por leve concupiscência e leves
rancores mútuos. Depois de ouvirem minhas palavras, a maioria deles
arrependeu-se logo, e tiveram sua morada na torre. 2Alguns duvidaram, e outros,
por causa de sua dúvida, promoveram maiores divisões. Estes ainda têm esperança
de penitência, pois sempre foram bons; é difícil que um deles morra. 3Aqueles
que devolveram seus ramos secos e com uma pequenina parte verde, são os que
apenas creram, mas praticaram as obras da iniqüidade. Nunca se afastaram de
Deus, levaram com alegria o Nome, e receberam com alegria os servos de Deus em
sua casa. Ouvindo o anúncio desta penitência, arrependeram-se sem hesitação e
praticam toda a virtude da justiça. 4Alguns até sofrem e são atribulados com
alegria, pois conhecem as ações que praticaram. A morada de todos esses será na
torre."
CAPÍTULO 77
1 Quando terminou de explicar
acerca de todos os ramos, o pastor me disse: "Vai e dize a todos que façam
penitência, e viverão em Deus. De fato, o Senhor teve compaixão, e me enviou
para oferecer a ocasião de penitência a todos, embora alguns, por causa de suas
obras, sejam indignos da salvação. O Senhor, porém, é paciente e quer que o
chamado feito pelo Filho não seja invalidado." 2Eu lhe disse: "Senhor,
espero que, depois de ouvir essas coisas, todos farão penitência. Estou
persuadido de que cada um, conhecendo suas ações e temendo a Deus, faça
penitência." 3Ele me respondeu: "Todos os que se arrependerem do
fundo do coração, se purificarem dos pecados anteriormente assinalados e não
acrescentarem mais nada a seus pecados, receberão do Senhor a cura de seus
pecados passados, se não duvidarem a respeito desses mandamentos; então eles
viverão em Deus. Todos aqueles, porém, que aumentarem seus pecados e caminharem
nas paixões deste mundo, se condenarão à morte. 4Quanto a ti, caminha segundo
os meus mandamentos e viverás em Deus. Do mesmo modo, aquele que andar no
caminho dos mandamentos e os praticar retamente, viverá em Deus." 5Depois
de meter mostrado tudo isso, ele me disse: "O resto, eu te explicarei
dentro de poucos dias."
NONA PARÁBOLA
CAPÍTULO 78
1 Depois que escrevi os
mandamentos e as parábolas do pastor, anjo da penitência, ele veio a mim e
disse: "Quero te mostrar tudo o que te mostrou o Espírito Santo, que te
falou na figura da Igreja. Esse Espírito é o Filho de Deus. 2Estavas muito
fraco na carne e, por isso, não te foi revelado por meio de anjo. Contudo,
quando ficaste fortalecido pelo Espírito e tu mesmo tiveste a força para
poderes ver um anjo, então te foi revelada, por meio da Igreja, a construção da
torre. Viste bem e santamente, qual uma virgem, todas as coisas. Agora, graças
a um anjo, vês por meio do próprio Espírito. 3E preciso que compreendas tudo,
por meu intermédio, de modo mais preciso. O anjo glorioso me conferiu a missão
de habitar em tua casa, para que vejas tudo com coragem, e não mais com
apreensão, como antes." 4Então me transportou para a Arcádia, sobre um
monte de forma cônica. Fez-me sentar no topo da montanha, e me mostrou uma
grande planície e, ao redor da planície, outras doze montanhas, cada uma com
aspecto diferente. 5A primeira era negra como fuligem; a segunda, seca e sem
vegetação; a terceira, cheia de espinhos e cardos; 6a quarta, com vegetação
meio seca, verde na parte de cima e seca junto às raízes; quando o sol
brilhava, parte da vegetação secava. 7A quinta montanha era muito rochosa, mas
tinha vegetação verde. A sexta montanha estava cheia de fendas, algumas
pequenas, outras grandes; nas fendas havia vegetação, mas não era muito
verdejante: parecia antes estar murcha. 8A sétima montanha tinha vegetação
cheia de viço e a montanha toda era exuberante; todas as espécies de rebanhos e
aves se alimentavam sobre a montanha e, quanto mais os rebanhos e aves comiam,
tanto mais a vegetação brotava da montanha. A oitava montanha estava cheia de
fontes, e todas as espécies da criação do Senhor vinham beber nessas fontes da
montanha. 9 A nona montanha não tinha água nenhuma, e estava completamente
deserta; havia nela animais selvagens e répteis mortíferos, que provocam a
morte dos homens. Na décima montanha havia árvores gigantes e estava coberta de
sombras; debaixo das sombras estavam deitadas muitas ovelhas, que repousavam e
ruminavam. 10A décima primeira montanha era coberta de árvores, as quais eram
frutíferas e carregadas de frutas de toda espécie, e quem as via, desejava
comê-las. A décima segunda montanha era inteiramente branca; seu aspecto era
muito exuberante, e a montanha em si mesma era belíssima.
CAPÍTULO 79
1 No meio da planície, ele me
mostrou uma grande rocha branca que se erguia da planície. Era mais alta que as
montanhas, e quadrada, de modo a conter o mundo inteiro. 2A rocha era antiga, e
havia nela uma porta escavada, que parecia ter sido escavada recentemente. Resplandecia
mais do que o sol, e eu me maravilhava com tal esplendor. 3Ao redor da porta
estavam doze virgens. As quatro que havia nos cantos me pareciam mais
gloriosas, mas as outras o eram também. As virgens estavam nos quatro lados da
porta, duas a duas, à meia distância das quatro primeiras. 4Vestiam túnica de
linho, belamente cingidas, com o ombro direito descoberto, como para
transportar algum peso. Estavam prontas, alegres e animadas. 5Vendo isso,
fiquei admirado pelas coisas grandes e gloriosas que via. Além disso, fiquei
perplexo com essas virgens, que eram delicadas, mas que se comportavam
virilmente, como se devessem sustentar todo o céu. 6Então o pastor me disse:
"Em que estás pensando, preocupando-te e causando tristeza a ti mesmo? As
coisas que não consegues compreender, não as trates como se fosses inteligente.
Pede antes ao Senhor que te dê inteligência para compreender essas coisas. 7Não
podes ver o que está atrás de ti, mas vês o que está diante de ti; não te
atormentes pelo que não podes ver. Procura dominar as coisas que vês, e não te
angusties com o resto. Explicarei tudo o que te vou mostrar. Vê, portanto, o
resto."
CAPÍTULO 80
1 Então vi que haviam chegado
seis homens altos, gloriosos e de aspecto semelhante. Chamaram uma multidão de
homens. Estes recém-chegados eram de grande estatura, muito belos e fortes. Os
seis homens lhes deram ordens de construir uma torre sobre a rocha. Os homens
que vieram construir a torre fizeram então grande tumulto, correndo de cá para
lá ao redor da porta. 2As virgens que estavam ao redor da porta diziam aos
homens que apressassem a construção da torre. Elas estendiam as mãos, como se
devessem receber alguma coisa dos homens. 3Os seis homens ordenaram que
subissem pedras de um abismo e se colocassem na construção da torre. Então
subiram dez pedras quadradas e brilhantes, não lavradas. 4 Os seis homens
chamaram as virgens e lhes disseram que carregassem todas as pedras que haviam
de entrar na construção da torre, que as passassem através da porta, e
entregassem aos homens que iriam construir a torre. 5As virgens então
carregaram sobre si, mutuamente, as dez primeiras pedras que haviam subido do
abismo, e as transportaram juntas, pedra por pedra.
CAPÍTULO 81
1 Elas carregavam as pedras na
mesma ordem em que estavam ao redor da porta: as virgens que pareciam
vigorosas, se colocavam nos ângulos da pedra; as outras se colocavam dos lados.
E assim carregavam todas as pedras, passando pela porta, conforme lhes fora
ordenado, e as entregavam aos homens na torre, os quais recebiam as pedras e
construíam. 2A torre era construída sobre a grande rocha e em cima da porta. As
dez pedras foram então ajustadas e cobriram toda a rocha, tornando-se, desse
modo, o alicerce da construção da torre. A rocha e a porta suportavam toda a torre.
3Depois das dez pedras, subiram do abismo outras vinte e cinco. Elas também
foram ajustadas à construção, carregadas pelas virgens como as anteriores.
Depois, subiram trinta e cinco pedras, que foram igualmente ajustadas à torre.
A seguir, subiram outras quarenta pedras, e todas foram também empregadas na
construção da torre. Desse modo, formaram-se quatro camadas no alicerce da
torre. 4Pararam então de subir do abismo, e os construtores descansaram um
pouco. Depois, os seis homens ordenaram à multidão numerosa que trouxesse
pedras das montanhas, a fim de construir a torre. 5Eram trazidas de todas as
montanhas, de cores variadas, lavradas pelos homens, e entregues às virgens, as
quais as transportavam pela porta e as entregavam para a construção da torre.
Quando essas pedras de cores diferentes eram colocadas na construção,
tornavam-se igualmente brancas, mudando as cores precedentes. 6Algumas pedras
eram entregues aos homens para a construção, mas não se tornavam brilhantes;
continuavam tais como eram antes, pois não tinham sido entregues pelas virgens,
nem tinham passado pela porta. Tais pedras, portanto, destoavam na construção
da torre. 7Os seis homens viram que essas pedras destoavam na construção, e
ordenaram que fossem retiradas, levadas para baixo, para o lugar de onde tinham
sido transportadas. Então disseram aos homens que transportavam as pedras:
"De modo nenhum, não entregueis vós mesmos pedras aos construtores.
Colocai-as perto da torre, para que as virgens, fazendo-as passar pela porta,
as entreguem para a construção. Com efeito, se elas não passarem a porta pelas
mãos das virgens, não poderão mudar suas cores. Portanto, não vos afadigueis em
vão."
CAPÍTULO 82
1 Terminou naquele dia o trabalho
de construção, mas a torre não ficou concluída. Devia-se retomar a construção,
mas houve uma pausa. Os seis homens mandaram que todos os construtores se
retirassem um pouco e descansassem; às virgens, porém, ordenaram que não se
afastassem da torre. Parecia-me que as virgens foram deixadas aí para guardá-la.
2Depois que todos se retiraram para descansar, eu perguntei ao pastor:
"Senhor, por que não foi terminada a construção da torre?" Ele
respondeu: "A torre não pode ser terminada enquanto o seu proprietário não
vier examinar a construção, para trocar as pedras que estiverem corroídas. A
torre foi construída segunda a vontade dele." 3Eu então pedi:
"Senhor, desejaria saber o que significa a construção da torre e a rocha,
a porta, as montanhas, as virgens e as pedras que subiram do abismo, porque não
foram lavradas, mas entraram na construção tais quais eram. 4Também desejaria
saber por que primeiro foram postas no alicerce dez pedras, depois vinte e
cinco, trinta e cinco, e quarenta. E também o que significam as pedras que
entraram na construção e depois foram logo retiradas e recolocadas em seu
lugar. Senhor, tranqüiliza a minha alma sobre tudo isso, e explica-me
tudo." 5Ele respondeu: "Se tua curiosidade não for considerada vã,
conhecerás tudo. Daqui a poucos dias voltaremos aqui, e verás o resto do que
acontecerá a esta torre, e saberás completamente todas as parábolas."
6Poucos dias depois, voltamos ao lugar onde estivéramos sentados, e ele me
disse: "Vamos até à torre, pois o proprietário virá examiná-la."
Então fomos até à torre, e perto dela não havia absolutamente ninguém, exceto
as virgens. 7O pastor perguntou às virgens se o proprietário da torre estava
aí, e elas responderam que ele chegaria para examinar a construção.
CAPÍTULO 83
1 Eis que pouco depois vejo um
cortejo de muitos homens chegando, e no meio deles um homem tão alto que
ultrapassava a torre. 2Os seis homens que trabalharam na construção caminhavam
com ele à direita e à esquerda, e todos os que trabalharam na construção
estavam com ele, e muitos outros, gloriosos, ao seu redor. As virgens que
guardavam a torre correram ao seu encontro, o beijaram e começaram a caminhar
com ele ao redor da torre. 3Esse homem examinava minuciosamente a construção, a
ponto de apalpar pedra por pedra; com um bastão na mão, batia em cada uma das
pedras da construção. 4 À medida que batia nelas, algumas ficavam negras como
fuligem; outras, corroídas, ou fendidas, ou mutiladas, ou nem brancas nem
negras; outras, desiguais, já não se harmonizavam com as demais pedras; e
outras ainda, cheias de manchas. Tais foram as variedades de pedras achadas
inúteis para a construção. 5E ele ordenou retirá-las todas da torre, colocá-las
junto dela e trazer outras para substituí-Ias. 6Os construtores lhe perguntaram
de qual montanha ele queria que tirassem as pedras para colocar no lugar das
outras. Ele ordenou que fossem tiradas, não das montanhas, mas de uma planície
vizinha. 7Cavou-se então a planície e foram encontradas pedras brilhantes,
quadradas, e algumas redondas. Todas as pedras encontradas nessa planície foram
trazidas, e as virgens as transportaram através da porta. 8As pedras quadradas
foram lavradas e colocadas no lugar das que tinham sido tiradas; as redondas
não foram colocadas na construção, porque eram duras, e o trabalho de lavrá-las
era lento. Foram colocadas perto da torre, pois deviam ser lavradas para serem
colocadas na construção, já que eram muito brilhantes.
CAPÍTULO 84
1 Terminando isso, o homem
glorioso e senhor de toda a torre chamou o pastor e lhe entregou todas as
pedras que se achavam perto da torre e que foram tiradas da construção, e lhe
disse: 2"Limpa cuidadosamente todas essas pedras, e emprega na construção
da torre as que se ajustam às outras; as que não se ajustarem, atira-as para
longe da torre." 3Depois de ordenar isso ao pastor, foi embora,
acompanhado de todos os que tinham vindo com ele; as virgens, porém,
permaneceram ao redor da torre, para guardá-la. 4Eu perguntei ao pastor:
"Como podem essas pedras, que foram rejeitadas como indignas, voltar à
construção da torre?" Ele me respondeu: "Vês estas pedras?" Eu
disse: "Sim, senhor, estou vendo." Ele continuou: "Lavrarei a
maior parte delas e as empregarei na construção, e elas se ajustarão às
outras." 5Eu perguntei: "Senhor, como poderão, depois de esquadradas,
preencher o mesmo lugar?" Ele me respondeu: "As que forem achadas
pequenas serão colocadas no interior da construção; as maiores serão colocadas
no lado externo e sustentarão as outras." 6Dito isso, continuou:
"Vamos embora. Dentro de dois dias voltaremos, limparemos essas pedras e
as colocaremos na construção. E preciso limpar tudo ao redor da torre, pois, se
o proprietário vier de improviso e encontrar tudo sujo ao redor da torre,
ficará irritado. Nesse caso, essas pedras não entrariam na construção da torre,
e aos olhos do proprietário eu pareceria negligente." 7Dois dias depois,
voltamos à torre e ele me disse: "Examinemos todas as pedras e vejamos
quais delas podem entrar na construção." Eu respondi: "Sim, senhor,
vamos examiná-las".
CAPÍTULO 85
1 Para começar, examinamos primeiro
as pedras negras. Da forma como foram retiradas da torre, assim as encontramos.
O pastor ordenou que fossem levadas embora da torre e colocadas à parte.
2Depois, examinou as corroídas. Pegou muitas delas, lavrou-as e ordenou que as
virgens as levantassem e as colocassem na construção. As virgens as levantaram
e as colocaram no interior da construção da torre. Ele ordenou então que as
restantes fossem colocadas com as pretas, pois elas também foram encontradas
pretas. 3Em seguida, examinou as fendidas. Lavrou muitas e mandou que as
virgens as levassem para a construção. Puseram-nas, porém, no lado externo,
pois eram mais sólidas. As outras, como tinham muitas fendas, não puderam ser
lavradas e, por isso, foram excluídas da construção da torre. 4Examinou depois
as mutiladas. Entre elas se encontraram muitas pedras pretas, e algumas com
grandes fendas, e ele mandou que também essas fossem colocadas com as
rejeitadas. Quanto às restantes, ele as limpou, lavrou e mandou colocar na
construção. As virgens as levantaram e as ajustaram no meio da construção, pois
eram muito fracas. 5Depois, examinou as meio brancas e meio pretas, e muitas
delas foram encontradas pretas. Mandou que também essas fossem levantadas e
colocadas junto com as que tinham sido rejeitadas. Todas as outras foram
levantadas pelas virgens. Como eram brancas, foram ajustadas à construção pelas
próprias virgens. Foram postas no lado externo da muralha, pois foram
encontradas sólidas, de modo que podiam sustentar as que eram colocadas no
meio. Nada foi cortado delas.
6 Em seguida, examinou as que
eram duras e ásperas, e algumas delas foram rejeitadas; não era possível
lavra-las, porque eram muito duras. As outras foram lavradas, levantadas pelas
virgens, e ajustadas no interior da construção da torre, pois eram mais fracas.
7Em seguida, ele examinou as que tinham manchas, e delas poucas ficaram pretas
e foram rejeitadas com as outras. As que restaram foram encontradas brilhantes
e sólidas, ajustadas pelas virgens à construção; foram colocadas no lado
externo, porque eram resistentes.
CAPÍTULO 86
1Em seguida, ele foi examinar as
pedras brancas e redondas, e me disse: "Que faremos com essas
pedras?" Eu respondi: "Que sei eu, senhor?" (Ele continuou:)
"Não tens nenhuma idéia sobre isso?" 2Eu respondi: "Senhor, não
conheço esse ofício, não sou talhador de pedras, nem consigo entender
nada." Ele continuou: "Não vês que elas são redondas e que, se eu
quiser deixá-las quadradas, será preciso cortar bastante? Contudo, é preciso
que algumas delas entrem na construção." 3Eu perguntei: "Senhor, se é
necessário, por que te preocupas? Por que não escolhes para a construção
aquelas que preferes e as ajustas na construção?" Ele escolheu as maiores
e mais brilhantes delas, e as lavrou. As virgens as levantaram e as ajustaram
no lado externo da construção. 4As restantes foram levantadas e colocadas na
planície, de onde tinham sido tiradas. Não foram, porém, reprovadas. Ele me
disse: "Porque resta ainda um pouco da torre para construir, e o
proprietário dela quer de todo modo que essas pedras sejam ajustadas à
construção, pois são muito brilhantes." 5Então ele chamou doze mulheres
muito belas, vestidas de preto e cingidas, com os ombros descobertos e os
cabelos soltos. Elas me pareceram selvagens, e o pastor ordenou que levantassem
as pedras rejeitadas da construção e as levassem para as montanhas de onde
tinham sido tiradas. 6EIas as levantaram, alegres, e transportaram todas e as
puseram no lugar de onde haviam sido tiradas. Quando todas as pedras foram
retiradas, e não restou nenhuma pedra ao redor da torre, o pastor me disse:
"Percorramos ao redor da torre, para ver se não há nenhum defeito."
Dei a volta com ele. 7Vendo que a torre era bela em sua construção, o pastor
ficou muito contente. Com efeito, a torre era tão bem construída, que eu
experimentei o desejo de habitá-la, pois ela era construída como se fosse uma
pedra única, sem a mínima juntura. A pedra parecia ter sido cortada da rocha,
pois me parecia formar um único bloco.
CAPÍTULO 87
1Andando com ele, eu estava
contente de ver coisas tão boas. E o pastor me disse: "Vai me buscar cal e
cacos para igualar as formas das pedras que foram levantadas e empregadas na
construção. E preciso que todo o contorno da torre fique igualado." 2 Fiz
conforme ele ordenou e lhe trouxe tudo. Ele pediu: "Ajuda-me, para que a
obra fique logo terminada." Então ele igualou as formas das pedras que
entraram na construção; depois mandou varrer e limpar ao redor da torre. 3As
virgens pegaram vassouras e varreram, tirando toda a sujeira da torre, e
espalharam água. Então o lugar da torre ficou alegre e muito belo. 4O pastor me
disse: "Tudo foi lavado. Se o proprietário vier examinar a torre, não terá
nada a nos reprovar." Dito isso, queria ir embora. 5Eu, porém, o segurei
pelo bornal e comecei a conjurá-lo, pelo Senhor, que me explicasse o que me
mostrara. Ele me disse: "Ainda tenho coisas para fazer. Depois te
explicarei tudo. Espera-me aqui até que eu volte." 6Eu lhe perguntei:
"Senhor, que farei aqui sozinho?" Ele respondeu: "Não estás
sozinho. As virgens estão contigo." Eu lhe pedi: "Recomenda-me então
a elas." Então o pastor as chamou, e lhes disse: "Confio a vós este
homem, até que eu volte." E foi embora. 7Fiquei sozinho com as virgens.
Elas estavam muito contentes, e me trataram com muita atenção, principalmente
as quatro mais gloriosas.
CAPÍTULO 88
1As virgens me disseram: "O
pastor não voltará aqui hoje." Eu perguntei: "Então, o que é que eu
faço?" Elas responderam: "Espera-o até à tarde. Se ele vier, falará
contigo; se não vier, ficarás até que ele volte." 2Eu lhes disse:
"Vou esperá-lo até à tarde. Se não vier, voltarei para casa e retornarei
amanhã de manhã." Elas responderam: "Foste confiado a nós. Portanto,
não podes sair de perto de nós." 3Eu perguntei: "Onde ficarei?"
Elas responderam: "Dormirás conosco, como irmão, e não como marido, pois
tu és nosso irmão e, doravante, habitaremos contigo, porque te amamos
muito." Eu fiquei envergonhado de permanecer com elas. 4Então, aquela que
me parecia ser a primeira delas começou a beijar-me e abraçar-me. As outras,
vendo-a abraçar-me, começaram também a beijar-me, a andar ao redor da torre e a
brincar comigo. 5De minha parte, eu me senti rejuvenescido, e também comecei a
brincar com elas. Umas formavam coros de danças, outras dançavam e outras
cantavam. Eu fiquei em silêncio, passeava com elas ao redor da torre, e estava
alegre com elas. 6Chegando a tarde, quis retirar-me para casa. Elas, porém, não
me deixaram e me retiveram. Fiquei com elas à noite e dormi perto da torre. 7As
virgens estenderam no chão suas túnicas de linho e me fizeram deitar no meio
delas. E nada mais fizeram do que rezar. Eu comecei a rezar sem cessar com
elas, e não menos que elas. As virgens se alegraram, vendo-me rezar assim.
Permaneci aí com as virgens até à manhã seguinte, pela décima hora. 8Em
seguida, o pastor chegou e perguntou: "Não lhe fizestes nenhuma
insolência?" Elas responderam: "Pergunta a ele mesmo." Eu lhe
respondi: "Senhor, estou muito contente de ter ficado com elas." Ele
me perguntou: "O que você comeu?" Eu respondi: "Comi palavras do
Senhor a noite inteira." Ele perguntou: "Elas te receberam bem?"
Eu respondi: "Sim, senhor." 9EIe continuou: "Agora, o que queres
ouvir em primeiro lugar?" Eu disse: "Senhor, quero ouvir na mesma
ordem que me mostraste desde o começo. Peço-te, senhor, que me expliques à
medida que eu for perguntando." Ele me disse: "Explicarei como
quiseres e não esconderei de ti absolutamente nada."
CAPÍTULO 89
1Eu perguntei: "Antes de
tudo, explica-me o que representam a rocha e a porta." Ele me respondeu:
"A rocha e a porta são o Filho de Deus." Eu continuei: "Como é
que a rocha é antiga e a porta é recente?" Ele explicou: "Escuta,
homem insensato, e compreende. 2O Filho de Deus nasceu antes de toda a criação,
embora ele tenha sido o conselheiro de seu Pai para a criação. E por isso que a
rocha é antiga." Eu lhe perguntei: "E por que a porta é nova,
senhor?" 3Ele respondeu: "Por que ele se manifestou nos últimos dias
da consumação. Aporta foi feita recentemente, para que os que devem salvar-se
entrem por ela no Reino de Deus." 4Viste que as pedras que passaram pela
porta foram utilizadas na construção da torre, mas as que não passaram por ela
foram rejeitadas para seu antigo lugar?" Eu respondi: "Sim, senhor,
eu vi." Ele continuou: "Da mesma forma, ninguém entrará no Reino de
Deus, se não tiver recebido o seu nome santo. 5Se quiseres entrar numa cidade e
ela for cercada de muralhas e só houver uma porta, poderias entrar nela sem ser
pela única porta que tem?" Eu respondi: "Como poderia ser de outra
maneira, senhor?" Ele continuou: "Da mesma forma que não poderias
entrar na cidade a não ser pela sua porta, também o homem não pode entrar no
Reino de Deus senão pelo nome de seu Filho amado. 6Viste a multidão que
construía a torre?" Eu respondi: "Sim, senhor, eu vi." Ele
continuou: "Todos eles são anjos gloriosos. E por meio deles que o Senhor
foi cercado com muralha. A porta é o Filho de Deus. É a única entrada para o
Senhor. Ninguém chegará até ele, senão por meio de seu Filho. 7Viste os seis
homens e, no meio deles, um homem grande e glorioso, que andava ao redor da
torre e que rejeitou como indignas as pedras da construção?" Eu disse:
"Sim, senhor, eu vi." 8Ele explicou: "O homem glorioso é o Filho
de Deus, e os outros seis são os anjos gloriosos que o escoltam, à sua direita
e à sua esquerda. Sem ele, nenhum desses anjos gloriosos poderá entrar para
junto de Deus. Quem não tiver recebido o nome dele, não entrará no Reino de
Deus."
CAPÍTULO 90
1Eu perguntei: "O que é a
torre?" Ele disse: "A torre é a Igreja". 2(Eu perguntei:)
"E quem são as virgens?" Ele respondeu: "São espíritos santos.
Um homem não pode entrar de outra forma no Reino de Deus, se essas virgens não
o revestirem com a própria veste delas. Se receberes apenas o nome, mas não a
veste, nada adiantará, porque essas virgens são os poderes do Filho de Deus. Se
levas o nome, mas não a força dele, é em vão que serás o portador do nome. 3As
pedras que viste rejeitadas, são as pessoas que levaram o nome, mas não foram
revestidas com as vestes das virgens." Eu perguntei: "Senhor, qual é
a veste delas?" Ele, respondeu: "O próprio nome delas é sua veste.
Aquele que leva o nome do Filho de Deus, deve levar também os nomes delas,
porque o próprio Filho de Deus leva o nome dessas virgens. 4Todas as pedras que
viste entrar na construção da torre, levadas pela mão delas, e aí permanecem,
são pessoas revestidas com o poder dessas virgens. 5Por isso vês a torre formar
um só bloco com a rocha. O mesmo acontece com os que acreditaram no Senhor por
meio do seu Filho e, revestidos com esses espíritos, formarão um só espírito,
um só corpo, e suas vestes terão uma só cor. Tais pessoas que portam o nome das
virgens têm sua morada na torre." 6Eu perguntei: "Senhor, e as pedras
que foram rejeitadas? Por que o foram? Elas tinham passado pela porta e foram
colocadas na construção da torre pela mão das virgens." Ele respondeu:
"Uma vez que te preocupas de tudo e pesquisas acuradamente, escuta o que
se refere às pedras rejeitadas. 7Todos esses indivíduos receberam o nome do
Filho de Deus e também o poder das virgens. Acolhendo esses espíritos, eles
foram fortalecidos e se encontraram entre os servos de Deus. Tinham um só
espírito, um só corpo e uma só veste, pois todos pensavam a mesma coisa e
praticavam a justiça. 8Depois de certo tempo, porém, foram seduzidos pelas
mulheres que viste vestidas de preto, com os ombros descobertos, cabelos soltos
e belos. Vendo-as, eles as desejaram e se revestiram com o poder delas,
rejeitando a veste e o poder das virgens. 9Esses foram rejeitados da casa de
Deus e entregues a essas mulheres. Mas os que não se deixaram seduzir pela
beleza delas, permaneceram na casa de Deus. Aí tens a explicação das pedras
rejeitadas."
CAPÍTULO 91
1Eu perguntei: "Senhor, se
esses homens, mesmo que sejam assim, fizerem penitência, rejeitarem o desejo
por essas mulheres e voltarem às virgens, andando conforme seus poderes e suas
obras não entrarão na casa de Deus?" 2Ele respondeu: "Eles entrarão
se renunciarem às obras dessas mulheres, assumirem o poder das virgens e
andarem em suas obras. Houve uma pausa na construção, justamente para que eles
pudessem, no caso de se arrependerem, entrar de novo na construção da torre.
Caso não fizerem penitência, outros entrarão, e eles serão definitivamente rejeitados."
3Dei graças ao Senhor por todas essas coisas, por se ter compadecido de todos
os que são chamados pelo nome dele, por nos ter enviado o anjo da penitência, a
nós que pecamos contra ele; por ter concedido nova vida, a nós que já estávamos
corrompidos e sem esperança de viver. 4Eu disse: "Agora, Senhor,
explica-me por que a torre não está construída no chão, mas sobre a rocha e
sobre a porta." Ele respondeu: "Ainda és idiota e insensato!" Eu
repliquei: "Senhor, tenho necessidade de perguntar tudo, pois não consigo
compreender absolutamente nada. Essas coisas são grandes, gloriosas e difíceis
para os homens compreenderem." 5Ele explicou: "Escuta. O nome do
Filho de Deus é grande, imenso e sustenta o mundo inteiro. Se toda a criação é
sustentada pelo Filho de Deus, o que pensar então daqueles que foram chamados
por ele, que levam o nome do Filho de Deus e andam conforme os seus
mandamentos? 6Estás vendo, portanto, os que ele sustenta? São os que levam o
seu nome de todo o coração. Por isso, ele se constituiu alicerce deles e, para
ele é uma alegria sustentá-los, pois eles não se envergonham de levar o nome
dele."
CAPÍTULO 92
1Eu pedi: "Senhor, dize-me o
nome das virgens e das mulheres trajadas de preto." Ele respondeu:
"Escuta o nome das virgens mais fortes, que estão nos ângulos (da porta).
2A primeira é a Fé; a segunda, a Temperança; a terceira, a Força; a quarta, a
Paciência. As outras, colocadas entre as primeiras, chamam-se: Simplicidade,
Inocência, Castidade, Alegria, Verdade, Inteligência, Concórdia, Caridade.
Aquele que leva esses nomes e também o nome do Filho de Deus, poderá entrar no
Reino de Deus. 3Escuta também os nomes das mulheres trajadas de preto. Quatro
delas são mais fortes: a primeira é a Incredulidade; a segunda, Intemperança; a
terceira, Desobediência; a quarta, Engano. As que se seguem chamam-se:
Tristeza, Maldade, Dissolução, Cólera, Falsidade, Insensatez, Maledicência e
Ódio. O servo de Deus que leva esses nomes verá o Reino de Deus, mas nele não
entrará." 4Eu perguntei: "Senhor, e as pedras que saíram do abismo e
foram ajustadas à construção? Quem são elas?" Ele respondeu: "As dez
primeiras, colocadas no alicerce, é a primeira geração; as vinte e cinco
seguintes são a segunda geração de homens justos; as trinta e cinco seguintes
são os profetas de Deus e seus servos; as quarenta são os apóstolos e doutores
que anunciaram o Filho de Deus." 5Eu perguntei: "Senhor, por que as
virgens passaram as pedras pela porta, para entregá-las aos construtores da
torre?" 6EIe respondeu: "Porque eles foram os primeiros a levar esses
espíritos e não se separaram uns dos outros; nem os espíritos se separaram dos
homens; nem os homens, dos espíritos. Os espíritos permaneceram com eles até à
morte. Se não levassem em si esses espíritos, tais homens não teriam sido úteis
à construção da torre."
CAPÍTULO 93
1Eu pedi: "Senhor,
explica-me mais ainda." Ele respondeu: "O que procuras mais?" Eu
continuei: "Senhor, por que as pedras tiveram que subir do fundo, para ser
colocadas na construção da torre, embora tivessem esses espíritos?" 2Ele
respondeu: "Era preciso que saíssem da água, para receber a vida. Elas não
podiam entrar no Reino de Deus, senão deixando a mortalidade da vida anterior.
3Tais mortos receberam o selo do Filho de Deus e entraram no Reino de Deus. De
fato, antes de levar o nome do Filho de Deus o homem está morto. Quando recebe
o selo, deixa a morte e retoma a vida. 4O selo é a água: eles descem à água e
daí saem vivos. Também a eles foi anunciado esse selo, e eles o usaram para
entrar no Reino de Deus." 5Eu perguntei: "Senhor, por que as quarenta
pedras também sobem com eles do abismo, visto que estas já haviam recebido o
selo?" Ele respondeu". "Porque esses apóstolos e doutores que
anunciaram o nome do Filho de Deus, adormecidos no poder e na fé do Filho de
Deus, o anunciaram também àqueles que tinham morrido antes deles, e lhes deram
o selo do anúncio. 6Desceram com eles à água e novamente subiram. Contudo,
desceram vivos e subiram vivos, enquanto os que estavam mortos antes deles
desceram mortos e subiram vivos. E graças a eles que estes últimos receberam o
nome do Filho de Deus. Por isso, subiram com eles, foram ajustados à construção
da torre, e colocados sem ser lavrados, porque morreram na justiça e na pureza.
Apenas não tinham o selo. Agora tens a explicação dessas coisas." Eu
respondi: "Sim, senhor."
O Pastor de Hermas - Parábolas -
Parte II
Por Hermas
Tradução: Ivo Storniolo, Euclides
M. Balancin
Fonte: Coleção Patrística Vol I,
Padres Apostólicos. Ed. Paulus
CAPÍTULO 94
1(Eu perguntei): "Senhor,
explica-me agora a respeito das montanhas. Por que são tão diferentes entre si
e suas formas variadas?" Ele respondeu: "Escuta. Essas doze montanhas
são as doze tribos, que habitam o mundo inteiro. O Filho de Deus lhes foi
anunciado por meio dos apóstolos." 2(Eu pedi): "Porque as montanhas
têm formas variadas entre si? Explica-me, senhor." Ele respondeu:
"Escuta. Essas doze tribos que habitam o mundo inteiro são doze nações.
Elas são diferentes no sentimento e no pensamento. Assim como são diversas as
montanhas que vês, também o são as qualidades do pensamento e do sentimento das
nações. Eu te explicarei, porém, o comportamento de cada uma em
particular." 3Eu pedi: "Senhor, explica-me primeiramente porque,
apesar da diversidade dessas montanhas, as pedras, quando colocadas na
construção, se tornaram brilhantes e com a mesma cor branca, como as pedras que
subiram do abismo." 4Ele me respondeu: "E porque todas as nações que
habitam debaixo do céu, tendo ouvido e acreditado, foram chamadas com o nome do
Filho de Deus. Depor de terem recebido o selo, tiveram todas um só sentimento e
um só pensamento, uma só fé e uma só caridade. Com o nome levaram também os
espíritos das virgens. Por isso, a construção da torre tornou-se de uma só cor,
brilhante como o sol. 5Mas, depois de terem entrado para o mesmo lugar e terem
formado um só corpo, alguns deles se contaminaram. Foram excluídos do povo dos
justos e se tornaram como antes, ou talvez piores."
CAPÍTULO 95
1Eu perguntei: "Senhor, como
puderam tornar-se piores, depois de conhecer a Deus?" Ele respondeu:
"Aquele que não conhece a Deus e pratica o mal, merece alguma punição por
seu mal. Contudo, aquele que conhece a Deus não deve praticar o mal, e sim o
bem. 2Se aquele que deve praticar o bem, pratica o mal, não te parece que
comete erro maior do que aquele que não conhece a Deus? Por isso, aqueles que
não conhecem a Deus e praticam o mal, são condenados à morte. Mas os que
conhecem a Deus, que viram sua grandeza, e ainda praticam o mal, serão duplamente
castigados, e morrerão para sempre. É desse modo que a Igreja de Deus será
purificada. 3Viste essas pedras tiradas da torre, entregues aos espíritos maus
e rejeitadas dela. Aqueles que tiverem sido purificados, formarão um só corpo.
Desse modo, a torre, depois de purificada, ficou aparentemente como de uma só
pedra. Igualmente acontecerá com a Igreja de Deus, depois que for purificada e
forem expulsos os maus, os hipócritas, os blasfemadores, os vacilantes e os que
tiverem praticado todo tipo de mal. 4Depois da exclusão deles, a Igreja de Deus
será um só corpo, um só sentimento, um só pensamento, uma só fé, uma só
caridade. Então, o Filho de Deus se alegrará e se regozijará com eles por ter
encontrado puro o seu povo." Eu disse: "Senhor, tudo isso é grande e
glorioso. 5Mas agora, Senhor, mostra-me o poder e a conduta de cada uma das
montanhas, a fim de que cada alma fiel ao Senhor, ouvindo isso, glorifique o
seu nome grande, admirável e glorioso." Ele respondeu: "Escuta a
respeito da diversidade das montanhas e das doze nações."
CAPÍTULO 96
1"Os fiéis que vieram da
primeira montanha, a preta, são apóstatas, pessoas que blasfemaram contra o
Senhor e traíram os servos de Deus. Para esses não há penitência, mas a morte;
são pretos porque é geração sem lei. 2Os fiéis que vieram da segunda montanha,
a seca, são hipócritas e mestres do mal. São semelhantes aos anteriores: não
produziam nenhum fruto de justiça. Com efeito, assim como a montanha deles é
infrutífera, tais homens possuem o nome, mas são vazios de fé, e neles não há
nenhum fruto de verdade. A penitência é possível para eles, caso se arrependam
logo; porém, se tardarem, a morte será o destino deles, junto aos
primeiros." 3Eu perguntei: "Senhor, por que existe penitência para
estes, enquanto para os primeiros não? Até certo ponto, as ações deles são
semelhantes." Ele respondeu: "A penitência é possível para eles,
porque não blasfemaram o seu Senhor, nem traíram os servos de Deus. Agiram
hipocritamente pelo desejo do lucro, e cada um ensinou conforme os desejos dos
homens pecadores. Por isso, sofrerão alguma pena. Para eles há possibilidade de
penitência, porque não foram blasfemadores, nem traidores."
CAPÍTULO 97
1"Os fiéis que vieram da
terceira montanha, a coberta de espinhos e cardos, são estes: alguns deles são
ricos e outros enredados em numerosos negócios. Os cardos simbolizam os ricos,
e os espinhos são os que se enredaram em múltiplos negócios. 2Estes últimos,
enredados em múltiplos negócios, não se ligam aos servos de Deus, mas se
extraviam, afogados em seus negócios. Os ricos dificilmente se ligam aos servos
de Deus, porque temem que alguém lhes peça alguma coisa e, por isso,
dificilmente entrarão no Reino de Deus. 3Assim como é difícil andar descalço
sobre os cardos, também-o é para eles entrar no Reino de Deus. 4Todavia, para
todos esses existe possibilidade de penitência, com a condição de que seja
logo, para recuperar nesses dias o que não fizeram no passado, e assim praticar
alguma coisa boa. Se fizerem penitência e praticarem algo de bom, viverão em
Deus; mas, se persistirem obstinados em suas obras, serão entregues àquelas
mulheres que os matarão."
CAPÍTULO 98
1"Os fiéis que vieram da
quarta montanha, a que possui muita vegetação verde na ponta e seca perto das
raízes, e alguma ressequida pelo sol, são os seguintes: alguns são vacilantes,
outros têm o Senhor nos lábios, mas não no coração. 2Por isso, a base deles é
seca e sem força; somente suas palavras são vivas, mas suas obras são mortas.
Tais pessoas não estão vivas, nem mortas; são parecidas com os vacilantes, que
não são nem verdes, nem secos, pois eles não vivem nem estão mortos. 3Assim
como essa vegetação seca ao ver o sol, também os vacilantes, quando ouvem falar
de perseguição, por causa de sua covardia, sacrificam aos ídolos e se envergonham
do nome do seu Senhor. 4Eles, portanto, nem vivem, nem estão mortos. Contudo,
também eles, se fizerem logo penitência, viverão; se não fizerem penitência,
porém, já estão entregues às mulheres que lhes tirarão a vida."
CAPÍTULO 99
1"Os fiéis que vieram da
quinta montanha, que tinha vegetação verde e era pedregosa, são os seguintes:
indóceis, arrogantes, cheios de si; querem saber tudo, mas não sabem nada. 2Por
causa de sua presunção, a inteligência se afastou deles e a loucura insensata
neles penetrou. Gabam-se de como se tivessem inteligência e desejam ser
mestres, quando são apenas insensatos. 3Por causa desse orgulho, muitos,
enaltecendo a si mesmos, acabaram se esvaziando. De fato, a presunção e a
vaidade são um grande demônio. Muitos deles, foram rejeitados; alguns fizeram
penitência, creram e, reconhecendo sua própria insensatez, submeteram-se aos
que têm inteligência. 4Os outros também ainda podem fazer penitência, pois não
eram maus, mas idiotas e insensatos. Se fizerem penitência, viverão em Deus;
mas, se não fizerem penitência, habitarão com as mulheres que lhes fazem
mal."
CAPÍTULO 100
1"Os fiéis que vieram da
sexta montanha, a que tem grandes e pequenas fendas e vegetação murcha nas
fendas, são os seguintes: 2os que têm pequenas fendas são os que guardam algum
rancor mútuo e, por causa de suas maledicências recíprocas, estão murchos na
fé. Muitos deles, porém, fizeram penitência; outros a farão quando ouvirem os
meus mandamentos, pois suas maledicências são pequenas e eles se arrependerão logo.
3Os que têm grandes fendas, obstinam-se na maledicência, tornam-se rancorosos e
furiosos uns com os outros. Esses foram rejeitados para longe da torre e
julgados indignos da sua construção. Tais homens dificilmente viverão. 4Deus
nosso Senhor, que domina tudo e tem poder sobre toda a sua criação, não guarda
rancor para com os que confessam seus pecados. Se ele é misericordioso, por que
o homem, que é mortal e cheio de pecados, guarda rancor contra o homem, como se
tivesse poder de destruí-lo ou salvá-lo? 5Eu, o anjo da penitência, vos digo:
Vós que tendes essa tendência, afastai-a e fazei penitência. O Senhor curará
vossos pecados passados, se vos purificardes desse demônio; caso contrário,
sereis entregues a ele para a morte."
CAPÍTULO 101
1"Os fiéis da sétima
montanha, onde crescia vegetação verde e viçosa, e onde tudo era exuberante,
todo tipo de rebanho e aves se alimentavam da vegetação dessa montanha, e cuja
vegetação, quanto mais era cortada, mais abundante brotava, são os seguintes:
2aqueles que sempre foram simples, inocentes, felizes, sem rancor mútuo, sempre
satisfeitos com os servos de Deus e revestidos com o santo espírito dessas
virgens, sempre cheios de compaixão para com todos os homens e, graças a seus
esforços, puderam socorrer a todos, sem altivez e sem hesitação. 3O Senhor,
vendo sua simplicidade e candura, multiplicou o fruto do trabalho de suas mãos
e os favoreceu em todas as ações. 4Eu, o anjo da penitência, digo a vós que
assim sois: permanecei assim, e vossa descendência jamais será destruída. Com
efeito, o Senhor vos experimentou e vos inscreveu no número dos nossos, e toda
a vossa posteridade habitará com o Filho de Deus, pois recebestes do seu
Espírito."
CAPÍTULO 102
1"Os fiéis que vieram da
oitava montanha, cheia de fontes, nas quais ia beber toda a criação do Senhor,
são os seguintes: 2apóstolos e doutores que anunciaram no mundo inteiro e que
ensinaram, com santidade e pureza, a palavra do Senhor. Não se deixaram de modo
algum desviar por paixão má, mas sempre caminharam na justiça e na verdade,
conforme o Espírito Santo que receberam. O lugar desses homens é ao lado dos
anjos."
CAPÍTULO 103
1"Os fiéis que vieram da
nona montanha, repleta de répteis e feras que causam a morte do homem, são os
seguintes: 2aqueles que têm manchas são diáconos que administraram mal a sua
função, roubando a subsistência de viúvas e órfãos Enriqueceram-se com os
recursos que receberam para socorrer. Se continuarem nessa ambição, já estão
mortos e não têm mais nenhuma esperança de viver. Contudo, se fizerem
penitência e desempenharem retamente seu ministério, poderão viver. 3Os que têm
sarna são aqueles que renegaram seu Senhor e não se converteram a ele.
Tornando-se áridos e solitários, não se vinculam aos servos de Deus, mas vivem
isolados e perdem a vida. 4 A vinha abandonada em alguma parte degenera por
falta de cuidados; sufocada pelas ervas daninhas, com o tempo ela se torna
selvagem, e seus frutos não são mais úteis para o seu dono. Da mesma forma,
esses homens, abandonados a si mesmos, tornam-se selvagens e inúteis para o seu
Senhor. 5Eles ainda podem fazer penitência, se não tiverem de coração renegado
o Senhor; contudo, se alguém o tiver renegado de coração, não sei se poderá
viver. 6O que digo não vale para o tempo presente, de modo que alguém o negue e
faça penitência. Para aqueles que o renegaram no passado é que parece haver
possibilidade de penitência. Portanto, se alguém quiser fazer penitência, que a
faça logo, antes que a torre esteja terminada. Caso contrário, será morto pelas
mulheres. 7Os mutilados são os espertos e maledicentes; eles são as feras que
viste na montanha. Essas feras, com seu veneno, matam e destroem o homem. Da
mesma forma, as palavras dessas pessoas envenenam o homem e o fazem morrer.
8Eles estão mutilados na fé, por causa da conduta que assumem. Alguns fizeram
penitência e foram salvos; os outros, sendo como são, podem ser salvos, se se
arrependerem. Se não fizerem penitência, morrerão vitimados pelas mulheres, das
quais têm o poder."
CAPÍTULO 104
1"Os fiéis que vieram da
décima montanha, onde as arvores abrigavam ovelhas, são os seguintes: 2bispos e
pessoas hospitaleiras, que sempre receberam com prazer os servos de Deus em sua
casa, sem nenhuma hipocrisia. Os bispos, com seu ministério, continuamente
protegeram os necessitados e as viúvas, e sempre levaram vida pura. 3Eles
serão, por sua vez, protegidos pelo Senhor, para sempre. Os que assim agiram
são gloriosos junto de Deus; seu lugar já é junto com os anjos, se perseverarem
até o fim no serviço ao Senhor.
CAPÍTULO 105
1"Os fiéis que vieram da
décima primeira montanha, cujas árvores estavam cheias de frutos de várias
espécies, são os seguintes: 2homens que sofreram por causa do nome do Filho de
Deus, que sofreram corajosamente, de todo o coração, entregando a própria
vida." 3Eu perguntei: "Senhor, por que todas essas árvores têm frutos
e, algumas delas, frutos mais belos?" Ele respondeu: "Escuta. Todos
aqueles que sofreram por causa do Nome são gloriosos junto de Deus. Os pecados
de todos eles foram perdoados, porque sofreram por causa do nome do Filho de
Deus. Escuta, porém, por que os frutos deles são variados, e alguns deles
melhores. 4Aqueles que foram arrastados diante das autoridades, submetidos a
interrogatórios e não renegaram, mas sofreram corajosamente, são muito mais
gloriosos junto do Senhor, e o fruto deles é o melhor. Aqueles, porém, que
tremeram e hesitaram e interrogavam no coração se renegariam ou confessariam, e
sofreram, esses levam frutos inferiores, por lhes ter entrado essa intenção no
coração. Com efeito, é má intenção um servo renegar seu próprio Senhor.
5Vigiai, portanto, vós que tendes essa intenção, para que ela não permaneça em
vosso coração, e morrais para Deus. Vós que sofreis por causa do Nome deveis
glorificar a Deus, por vos ter julgado dignos de levar seu nome e ser curados
de todos os vossos pecados. 6Felicitai-vos, portanto, e crede também que
realizastes grande obra, quando algum de vós sofrer por causa de Deus. O Senhor
vos agracia com a vida, e vós não compreendeis. De fato, os vossos pecados se
tornaram pesados, e se não sofrêsseis pelo nome do Senhor, estaríeis mortos
para Deus por causa de vossos pecados. 7Digo isso a vós que hesitais em negar
ou confessar. Confessai que tendes um Senhor, pois, se o negardes, sereis
entregues à prisão. 8Se os pagãos punem o escravo que renega seu senhor, o que
pensais que fará convosco o vosso Senhor, que tem poder sobre todas as coisas?
Afastai esses desejos de vossos corações, a fim de viver eternamente para
Deus."
CAPÍTULO 106
1"Os fiéis que vieram da
décima segunda montanha, a branca, são os seguintes: são como crianças
pequeninas, em cujo coração não entra maldade nenhuma. Eles nem sequer sabem o
que é o mal, e sempre permaneceram na inocência. 2Tais homens certamente
habitarão no Reino de Deus, pois em nada violaram os mandamentos de Deus, mas
perseveraram todos os dias de sua vida na inocência e no mesmo sentimento.
3Todos vós que assim perseverardes e fordes sem malícia, como crianças
pequenas, sereis mais gloriosos do que todos os anteriores. Com efeito, todas
as crianças são gloriosas diante de Deus e os primeiras diante dele. Felizes,
portanto, sereis vós, se arrancardes de vós mesmos o mal e vos revestirdes da
inocência, pois sereis os primeiros de todos a viver em Deus." 4Depois que
ele terminou (de explicar) as parábolas a respeito das montanhas, eu lhe pedi:
"Senhor, explica-me agora o que são as pedras tiradas da planície e
colocadas no lugar das pedras que foram tiradas da torre, e também as pedras
redondas que foram colocadas na construção, e aquelas que ainda são
redondas."
CAPÍTULO 107
1Ele respondeu: "Escuta
também o sentido de todas essas coisas. As pedras tiradas da planície e que
entraram na construção da torre, no lugar das pedras que foram tiradas, são as
raízes dessa montanha branca .2Como os fiéis que vieram dessa montanha branca
foram todos encontrados inocentes, o Senhor da torre mandou empregar, na
construção da torre, pedras que vieram das raízes dessa montanha. De fato, ele
sabia que se essas pedras entrassem na construção da torpe, elas permaneceriam
brilhantes, e nenhuma delas escureceria. 3Se ele tivesse acrescentado pedras
vindas de outras montanhas ter-lhe-ia sido necessário examinar e purificar a
torre novamente. Estes, porém, foram encontrados brancos, tanto os que creram,
como os que creriam, pois eles pertencem à mesma geração. Feliz essa geração,
pois ela é inocente! 4Escuta agora o que se refere às pedras redondas e
brilhantes. Elas vêm todas dessa montanha branca. Escuta, porém, por que foram
encontradas redondas. Suas riquezas os obscureceram um pouco na verdade e os
ofuscaram; porém, nunca se afastaram de Deus, nem saiu palavra má, de sua boca,
mas sempre a eqüidade e a virtude da verdade. 5Vendo, pela mente deles, que
poderiam servir à verdade permanecendo bons, o Senhor mandou cortar suas
riquezas, sem as tirar de todo, para que pudessem fazer algum bem com o que
lhes restava. Essas pessoas viverão em Deus, porque são de índole boa. E por
isso que essas pedras foram cortadas ligeiramente, e depois colocadas na
construção dessa torre."
CAPÍTULO 108
1"Quanto às outras, que até
agora se conservaram redondas e não foram ajustadas à construção, porque não
tinham ainda recebido o selo, foram recolocadas em seu lugar; de fato, foram
encontradas demasiadamente redondas. 2É
preciso cortá-los deste século e da vaidade de suas riquezas, e então se
adaptarão ao Reino de Deus. De fato, é necessário que eles entrem no Reino de
Deus, pois o Senhor abençoou essa geração inocente. Dessa geração, ninguém
perecerá. Pode ser que alguém deles, seduzido pelo diabo infame, cometa algum
pecado e imediatamente recorra a seu Senhor. 3Eu, o anjo da penitência, vos
julgo todos felizes. Sois inocentes como as crianças, pois vossa herança é boa
e honrada diante de Deus. 4Digo a todos vós, que recebestes esse selo: sede
simples, esquecei as ofensas, não permaneçais em vossa malícia ou na lembrança
amarga das ofensas. Tende um só espírito, remediai e tirai de vós essas más
divisões, a fim de que o Senhor das ovelhas se alegre com isso. 5Ele ficará
contente, se encontrar todas as suas ovelhas, e nenhuma transviada. Ai, porém,
dos pastores, se ele encontrar transviada alguma delas. 6Se os próprios
pastores forem encontrados desviados, o que poderão dizer ao Senhor do rebanho?
Poderão talvez dizer que foram desviados pelas ovelhas? Não se dará crédito a
eles, pois é incrível que o pastor sofra alguma coisa por parte das ovelhas.
Será mais gravemente punido por causa de sua mentira. Eu também sou pastor, e é
preciso que eu preste rigorosamente conta de vós."
CAPÍTULO 109
1"Curai-vos, portanto,
enquanto a torre ainda está em construção. 2O Senhor habita nos homens que amam
a paz, pois de fato a paz lhe é agradável, e ele se afasta para bem longe dos
que brigam e dos que se perderam pela malícia. Devolvei-lhe, portanto, o
espírito íntegro, como o recebestes. 3Se entregas ao lavadeiro uma roupa nova e
intacta, esperas recebê-la de volta intacta. Se o lavadeiro te devolver a roupa
rasgada, tu a receberás? Não te irritarás e o perseguirás com reprovação,
dizendo: "Eu te entreguei uma roupa intacta. Por que a rasgaste,
tornando-a inútil? Por causa do rasgão que nela fizeste, agora não pode ser
mais usada." Não dirás tudo isso ao lavadeiro, por causa do rasgão que ele
fez em tua roupa? 4Se ficas aborrecido assim com a tua roupa e te lamentas, por
não tê-la recebido intacta, o que julgas que te fará o Senhor, que te deu
espírito intacto, e tu o devolves completamente inútil, a ponto de não servir
para mais nada ao teu Senhor? De fato, ele se tornou inútil, desde o dia em que
o corrompeste. O Senhor desse espírito não te fará morrer por teres feito
isso?" 5Eu respondi: "Certamente. Ele tratará assim todos aqueles que
conservarem o rancor." Ele concluiu: "Não calceis nos pés a clemência
dele, mas glorificai-o por ser tão paciente frente aos vossos pecados e por não
ser semelhante a vós. Fazei, portanto, penitência útil para vós."
CAPÍTULO 110
1Eu, o pastor, o anjo da
penitência, mostrei e expliquei aos servos de Deus todas essas coisas, que
estão acima escritas. Portanto, podereis viver se acreditardes e ouvirdes as
minhas palavras, se caminhardes nelas e corrigirdes os vossos caminhos. No
entanto, se permanecerdes na malícia e no rancor, não vivereis em Deus. Tudo o
que devia dizer, eu vos disse. 2Então o pastor me disse: "Fizeste-me todas
as perguntas?" Eu respondi: "Sim, senhor." (Então ele me
perguntou:) "Por que não me perguntaste sobre a forma das pedras
recolocadas na construção, das quais melhoramos as formas?" Eu respondi:
"Senhor, eu esqueci." 3Ele explicou: "Escuta agora sobre elas.
São aqueles que ouviram os meus mandamentos e fizeram penitência de todo o
coração. Tendo visto que a penitência deles era boa e pura, e que podiam nela
perseverar, o Senhor mandou apagar seus pecados anteriores. Aquelas formas eram
os pecados deles, e foram igualadas, para que não aparecessem mais."
DÉCIMA PARÁBOLA
CAPÍTULO 111
1 Quando terminei de escrever
este livro, o anjo que me confiara a esse pastor, veio à casa onde eu me
encontrava, e sentou sobre o leito. O pastor apareceu de pé à direita. Então o
anjo me chamou, e disse: 2"Eu te confiei a esse pastor a ti e à tua casa,
para que fosses protegido por ele." Eu respondi: "Sim, senhor."
Ele continuou: "Se queres, portanto, ser protegido de toda tribulação e
violência, ter sucesso em toda boa obra e palavra, e ter toda a virtude da
eqüidade, caminha nos seus mandamentos que te dei, e poderás dominar todo mal.
3Com efeito, se guardares os seus mandamentos, toda ambição e delícias deste
mundo serão dominadas, e o sucesso te acompanhará em toda boa obra. Acolhe em
ti a sua santidade e a sua modéstia e dize a todos que ele goza de grande honra
e dignidade junto ao Senhor. Ele detém grande poder, e a sua função é forte.
Somente a ele foi conferido o poder da penitência para o mundo inteiro. Não te
parece poderoso? Mas vós desprezais a sua santidade e moderação, que ele tem
para convosco."
CAPÍTULO 112
1 Eu disse: "Senhor,
pergunta ao pastor se eu fiz alguma coisa errada desde que ele está em minha
casa." 2O anjo respondeu: "(quanto a mim, sei que não fizeste nada de
errado e que também não o farás. Eu te digo isso para que perseveres. O pastor
disse-me que tem boa impressão de ti. Quanto a ti, transmitirás essas palavras
aos outros, para que aqueles que fizeram ou estão para fazer penitência, tenham
os mesmos sentimentos que tu. Dessa forma, o pastor falará bem deles para mim,
e eu ao Senhor." 3Eu disse: "Senhor, de minha parte mostrarei a todo
homem as grandezas do Senhor. E espero que todos os que outrora pecaram, ao
ouvirem essas coisas, façam espontaneamente penitência, para recuperar a
vida." 4Ele me disse: "Permanece nessa missão, realizando-a até o
fim. Todos aqueles que praticam os mandamentos do pastor, terão vida e grande
honra junto ao Senhor. Por outro lado, todos aqueles que não observam seus
mandamentos, afastam-se da vida e desprezam o pastor. No entanto, o pastor, tem
a sua honra junto de Deus. Todos aqueles que o desprezam e não observam seus
mandamentos, se entregam à morte, e cada um deles se torna réu do seu próprio
sangue. Digo-te mais uma vez: coloca-te a serviço desses mandamentos e terás o
remédio para os seus pecados."
CAPÍTULO 113
1 "Eu te enviei essas
virgens, para que habitem contigo; percebi que são afáveis contigo. Tu as tens
como auxiliares, de modo que possas observar melhor os mandamentos do pastor.
Não é possível observar esses mandamentos, sem essas virgens. Vejo, porém, que
elas estão contigo de boa vontade; mas ordenei-lhes que de modo algum se
afastem de tua casa. 2Apenas limpa bem a tua casa, pois elas habitarão com
prazerem casa limpa. Elas são limpas e castas, ativas, e todas gozam de grande
crédito junto ao Senhor. Portanto, se encontrarem tua casa limpa, permanecerão
contigo. Se houver, porém, alguma coisa poluída, imediatamente elas deixarão
tua casa, pois essas virgens não gostam de nenhum tipo de poluição." 3Eu
lhe respondi: "Senhor, espero poder agradar-lhes, de modo que elas habitem
sempre em minha casa de boa vontade. O pastor, a quem me confiaste, não se queixa
de mim; elas também não se queixarão de mim." 4O anjo disse ao pastor:
"Vejo que o servo de Deus quer viver, que guardará esses mandamentos, e
instalará as virgens numa casa limpa." 5Tendo dito isso, confiou-me de
novo ao pastor, chamou as virgens e lhes disse: "Como estou vendo que
habitais com satisfação na casa desse homem, eu vo-lo recomendo, tanto a ele
como à sua casa, para que não vos afasteis da casa dele". Elas, por sua
vez, ouviram com prazer essas palavras.
CAPÍTULO 114
1 Em seguida, ele me disse:
"Sê forte nesse ministério, mostra a todos os homens as grandezas do
Senhor, e alcançarás a graça nesse ministério. Todo aquele que se comportar
conforme esses mandamentos, viverá, e será feliz em sua vida. Por outro lado,
quem os deixar à margem, não viverá, e será infeliz em sua vida. 2Dize a todos
que não deixem de fazer tudo o que puderem praticar de bom, porque praticar
boas obras é útil para eles. Digo também que é necessário arrancar da miséria
todo homem. O necessitado e que sofre revezes em sua vida cotidiana está em
grande tormento e angústia. 3Aquele, pois, que livrar uma pessoa da
necessidade, adquire para si uma grande alegria. Com efeito, quem se encontra
na miséria, sofre o mesmo tormento e as mesmas torturas que alguém que está na
prisão. Muitos, não podendo suportar essas calamidades, se suicidam. Aquele,
portanto, que conhece a miséria de tal homem e dela não o retira, comete grande
pecado e se torna réu do sangue dele. 4Fazei, portanto, boas obras, todos vós
que recebestes bens do Senhor, para que a construção da torre não termine,
enquanto tardais em praticá-las. E por vossa causa que os trabalhos da
construção foram interrompidos. Portanto, se não vos apressais em agir bem, a
torre será terminada, e vós sereis excluídos dela." 5Quando ele terminou
de falar comigo, o anjo se ergueu do leito e, tomando consigo o pastor e as
virgens, retirou-se. Disse-me, porém, que me enviaria de novo o pastor e as
virgens à minha casa.